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Cinquenta Tons de Cinza

Anastasia Steele (Dakota Johnson) é uma estudante de literatura inglesa de 21 anos, independente e esforçada, que pouco conhece sobre relações sexuais. Até que, para ajudar uma amiga, ela entrevista o jovem empresário Christian Grey (Jamie Dornan) para o jornal de sua faculdade. Grey fica encantado por ela, mas ele não é o tipo de cara que procura romance. Seus interesses são outros. Anastasia também se interessa por ele, e quando cede à paixão, se envolve em um relacionamento cujas regras são estabelecidas por um contrato, em que os dois devem negociar os termos e limites para práticas sexuais de BDSM. Grey é um dominador e quer que Anastasia seja sua submissa.

(Fifty Shades of Grey) – Romance. Estados Unidos, 2015.

De Sam Taylor-Johnson. Com Jamie Dornan, Dakota Johnson, Jennifer Ehle, Luke Grimes, Eloise Mumford, Victor Rasuk, Max Martini e Rita Ora. 125min. Classificação: 16 anos.

Cinquenta Tons de Cinza


CINQUENTA TONS DE CINZA – RESENHA

Sejamos sinceros, Cinquenta Tons de Cinza não é um material tão fácil de ser adaptado. O romance erótico de EL James já vendeu mais de 100 milhões de cópias em todo o mundo, traduzido para mais que cinquenta idiomas, e ainda assim, não é um primor de história ou escrita. O material original é, na verdade, inspirado por uma fanfic de Crepúsculo, a famosa série de romances de Stephenie Meyer. O livro de James não é bom; na verdade, passa muito longe disso. E sim, eu li o livro. A adaptação cinematográfica, pelo contrário, funciona bem dentro de sua proposta. E sim, eu gostei do filme.

As piores partes de Cinquenta Tons de Cinza foram cortadas ou sutilmente modificadas para se adequar ao meio audiovisual, e se transformou em uma história surpreendentemente instigante nas mãos da excelente roteirista Kelly Marcel (Walt nos Bastidores de Mary Poppins) e da diretora Sam Taylor-Johnson (O Garoto de Liverpool), igualmente competente na condução dessa adaptação. Os diálogos do livro, que são sofríveis, são deixados intactos (como chamarizes para os fãs do original) e podemos dizer que as conversas são os momentos mais dolorosos do filme, pois não funcionam bem com as boas cenas construídas por roteirista e diretora. Dá para entender por que elas deixaram os diálogos. Mas no que elas puderam mexer e melhorar, elas mexeram e melhoraram. As duas fizeram o possível para transpor uma narrativa literária cheia de problemas (que poderia ser mais adequada como filme de televisão) para um filme de cinema bem concebido.

Anastasia Steele, a protagonista que passa boa parte dos livros divagando sobre sua (maldita) “deusa interior” e sua obsessão com o namorado controlador, é transformada em um ser humano mais crível por Dakota Johnson, que consegue transformar a personagem em alguém que valeria a pena conhecer.

Johnson (que é filha de Don Johnson e Melanie Griffith) cria uma mulher de olhar hesitante, e ainda assim atraente, que estranha e questiona o novo mundo que lhe é apresentado pelo jovem bilionário Christian Grey. Ele possui gostos sexuais singulares, adepto de BDSM — que significa “Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo” —, um grupo de práticas sexuais cujo objetivo é conceder prazer através da troca erótica de poder. Ela não compreende esse mundo, e se comporta como alguém que pode até se dispor a entrar nele, mas não sem conhecê-lo e entendê-lo primeiro. A Anastasia do filme não se deixa ser tão facilmente controlada como no livro. Ela é mais questionadora aqui, e isso é uma vantagem. Outra vantagem é que em nenhum momento ela menciona a (maldita) “deusa interior”… obrigado por isso, filme!

Muitos dos que criticam os livros dizem que o BDSM na história é risível. Talvez seja mesmo. Christian faz carinho quase tão frequentemente quanto provoca dor. O sexo no filme segue um caminho semelhante. Cinquenta Tons de Cinza tem mais cenas de sexo do que um típico filme de classificação indicativa 16 anos, e ainda assim, seu conteúdo não é tão chocante quanto muitas das cenas explícitas e/ou de relações sexuais que vemos em outras histórias da TV e do cinema atualmente, como Game of Thrones ou Ninfomaníaca. Nesse sentido, já que se trata de um filme erótico, as cenas poderiam ter sido mais ousadas.

As cenas mais sensuais do filme, na verdade, não são as cenas de sexo, e sim as interações entre Ana e Christian enquanto eles definem os termos de seu (contrato de) relacionamento. O sexo, muitas vezes, é subentendido em elementos que instigam nossa curiosidade, como um toque de mãos ou uma mordida de lábio, ou quando a chuva é usada para representar o estímulo sexual, ou quando um lápis é manuseado e levado levemente à boca. O filme é mais divertido por toda essa intensidade do cenário.

Em termos mais simples, o cenário tem um quê de A Bela e a Fera; Christian quer Anastasia. Por quaisquer meios (legais) necessários. Ele é interpretado com estranheza pelo ator irlandês Jamie Dornan, mais conhecido por seu papel na série The Fall (e as semelhanças entre ambos os papéis às vezes torna difícil desvincular um de outro, especialmente quando Grey resolve amarrar Anastasia). Suas motivações, contudo, são fracas e confusas. O personagem é razoavelmente amenizado em relação à versão meio “psicopata americano” do livro. Dornan parece mais um homem introvertido e inseguro fingindo ser ruim; o que ajuda o personagem é que o cara é sedutor. E o jogo de sedução (a tentativa de dominação e submissão) entre Grey e Anastasia é o que torna a trama estimulante, uma vez que o filme basicamente gira em torno do contrato de consentimento.

Um detalhe a se notar é que, apesar do que dizem os mais críticos, o filme evita usar o termo BDSM para definir os interesses sexuais de Grey. Quando Ana pergunta se ele é sadomasoquista, ele responde apenas que é um “dominador”, o que de fato, é o que ele é (em todos os sentidos, já que ele tenta controlar tudo na vida dela, desde o que ela come e bebe até em qual ginecologista ela deve se consultar). Outro detalhe relevante é que a história, independente da forma como o sexo é praticado, sempre mostra Grey colocando a camisinha antes do ato. Mesmo que de leve, o filme atenta para a importância do sexo seguro (assim como o livro também o faz).

Por ser fotógrafa e artista visual, Sam Taylor-Johnson trata o conceito com cuidado e gentileza, tentando o seu melhor para manter um equilíbrio entre a interação romântica dos personagens e seus encontros sexuais. A grande quantidade de nudez é cuidadosamente construída, com closes e edições ora comportados ora ousados (mais comportados do que ousados) e iluminação intimista. Cada tomada é feita para criar uma atmosfera de nudez (em geral) respeitável, e o sexo, embora conceitualmente assustador, é moderado em sua maior parte. Ela evita demonstrar julgamentos sobre as curiosidades alheias.

Cinquenta Tons de Cinza poderia ser um trabalho preocupante sobre o abuso sexual de uma jovem ingênua nas mãos de um homem mais experiente, como muitos falam sobre o romance? Até poderia, mas não necessariamente precisa ser. Não é disso que se trata a história. O objetivo é mais ser um romance água com açúcar, sem as características convencionais de um romance água com açúcar, com alguma dose de erotismo. Soft porn? Nem tanto. Não se trata de provocação ou mesmo de excitação. Trata-se mais de como o prazer pode levar alguém à loucura. Ou da compatibilidade entre duas pessoas que estão explorando seus limites. “Eu não faço amor. Eu fodo. Com força”, não é romântico, mas pelo menos é honesto.

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