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Selma

Cinebiografia do pastor protestante e ativista social Martin Luther King Jr, que acompanha as marchas históricas realizadas por ele e por manifestantes pacifistas, da cidade de Selma, no interior do Alabama, até a capital do estado, Montgomery, em busca de direitos iguais para a comunidade afro-americana, que na época sofria restrições para exercer seu direito de voto.

(Selma) – Biografia. Reino Unido, 2014.

De Ava DuVernay. Com David Oyelowo, Tom Wilkinson, Tim Roth, Carmen Ejogo, Common, Giovanni Ribisi, Cuba Gooding Jr e Oprah Winfrey. 128min. Classificação: 14 anos.

Selma


SELMA – RESENHA

Selma abre com Martin Luther King Jr (David Oyelowo), em 1964, praticando seu discurso para a cerimônia em que vai receber o Prêmio Nobel da Paz, em Oslo, Noruega, enquanto tenta amarrar sua gravata. O discurso não é sua maior preocupação, ele sabe exatamente como fazê-lo com seu fervor característico; é a gravata que o preocupa naquele momento. Ele não quer parecer excessivamente sofisticado, ou acima de sua causa. Sua esposa, Coretta (Carmen Ejogo, de uma presença apaixonante), está lá, assegurando-lhe que tudo vai ficar bem. King está plenamente consciente do poder de suas palavras, sua presença, e somos facilmente envolvidos pela força deste homem em cena. Ele tem que ser auto-consciente, especialmente porque ele possui voz em meio a um dos momentos mais decisivos na luta pelos direitos dos negros na América.

Acompanhamos suas fracassadas conversas iniciais com o presidente Lyndon Johnson (Tom Wilkinson). King quer direito de voto para os negros, e que o presidente tome medidas para acabar com as políticas que impedem os negros de obter esse direito. Johnson ouve as queixas, mas acredita que não é o momento certo para se preocupar com questões raciais. King, então, decide agir, e nesse momento, põe em movimento o que viria a ser um momento grandioso de sua história, as passeatas que culminariam na grande marcha de Selma em 1965.

Da cena de abertura até o grande clímax no final, Selma conduz sua história sob uma ótica sutil e reservada. Contenção, aliás, é uma das virtudes que definem o filme. A diretora Ava DuVernay nos oferece uma abordagem direta e discreta, que nos permite sentir o drama completo dos eventos que aconteceram em Selma. O filme é um relato histórico apaixonado e absolutamente importante pela relevância de Martin Luther King Jr para a sociedade moderna; um trabalho valioso não apenas por ser sobre o movimento dos direitos civis, mas por revelar o que significava ser negro na América nos anos 60 — uma luta que é travada ainda hoje por muitos negros. — Selma não é apenas uma lição conturbada de história — ainda que no final assuma aspectos mais próximos de um documentário —, é um equilíbrio entre memória emocional e fatos surpreendentes. O filme é embasado por documentos reais do FBI que focam em King e outros ativistas durante o período que engloba a marcha e seus preparativos. Isso dá credibilidade ao filme, ao mesmo tempo que, assustadoramente, nos lembra que King, um pacificador, vivia sob vigilância, como uma ameaça.

Selma, em geral, se mantém em pequena escala, construído em cima de pessoas falando e desafiando uns aos outros em quartos e salões. DuVernay tem uma compreensão fenomenal de como as pessoas se comunicam e entendem umas às outras, e de como, por vezes, elas são incapazes de chegar a um consenso. O misto de olhar frio e interações humanas acaloradas, na verdade, serve para contrastar e capacitar os grandes momentos, as cenas históricas de impacto. A diretora deixa as coisas fluírem, cuidando de suas cenas com intensidade inabalável e sentimentalismo, desde a travessia da ponte Edmund Pettus pelos manifestantes, passando pelos tumultos e pela violência policial nas ruas de Selma, até a terrível explosão a bomba de uma igreja de Birmingham em 1963. Ela enxerga quão inútil é a violência e o racismo, e consegue nos passar esse sentimento em cada cena. E nos melhores momentos de Selma, nos concede momentos significativos e tocantes de compreensão de como as coisas funcionavam para os negros. Assistir ao filme, em alguns momentos, é doloroso. Em outros, é pura reflexão.

As escolhas fortes da DuVernay contribuem com essa visão. Ela molda o filme com um estilo antiquado, muitas vezes, violento, pontuado por um jazz minimalista e imponente. E a trilha sonora ainda inclui a bela canção Glory, de John Legend e Common. Soma-se a isso o elenco entusiasta e inteligente, que concede humanidade à luta. Destaque para David Oyelowo. Esse é sem dúvida um daqueles papéis que revela um grande talento e deixa marcas. Oyelowo é emocionalmente profundo, com sua paciência estratégica e seu temperamento ponderado. Ele se assemelha a Martin Luther King Jr, não apenas pelo rosto arredondado, também pela eloquência ao falar. Oyelowo tem uma voz profunda e uma presença intensamente introspectiva, representando King como um herói humano, disposto a fazer o que é certo e, acima de tudo, ser ouvido.

Selma, apesar de se passar nos anos 60, permanece contemporâneo como um relato preocupante sobre uma sociedade cínica e frustrada com o sistema de justiça. Os paralelos com a realidade atual são inevitáveis; vivemos em uma época de violência policial acirrada e tensões raciais constantes. Muito mudou, mas muito ainda precisa mudar. O passado ainda assola nosso presente. Ainda assim, o filme nos permite vislumbrar um pouco de esperança; o progresso é lento e exige grande inteligência, paciência, estratégia e, na pior das hipóteses, sangue. Histórias difíceis como essa são importantes justamente porque nos permitem entender melhor o presente.

Selma

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