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Jogo da Imitação

Baseado na história real do criptoanalista britânico Alan Turing, considerado o pai da computação moderna, o filme segue a tensa corrida contra o tempo de Turing e sua brilhante equipe no Projeto Ultra, que tinha como objetivo decifrar os códigos de guerra nazistas e contribuir para o final da Segunda Guerra Mundial. Sediada no “invisível” Bletchley Park, durante os dias mais terríveis da guerra, a equipe liderada por Alan Turing (Benedict Cumberbatch) era formada por matemáticos, linguistas e campeões de xadrez, e dentre eles, uma única mulher, Joan Clarke (Keira Knightley).

(The Imitation Game) – Biografia. Estados Unidos, 2014.

De Morten Tyldum. Com Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Mark Strong, Charles Dance, Allen Leech, Matthew Beard e Rory Kinnear. 115min. Classificação: 12 anos.

Jogo da Imitação


JOGO DA IMITAÇÃO – RESENHA

Benedict Cumberbatch tem tato para incorporar gênios indomáveis. Depois de seus papéis como Sherlock na série de televisão britânica e como o ativista australiano Julian Assange em Quinto Poder, Cumberbatch agora encarna Alan Turing com um carisma arredio e cativante. O belo filme do norueguês Morten Tyldum é uma série de problemas científicos e sociais interconectados. Um deles é se Turing consegue resolver “o problema mais difícil do mundo”: quebrar o código gerado diariamente por uma máquina da Alemanha nazista chamada Enigma, cuja quantidade de possíveis soluções a tornava praticamente indecifrável. Outros são sobre questões que envolvem sabermos se ele é capaz de decifrar os seres mais estranhos que o cercam (pessoas!), e o quanto ele consegue lidar com os dilemas de sua homossexualidade.

Adaptado por Graham Moore com base no livro Alan Turing: The Enigma, um estudo detalhado de Andrew Hodges realizado a partir de 1983, Jogo da Imitação conta os períodos mais importantes da vida de Turing, desde os conturbados anos da adolescência no internato, passando pelo triunfo secreto de sua equipe durante a guerra até a tragédia de sua morte prematura no período pós-guerra, quando foi condenado por ser homossexual e obrigado a tomar injeções de hormônio para não ser preso. Turing inventou a técnica eletromecânica que permitiu a quebra de cerca de 3.000 mensagens de códigos secretos gerados pela máquina Enigma, possibilitando com isso o fim da Segunda Guerra Mundial e deu os primeiros passos para a criação do computador.

As cenas são intercaladas por uma montagem não-linear eficiente, que nos leva ao passado e ao presente com clareza e nos posiciona no tempo dos acontecimentos sem tornar a história confusa. Mesmo que o momento não seja claramente delimitado, sabemos quando os fatos estão acontecendo. Tudo começa em 1951, depois da guerra, quando um assalto no apartamento de Turing em Manchester traz um detetive da polícia curioso (Rory Kinnear) à vida do matemático; aos poucos, esse acontecimento nos mostra como a sexualidade de Turing o levou à condenação (na época ser homossexual era considerado crime de obscenidade) que mais tarde o levou ao suicídio. Em consonância, acompanhamos a luta de Joan Clarke para ser aceita numa sociedade machista. Quando se encontram, Turing e Clarke se identificam um com o outro de imediato e rapidamente criam um laço afetivo, porque se entendem como cientistas e como pessoas que sofrem com o preconceito. A diferença entre ambos é que Joan lida melhor com isso do que Alan.

O filme toca nas questões da homossexualidade de Alan Turing e do preconceito em relação à Joan Clarke com delicadeza, a fim de mostrar (principalmente) como a intolerância era (e ainda é) prejudicial para a própria sociedade. Imagina quantos passos no avanço científico e tecnológico nós deixamos de dar porque homens e mulheres extraordinários foram segregados ou impedidos de exercer suas profissões por causa de intolerância e preconceitos estúpidos. Imagina quanto conhecimento se perdeu no tempo por causa disso. E infelizmente, apesar desta ser uma história passada nas décadas de 40 e 50, é triste pensar que ainda hoje, em pleno século XXI, esse tipo de pensamento pobre ainda existe, e frequentemente cerceia conhecimentos que poderiam trazer grandes benefícios. Devido a isso a trágica história de Alan Turing ainda consegue se sentir atual.

Em outra frente, o filme foca bastante no lado cientista de Turing e no mundo “fechado” de Bletchley Park, a propriedade rural onde vários criptoanalistas da Grã-Bretanha trabalharam durante a Segunda Guerra Mundial; um lugar complicado por si só. Turing confronta frequentemente o desconfiado comandante da academia naval, Denniston (Charles Dance), e tem dificuldade em se relacionar com seus colegas de trabalho, especialmente o sociável Hugh (Matthew Goode), que é seu extremo oposto.

Tyldum desenvolve o humor de seu filme a partir de um complexo de superioridade, auxiliado pelo desempenho exigente de Cumberbatch. Há momentos que o perfil irônico de Turing acena para o Sheldon da série Big Bang Theory, enquanto em outros momentos, assume um lado mais dramático que nos lembra de Uma Mente Brilhante. No fim, a verdade é que Alan Turing foi um gênio que prestou um grande serviço ao mundo e terminou seus dias ostracizado por ser homossexual e obrigado a tomar hormônios em um processo de “castração química” que reprimiria o que chamavam de “tendências obscenas”. Apesar de sua mente brilhante, Turing não podia descansar com seu triunfo. Um momento do filme mostra que quebrar o código não significava a vitória imediata na guerra, pois existiam muitas variáveis em jogo. E essa é a tragédia que ilumina a história: nenhuma solução é perfeitamente completa.

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