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Snowpiercer e a luta por reconhecimento

Snowpiercer

Snowpiercer é um desses filmes que surgem sem grande alarde, às vezes passam despercebidos do grande público, e por causa disso, não recebe o respeito que deveria. Além de ser a estreia do diretor coreano Bong Joon Ho em um filme de língua inglesa, essa é uma obra fascinante e absolutamente espetacular em todos os seus aspectos. Com uma configuração que pode parecer complexa a princípio, cuja proposta demanda uma dose considerável de suspensão de descrença, Bong Joon Ho se mostra um verdadeiro contador de histórias, que mantém o público envolvido e bem integrado dos acontecimentos durante toda a jornada de Curtis, sempre estimulando a tensão com toda sorte de excentricidades.

Parcialmente baseado na história em quadrinhos francesa Le Transperceneige, o filme acontece em um futuro não tão distante, quando a Terra sofre com uma nova Era Glacial. O planeta foi devastado pelo frio, e grande parte da população mundial foi erradicada. Os sobreviventes se refugiaram a bordo do Snowpiercer, que viaja ao redor do mundo através de um motor de movimento perpétuo, enquanto seu interior sofre com conflitos de classes e revoltas. A cauda é onde Curtis Everett (Chris Evans) vive e trabalha, se preparando para o início de uma revolução que promete devolver vastos recursos a toda população do trem. Ao seu lado, ele conta com seu mentor Gilliam (John Hurt), que perdeu seus membros na época do embarque da humanidade; e com a assistência de Edgar (Jamie Bell), um jovem energético que considera Curtis um herói. Todas as rebeliões anteriores falharam, e mesmo assim, Curtis acredita que pode chegar à frente do trem, onde ele planeja confrontar o construtor do trem, Wilford (Ed Harris), que se tornou uma espécie de deus para muitos dos passageiros. O caminho, contudo, não será fácil, pois Curtis precisa passar pelos acólitos de Wilford liderados pela Ministra Mason (Tilda Swinton), uma mulher cruel que tenta manter o sistema de castas do trem a qualquer custo.

A trama se desenrola cuidadosamente através do personagem principal, e o diretor não se priva de nos mostrar todos os lados de sua revolução. As peças são movidas com rapidez e precisão, e logo estamos familiarizados com Everett e suas intenções. Não demora muito até começar a rebelião. Com uma equipe bastante heterogênea, Curtis abre caminho vagão após vagão. Cada porta destravada adiciona um elemento novo a este mundo pós-apocalíptico cheio de detalhes, acrescentando mais e mais camadas à história fascinante de Snowpiercer.

O filme pega inspirações nos estilos estéticos das distopias de Terry Gilliam — como Brazil ou Teorema Zero —, de tal forma que o próprio Gilliam é homenageado com o nome do personagem de Hurt. Seus atores, ainda que nos sejam rostos familiares, surgem em cena cobertos de sujeira, sem um ou outro membro no corpo, com expressões de pesar e dor nos olhos; àqueles que estão acostumados a ver Chris Evans como um super-herói, essa é outra percepção dele como ator, e ele é muito bom. Evans consegue nos passar com excelência a dimensão do comprometimento de Curtis, ao mesmo tempo em que é atormentado pelo horror de um passado que ele suporta estoicamente sobre os ombros. Com seus trajes escuros e ombros largos, Evans nos faz acreditar na força de seu personagem, de modo que entendemos facilmente por que todos os outros estão dispostos a segui-lo. E quando descobrimos sobre seu passado (inacreditável), percebemos quão surpreendente é essa força que ele demonstra como líder.

Snowpiercer é uma obra extraordinária, com seu mundo atraente e repleto de camadas, habitado por personagens que exigem o máximo de nossa atenção e empatia. O próprio trem pode ser considerado um personagem. Um personagem que é um mundo, e um mundo que é um personagem. Seu projeto visual é tão arrojado que facilmente poderíamos nos perder dentro dele. Tudo se configura minuciosamente em uma trama sombria e desoladora, de beleza profunda, em que as emoções fluem como rios formados por geleiras derretidas. Não há como ser indiferente a Snowpiercer, e até mesmo o mais frio dos corações pode ser acalentado por seus ideais.

O filme enfrentou alguns problemas durante seu lançamento nos Estados Unidos, uma vez que a The Weinstein Company — responsável pela distribuição nos cinemas — queria que o diretor reduzisse a duração e o ritmo do filme na edição final. Enquanto a versão de Bong Joon Ho possuía cerca de duas horas e meia, a Weinstein queria algo mais curto que pudesse ser consumido pelo público norte-americano médio (sendo que o filme já havia sido exibido em festivais pelo mundo e estava chamando atenção com sua versão do diretor, não com uma versão cortada).

No fim das contas, Snowpiercer estreou nos Estados Unidos sem cortes, em um lançamento limitado a poucas salas. Esse tipo de coisa sempre me faz pensar em como é infeliz essa crença que existe no meio cinematográfico de que o público deve ser nivelado por baixo. Cinema é uma arte que abre a mente e desperta sensações, e não precisa ser reduzido ou reprimido para passar sua mensagem. Até nisso Snowpiercer promove uma revolução. Grandioso será o dia em que produtores pensarão duas vezes antes de pedir que diretores retalhem seus trabalhos para aquilo que acreditam “o que o público quer ver”. Pena que essa revolução não se estenda para as terras brasileiras, onde ainda se insiste em ignorar produções como essa. Depois de ter sua estreia adiada várias vezes no Brasil, Snowpiercer está previsto para estrear por aqui em breve, mas direto para DVD e Blu-ray, uma opção falha para uma obra desse porte que merecia ser exibida na tela grande. É uma pena que tão poucas pessoas tenham acesso a esse que é certamente um épico da ficção científica.

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