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Babadook

Amelia (Essie Davis) é uma mãe viúva, que criou seu filho sozinho, Samuel (Noah Wiseman), após a morte do marido. Sam começa a exibir um comportamento errático: ele raramente dorme uma noite inteira, e está constantemente preocupado com um monstro imaginário, até mesmo construindo armas para lutar contra ele. Com o tempo, Sam para de ir à escola devido a seus problemas de comportamento. Uma noite, Sam pede a sua mãe para ler um misterioso livro pop-up que ele encontrou em sua estante. A história, intitulada “Sr. Babadook”, é sobre uma criatura sobrenatural; uma vez que alguém tenha conhecimento de sua existência, o monstro atormenta essa pessoa indefinidamente. Sam está convencido de que o Babadook está em sua casa e os está perseguindo, e por causa do filho, Amelia começa a se sentir incomodada pelo conteúdo do livro. Quando tenta se desfazer do livro, ela descobre que os medos de seu filho talvez sejam mais verdadeiros do que imaginava.

(The Babadook) – Terror. Austrália, 2014.

De Jennifer Kent. Com Essie Davis, Noah Wiseman, Daniel Henshall e Tim Purcell. 93min. Classificação: 14 anos.

Babadook


BABADOOK – RESENHA

“Não há palavras para o que está no livro, você não pode ler o Babadook.” — Assim começa o misterioso livro infantil pop-up cheio de desenhos fantasmagóricos de uma figura de sobretudo chamada de Sr. Babadook. O livro e a criatura bizarra são os grandes chamarizes para esse filme de terror australiano, embora no fundo, essa seja uma história sobre as dificuldades de uma pessoa lidar com a perda de alguém importante. E é justamente pela junção do elemento mais evidente de horror — o monstro — com o estado emocional dos personagens que Babadook é um filme tão assustador e angustiante.

O foco não é tanto o bicho-papão, nem o estranho livro de onde ele se origina — Babadook, aliás, é um jogo de palavras com Bad Book (Livro Ruim) —, é mais sobre a forma que podem tomar horrores indizíveis relativos à paternidade/maternidade, através da metáfora da insanidade induzida por uma criatura demoníaca. A diretora Jennifer Kent, em seu filme de estreia, cria a trajetória de horror da mãe e de seu filho com sutilezas que nos fazem questionar se o monstro na verdade se trata de um delírio ou se ele realmente existe. Apenas no fim temos a resposta, de uma forma excepcional e que quebra um pouco alguns dos conceitos do terror.

O filme tem algumas similaridades com o curta-metragem The Grandmother, de David Lynch, que é citado por Kent como grande influência para sua história. O curta de 1970 também é sobre desorientação, e também sobre um garoto que busca por uma fonte de afeto; ele também analisa a mente de uma criança perturbada que se refugia em sua fantasia para lidar com a realidade.

Baseado também em um curta-metragem, Monster, escrito e dirigido pela própria Jennifer Kent em 2005, Babadook mostra que a maternidade está ligada à forma como uma criança encara sua infância, e ainda assim é mais fácil perceber (com os olhos vidrados) o desequilíbrio da mãe viúva interpretada por Essie Davis (e o monstro que parece ser uma manifestação de sua própria dor silenciosa), do que focar no trauma de seu filho, interpretado de forma incrivelmente perturbadora por Noah Wiseman. Talvez por causa do comportamento de Sam no início — algo que poderíamos definir como “um moleque chato pra caramba” — seja mais difícil para nós lidar com ele, e nos faz entender a dificuldade da mãe em lidar com as excentricidades dele. Às vezes é difícil saber quem é o maior pesadelo: Sam ou Babadook. Isso cria certa empatia com Amelia, a mãe que perde noites e mais noites de sono, e devido a essa privação, se torna mais inconstante e irritadiça e propensa a enxergar coisas que talvez não existam.

Parte da questão de Babadook está justamente em brincar com essa atmosfera de delírio e pesadelo, em que não se sabe o que é real ou não. A outra parte é o fato de Sam ser uma criança com questionamentos que vão além dos aspectos de criança amaldiçoada ou perturbada de filmes como A Profecia ou Sexto Sentido. Sam é, na verdade, um menino profundamente traumatizado, tentando lidar a sua maneira com a perda do pai que nunca conheceu e com o luto interminável da mãe, que permanece presa a um ressentimento em relação a ele (como se o culpasse pela morte do pai). À medida que o filme nos revela a extensão que o ressentimento de Amelia pode tomar, Sam cresce como personagem, e descobrimos que ele é mais inocente do que acreditávamos inicialmente. Mais do que isso, ele é a salvação para o luto enlouquecedor de sua mãe, o mesmo luto que permite o surgimento do Babadook. Ainda que ela tenha ignorado seus apelos — “Não o deixe entrar! Não o deixe entrar! Não o deixe entrar!” —, ele continua lutando por ela — “Eu sei que você não me ama. O Babadook não te deixa. Mas eu amo você, mãe. Sempre amarei.” — e nos leva a um desfecho impressionante e maravilhoso.

Com sua compreensão sensata sobre a dor da perda e as mudanças que ela provoca, Babadook permite que sua escuridão persista e seja compartilhada ao invés de simplesmente erradicá-la como acontece na maioria dos filmes de terror. A verdade é que o livro pop-up está certo: — “Se você é realmente inteligente e sabe o que há para se ver, então poderá fazer um amigo especial, um amigo como eu e você.” — Uma vez que ele entre, você nunca se livrará do Babadook, mas pode aprender a conviver com ele.

Babadook realiza um trabalho sensível ao retratar de maneira especial e confusa como crianças e adultos lidam com o luto, e ainda mergulha com maestria perturbadora nas tradições dos filmes de horror, aproveitando algumas coisas, desconstruindo outras, e produzindo alguns momentos realmente angustiantes. Como uma espécie de espantalho ou personagem macabro criado pelo desenho de uma criança do primário, o monstro que dá nome ao filme é tão estranho quanto rabiscos infantis em um caderno esquecido na prateleira de um armário. Essa simplicidade é sua força, como se fosse uma criatura saída de um velho filme mudo ou de um conto de fadas macabro.

Sua abordagem mais dramática do horror — no estilo de Bebê de Rosemary e O Iluminado — inspira um período de perplexidade e umas boas horas de reflexão. Isso é o que faz um bom filme de terror, não apenas provocar alguns bons sustos, mas também provocar um tipo de medo e angústia que nos obrigue a remoer e talvez até reavaliar nossas ideias e conceitos. Por isso Babadook é digno de todos os elogios que têm recebido; uma estreia realmente notável para Jennifer Kent, que criou um filme de terror inteligente e atencioso sobre os recantos mais obscuros da mente humana.

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