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Grandes Olhos

Grandes Olhos conta a história verdadeira de uma das mais grandiosas fraudes na História da Arte. No final dos anos 50, o pintor Walter Keane (Christoph Waltz) alcançou sucesso além do que imaginava, revolucionando a comercialização da arte popular com suas pinturas enigmáticas de crianças abandonadas com grandes olhos. A verdade bizarra por trás desse sucesso é que os trabalhos de Walter não eram criados por ele, mas por sua mulher, Margaret (Amy Adams). O enredo acompanha o despertar de Margaret como artista, o sucesso fenomenal de suas pinturas, sua relação tumultuada com o marido, e como os Keane propagaram uma mentira que enganou a todo o mundo.

(Big Eyes) – Biografia. Estados Unidos, 2014.

De Tim Burton. Com Amy Adams, Christoph Waltz, Krysten Ritter, Danny Huston, Jason Schwartzman, Terence Stamp, Andrew Airlie e Stephanie Bennett. 106min. Classificação: 12 anos.

Grandes Olhos


GRANDES OLHOS – RESENHA

Os olhos são grandes e chamativos. Atraem a atenção diretamente para eles. Não é difícil perceber o que atraiu Tim Burton para este filme, que possui um estilo diferente do aspecto soturno habitual dos filmes do diretor. Por outro lado, a extravagância pela qual também é conhecido está lá, contida, mas presente. Há algo de assombroso nos olhos tristonhos e desamparados que Margaret Keane concede às crianças de suas pinturas. Essas crianças certamente conheceram ou viram coisas que não deveriam, ou talvez, Margaret tenha visto.

Margaret, eventualmente, vê esses olhos, de forma aleatória, em pessoas que ela encontra na rua, ou no mercado, ou em qualquer outro lugar. Seja qual for o significado que os olhos possam ter para ela em suas pinturas, eles são horríveis quando vistos em pessoas reais. E isso diz muito sobre o sentimento de angústia constante do filme. Os olhos são as janelas da alma, é o pouco que Margaret diz sobre o que os grandes olhos representam para ela. O problema é que ela não vê os grandes olhos na pessoa que deveria. Ela não percebe o grande olho. Quando a ganância e a ambição escapam pelas janelas da alma.

Grandes Olhos é visualmente astuto, ora agradável, ora desagradável, bonito aos olhos como uma pintura a ser apreciada. Ele é feito por pessoas conscientes do que estas imagens representam na tela e do efeito psicológico que causam. Uma das primeiras tomadas é de uma rua de subúrbio na década de 50, com um carro turquesa em uma calçada, e essas imagens nos levam ao visual da época. Quando acompanhamos o carro pela estrada, logo depois, algo no silêncio e no vazio da paisagem nos remete aos filmes dos anos 50. Ao contrário do habitual de Burton, esse é um filme vívido e cheio de cor. E ainda assim, não é plenamente radiante; carrega um pouco da escuridão de seu diretor.

O melhor de tudo é como os tons variam sutilmente de uma cena para outra. Uma hora é azul e verde, outra é rosa. Uma hora é claro, outra é escuro. De aparência e de sentimentos. Nenhuma tomada é desperdiçada e algumas são meramente funcionais; a interação entre diretor e estética é incrível. Provoca um desejo de contemplação a parte. Grandes Olhos, contudo, não é puramente contemplativo; é um filme de conflitos constantes, que florescem graças à atmosfera estranha e bastante específica criada especialmente para comportar a história e seus personagens.

A história é igualmente estranha, inspirada em fatos reais. Amy Adams interpreta uma Margaret Keane tímida e incerta, com certa dignidade, e a firmeza de uma visão maior em seu íntimo. Mas durante muito tempo, suas incertezas e sua timidez são os principais entraves para seu carisma, que não se mostra tão apurado quanto sua arte. Por isso que Walter enxerga uma oportunidade sobre ela. Ele é o oposto dela, confiante, extravagante e inventivo. Por um tempo, eles parecem se complementar. Christoph Waltz parece ser um cara legal. Mas não é. Não contente em ser gerente de vendas e promotor de sua esposa, Walter logo começa a se apresentar como o artista responsável pelas pinturas das crianças com grandes olhos; à medida que seu sucesso cresce, sua farsa também cresce, e se torna uma caminho sem volta. Aos poucos, descobrimos a verdade por trás de seu charme. Descobrimos sua verdadeira arte. Ele não é mal, mas é vazio como uma pintura em branco, desesperado para ser preenchido com alguma cor verdadeira, que ele não tenha roubado de alguém. E assim o desespero se torna obsessão.

Curioso notar que boa parte dos atores principais tem olhos grandes e expressivos, que transbordam emoção. Grandes janelas da alma. Amy Adams (a artista e mãe), Delaney Raye e Madeleine Arthur (as duas meninas que fazem Jane, a filha de Margaret, mais nova e mais velha), Krysten Ritter (a amiga DeeAnn); todas têm esses olhos, grandes, expressivos, azuis. O único nesse convívio que não possui estes mesmos olhos é Christoph Waltz, incapaz de enxergar o que falta em si mesmo. Tim Burton molda todas essas visões sob sua visão, criando uma obra de energia insana e ao mesmo tempo, suave e sincera.

Grandes Olhos é uma profusão de sentimentos conflitantes, que o filme representa em seu tom ao mesmo tempo cômico e perturbador. É a história de uma artista tentando se libertar, uma artista que não é exatamente excepcional e cuja arte ninguém respeita, mas que ainda assim somos convidados a apreciar e aprendemos a gostar. Com um elenco afiado, a história transita sabiamente entre o sério e o satírico, passando por muitos gêneros (drama, comédia, suspense), mas mantendo um distanciamento agradável que nos permite sentir junto com os personagens. Quando Adams olha com aqueles grandes olhos azuis para uma tela, acreditamos que ela está sentindo alguma coisa.

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