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Violência e Política Em Cinco Filmes

Violência e Política Em Cinco Filmes

As eleições presidenciais do Brasil em 2014 ficaram marcadas, principalmente no segundo turno, pela extrema animosidade de grande parte dos eleitores, em alguns casos até chegando ao confronto direto de militantes. O resultado final apertado, com a vitória da candidata do PT, Dilma Rousseff, sobre o candidato do PSDB, Aécio Neves, se deu por uma margem de apenas 2%, o que manteve por mais algum tempo o clima polarizado nas discussões. Contudo, a mistura entre política e violência não é novidade na História, ou mesmo na arte, tendo sido tema de inúmeros filmes.

Em Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971), Stanley Kubrick nos apresenta a vida de Alex, o líder de uma gangue de delinquentes que pratica pequenos crimes e combate outras gangues similares. O que diferencia Alex tanto de seus druguis quanto se seus inimigos é que para ele a violência é uma performance, dando um sentido estético a seus atos cruéis e sangrentos. A mera vazão de instintos primitivos é de extrema vulgaridade – a violência deve ser praticada como arte. Por isso, é incompreendido por seus comparsas, o que o leva a ser traído e preso.

Na cadeia, a violência é mostrada como algo institucional, ou seja, política. Incapaz de praticar sua arte, Alex vira um sujeito menor, atormentado e com medo. Por isso, aceita ser cobaia numa experiência científica que o faz ser incapaz de praticar qualquer ato agressivo. Em troca, obtém sua liberdade, mas ela não traz redenção. O protagonista aprende que a própria sociedade é violenta. Sem poder reagir, torna-se inapto para o convívio social, sofrendo toda sorte de abusos até atingir um ponto quase fatal.

Essa ideia de que a sociedade humana é extremamente violenta está presente na tradição da filosofia política. No livro Leviatã (1651), Thomas Hobbes já defendia que o Homem, em seu estado natural, viveria em uma eterna guerra, e somente um poder forte e central poderia garantir paz e estabilidade, mediante um contrato social onde os homens abririam mão de parte de suas liberdades. Surge então a justificativa para a existência do Estado.

Em Macbeth (1971), o diretor Roman Polanski, ao adaptar a tragédia de William Shakespeare, mostra que esse pacto só pode existir mediante um ato de violência. O poder que garante a estabilização das relações sociais exige o derramamento de sangue. O protagonista pretende chegar ao trono e não hesita em derramar sangue para isso. Mas ele não é um carniceiro, pois não há prazer aqui. A morte é utilizada como um instrumento para que Macbeth torne-se o rei. O problema reside justamente no fato que, para encobrir o assassinato que ele cometeu, é exigido que mais pessoas sejam mortas, que levam a cada vez mais mortes. A escolha da versão de Polanski se dá justamente por ser uma das mais sangrentas adaptações da peça. O diretor não tem pudores em mostrar o preço que o protagonista está disposto a pagar para obter o poder.

O grande dilema, então, é que a pedra fundamental do poder político está baseada num crime de sangue. A sociedade, contundo, não quer ver, ou não quer ser lembrada, desse crime. Assim, é preciso criar uma mentira para que essa violência seja esquecida. Ninguém entendeu isso tão bem quanto John Ford em O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valence, 1972). Neste clássico do western, James Stewart interpreta um advogado que se muda para uma cidade do interior do Oeste americano no século XIX. Logo que chega, é assaltado, descobrindo assim que quem manda na cidade é um grupo de criminosos, ligado ao roubo de terras e gado. Para legitimar seu poder e seu avanço civilizatório, o personagem de Stewart é contra a prática de qualquer ato violento. Para ele, deve sempre prevalecer o Império da Lei.

A solução para derrotar os criminosos sem sujar as mãos é fazer alguém se sujar por ele. Assim, o personagem de Stewart é desafiado para um duelo contra o líder dos bandidos. Sem saber, recebe a ajuda de um antigo pistoleiro que saiu da vida do crime, interpretado por John Wayne, que escondido, atira no vilão. Toda a população, contudo, acredita que o verdadeiro autor do disparo foi o pacato advogado, e só depois do sangue derramado é que a paz civilizada é possível para a cidade.

Ao final, o personagem de Stewart vira senador, e volta à cidade muitos anos depois, para o funeral do personagem de Wayne. Ali, confessa a um jornalista toda a verdade. Este, em resposta ao senador, profere a célebre frase “Quando a lenda antecede os fatos, publique-se a lenda”. O que o jornalista sabe é que, se contar a verdade, irá sempre lembrar à sociedade que foi graças a um criminoso que a Lei pôde se impor.

Este mesmo padrão se encontra no filme Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), dirigido por Christopher Nolan. Como observa Slavoj Zizek, neste filme a mentira é fundamental em três partes: quando Harvey Dent assume ser o Batman, quando James Gordon finge sua morte, e por fim quando Batman propõe ser acusado e perseguido pelos crimes do Duas Caras. Todas as mentiras possuem um objetivo em comum, que é derrotar o Coringa.

O que é realmente assustador no Coringa é que ele sempre expõe aos interlocutores a verdade que eles não querem ouvir. Seu comportamento caótico não é fruto de uma doença mental. Ao contrário. Como afirma o roteirista de quadrinhos Grant Morrison, o Coringa não é insano. O que ele possui é uma espécie de super-sanidade, que o faz ver aquilo que ninguém mais consegue.

Ele não esqueceu que toda a estrutura de poder da civilização ocidental é fundada no crime primordial. Seu objetivo não é enriquecer, fazendo questão de queimar uma pilha de dinheiro para deixar isso claro. O que o Coringa pretende é retornar ao estado natural tal qual descrito por Hobbes. O homem é o lobo do homem, e o Coringa pretende ser o líder da matilha. Mas ele quer liderar homens livres, e não cordeiros que abrem mão de sua liberdade em nome de uma paz que é fundada no medo.

O que torna o Batman fascinante para o Coringa é que o herói está disposto a fazer qualquer sacrifício para que a ordem seja mantida. Ele sabe que Batman não age por medo, como os demais. Batman é o mais próximo de um homem livre na sociedade, pois age à margem da lei, mas não entende que sua luta, ao final, serve apenas para legitimar a mesma estrutura social que, em última análise, levou seus pais a morte.

A grande problemática do Batman é que sua existência se deve a um crime fundamental, que é a morte de seus pais milionários. Assim, sua visão está toda estruturada da mesma forma que a da sociedade em que vive, iniciada com um crime, e é por isso que sempre defenderá a manutenção do status quo. Já para o Coringa não importa saber sua origem, pois sua super-sanidade acaba por dissolver seu superego, fazendo-o se distanciar completamente da sociedade em que está inserido. Sua vontade de instaurar o caos é na verdade uma tentativa desesperada de tentar voltar a se identificar com os seres humanos.

Voltando a Kubrick, ele sugere em 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968) que o próprio surgimento da humanidade como tal pode estar marcado pelo surgimento da violência. A emblemática cena do nosso antepassado símio descobrindo que pode usar um pedaço de osso como arma, usando isto para se impor perante seu grupo e ao mesmo tempo fazendo seu grupo prevalecer em relação aos demais, vai nesse sentido. Ao jogar o osso para o alto, o símio lança a semente da existência da política e do poder, e ambas estão profundamente ligadas ao surgimento da violência como forma de persuasão. A grande beleza desse filme está no seu final, quando mostra que é possível a transcendência deste instinto animal. Graças a mais um salto evolutivo, a Humanidade consegue por fim se tornar una com o universo. A maneira simbólica com que isto é retratado na obra se dá justamente porque ainda não conseguimos visualizar com clareza como chegar lá.

O final de 2001 é, portanto, a sugestão de que o Homem conseguirá se livrar das amarras da política e da violência, sem retornar ao estado de guerra permanente pré-contrato social, como deseja o Coringa. É um pensamento otimista. Se um dia isso será realmente possível é uma incógnita. A única certeza é a de que, até chegarmos lá, a violência, explícita ou velada, ainda será uma constante no discurso político.

OBS: Algumas interpretações foram inspiradas pelo livro A História da Filosofia em 40 Filmes, de Alexandre Costa e Patrick Pessoa, publicado pela Editora Nau em 2013 (416 páginas).

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