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Cidade das Sombras: O Guardião

Nos becos abandonados da cidade de Rigus, a mais impressionante das cidades das Treze Terras, está a Cidade Baixa: um lugar feio, imundo e sórdido, sem ordem, moralmente destruído, cujo protetor é um homem igualmente feio e decadente conhecido como “Guardião”. Após sobreviver a guerras sangrentas e grandes pestes, ele tornou-se usuário e traficante de drogas, combatendo de forma implacável qualquer concorrência em sua área. Enquanto busca novos negócios e drogas que possam reduzir seu desespero, ele precisa lidar com sindicatos do crime e com uma lei controlada por quem não a cumpre, em uma espiral de corrupção que só faz aumentar. As coisas se complicam quando ele encontra uma menina estuprada e assassinada em uma rua sem saída e, como ex-agente da Casa Negra, toma para si a responsabilidade de descobrir o que aconteceu com ela. O Guardião sabe que na Cidade Baixa a vida não tem valor e nenhum crime é investigado, mas algo naquela garota não mexe com ele, levando-o a confrontar valores de uma vida que deixou para trás.

(Low Town) – Fantasia. Estados Unidos, 2011.

De Daniel Polansky. Com os personagens Guardião (Warden), Grou Azul (Crane), Célia, Crispin, Yancey o Rimador, Adolphus e Garrincha (Wren). Editora Geração. 445 páginas.

Cidade das Sombras: O Guardião


CIDADE DAS SOMBRAS: O GUARDIÃO – RESENHA

Cidade das Sombras: O Guardião é classificado como “fantasia noir”, um gênero em que elementos clássicos da literatura de Raymond Chandler e Dashiell Hammett se misturam com a magia e o sobrenatural, entre outros elementos da fantasia. Combinar o noir com a fantasia não é um conceito novo. Existem alguns romances do tipo que podem ser encontrados por aí, como A Cidade & A Cidade, de China Miéville (que está para ser lançado no Brasil esse mês), ou a série Garrett PI, de Glen Cook (autor de Companhia Negra), The Dresden Files, de Jim Butcher, ou mesmo os quadrinhos Hellblazer. Logo sou obrigado a discordar da descrição da contracapa de Cidade das Sombras que afirma que o livro “inaugura um novo gênero: a fantasia noir”. No que diz respeito à fantasia noir, a história não traz algo realmente novo, embora o livro ainda seja um bom exemplar do gênero.

Ainda que o romance de Daniel Polansky se passe em um mundo de fantasia, é um cenário familiar. Isso porque o autor se inspira em elementos, cidades e história da nossa realidade. Rigus é uma espécie de mistura entre a Londres do século XIX (com uma organização policial, a Casa Negra, que lembra a Scotland Yard) e algumas grandes cidades norte-americanas nos anos 30 (como Nova York), enquanto a Febre Vermelha e a Grande Guerra com o Estado da República Dren nos remetem à Peste Negra e à Segunda Guerra Mundial (inclusive com um Dia da Lembrança). Polansky também aproveita muitas questões sociais comuns ao noir em suas descrições do cenário, como estratificação social, racismo, crime, corrupção policial e burocracia excessiva. Ainda que seja um mundo fictício, a familiaridade criada por essa construção de conceitos nos ajuda a entrar no clima da obra mais facilmente, permitindo à Polansky desenvolver seu enredo com um ritmo mais ágil.

O cenário e a ambientação são bem construídos, nos inserindo com facilidade no clima da trama que está sendo contada. Histórias de fantasia noir costumam ser ambientadas em cenários urbanos, frequentemente em versões alternativas do nosso mundo, onde elementos sobrenaturais são realidade. Não é o caso da Cidade Baixa, que está localizada em um mundo fictício, com suas próprias raças, nações, religiões, sistema monetário, narcóticos, entre outras coisas. A Cidade Baixa é um lugar desolador da grande cidade de Rigus, onde reside o protagonista, conhecido como “Guardião”, um homem tão feio e sombrio quanto o lugar em que vive, percorrendo solitário, sempre cheio de cinismo e ceticismo, as ruas repletas de criminosos e coisas ainda piores.

A magia existe na forma da Arte, praticada por feiticeiros e videntes (de lugares como o Departamento de Assuntos Mágicos ou a Academia de Fomento às Artes Mágicas), ou usada através de artefatos, como o Olho da Coroa ou a gárgula que protege a entrada para o Ninho (a fortaleza do Grou Azul). Curiosamente, apesar de todos esses elementos sobrenaturais, a magia no mundo de Cidade das Sombras é apresentada de forma mais restringida. O foco parece ser mais o “noir” do que a “fantasia”. Não há muitos usos de magia no enredo, e o pouco que aparece não é tão elaborado, uma vez que é comumente mencionado por outros personagens e não efetivamente mostrado. A magia é usada de forma simplista, muitas vezes aparecendo apenas como uma forma de criar obstáculos sobrenaturais mais pesados para o Guardião ultrapassar durante suas investigações, ou para livrá-lo de alguma dessas situações.

E como o foco é a parte “noir”, esse também é a maior qualidade do livro. Nesse sentido, o tom da história é perfeito. Polansky consegue emular características de grandes autores do gênero, como Chandler e Hammett, e ainda assim criar suas próprias características. Personagens e suas relações, trama, reviravoltas, o submundo da Cidade Baixa, tudo é sabiamente construído dentro da proposta noir, criando um universo escuro, perigoso e moralmente ambíguo, em que amigos podem ser inimigos e inimigos podem ser amigos. O destaque naturalmente cabe ao Guardião, com sua sombria história pregressa, marcada por uma interminável luta pela sobrevivência — à guerra, à doença e à vida nas ruas. — Ele é mostrado como um homem que desistiu de uma carreira de sucesso como agente da lei para viver em meio ao crime, em uma fascinante narrativa em primeira pessoa que reflete bastante seu humor sarcástico, sua índole duvidosa e suas atitudes cínicas. Ainda assim, mesmo buscando constante refúgio nas drogas, ele age como um protetor para as pessoas que lutam para viver à miséria e ao descaso daquele lugar deprimente que é a Cidade Baixa.

Alguns dos personagens coadjuvantes possuem aspectos igualmente interessantes, que se encaixam na moral cinzenta do cenário, como Adolphus, o taberneiro amigo do Guardião; Garrincha, um moleque de rua que Adolphus acolhe; Grou Azul, o Primeiro Feiticeiro do Reino, e mentor do Guardião; Célia, uma feiticeira criada pelo Grou Azul; Crispin, ex-companheiro do Guardião; Yancey, o Rimador; Ling Chi, senhor do crime de Kirentown; entre outros personagens que aparecem ao longo da trama. Como são muitos, poucos deles são realmente aprofundados. Muitos servem apenas como trampolim para levar o Guardião a alguma nova situação ou pista de sua investigação. Uma vez que Cidade das Sombras é narrado em primeira pessoa, essa acaba sendo uma das consequências. O problema é no que diz respeito à Grou Azul, Célia e Crispin, que precisavam ser melhor aproveitados, especialmente considerando sua importância para a história.

Ainda que o mistério do assassinato seja o grande motivador da trama, esse não é o principal atrativo do romance. A resolução do crime é até previsível para aqueles que estão acostumados com histórias noir. Há o mistério central da Cidade Baixa em que crianças estão sendo sequestradas e assassinadas, e o Guardião tenta descobrir a razão disso; pistas falsas são colocadas no caminho de forma óbvia, tornando a reviravolta no final não tão surpreendente e um pouco truncada. Além disso, muitas questões permanecem não resolvidas.

Cidade das Sombras: O Guardião, assim como o próprio noir, funciona sob a ideia de que manter a ordem nem sempre cabe apenas a lei, e que assim como o excesso de ordem pode corromper, uma dose de caos às vezes é necessária para equilibrar as coisas. Com isso, é o passado do Guardião — e como isso o transformou no homem que é atualmente — que torna o enredo mais convincente e interessante, sendo contado através de flashbacks de sua vida nas ruas, embora algumas questões ainda sejam deixadas em aberto. Como esse é o primeiro livro de uma trilogia — ainda que seja auto-suficiente —, imagino que em futuros livros os elementos deixados em aberto ou mal explorados provavelmente serão mais desenvolvidos. Não é uma obra excepcional, e como fantasia noir, é bastante convencional e estereotipada — o que é aceitável considerando que se trata de um livro de estreia de um escritor. — Ainda assim, apesar de tudo, é um livro com atrativos, que eu gostei principalmente pela ambientação cativante, pelo protagonista decadente e pelo clima noir bem construído. Não me importaria em percorrer um pouco mais das ruas da Cidade Baixa no segundo livro.

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