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Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1

Depois de sobreviver duas vezes aos temíveis Jogos Vorazes, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) chega ao Distrito 13, depois de destruir a arena e abalar as estruturas vigentes nos distritos como nunca antes. Sob a liderança da Presidente Alma Coin (Julianne Moore) e com a ajuda de aliados importantes, Katniss se prepara para a batalha que está por vir, lutando para salvar Peeta (Josh Hutcherson) e uma nação há muito tempo oprimida. As regras do jogo mudaram e agora ela surge como o símbolo de esperança de uma aliança rebelde contra a tirania do Presidente Snow (Donald Sutherland) e da Capital.

(The Hunger Games: Mockingjay – Part 1) – Ficção Científica. Estados Unidos, 2014.

De Francis Lawrence. Com Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Lenny Kravitz, Elizabeth Banks, Stanley Tucci, Donald Sutherland, Woody Harrelson, Jena Malone, Sam Claflin, Philip Seymour Hoffman e Julianne Moore. 123min. Classificação: 12 anos.

Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1


JOGOS VORAZES: A ESPERANÇA PARTE 1 – RESENHA

Quando alguma coisa faz sucesso em Hollywood, ela rapidamente se torna uma febre no meio cinematográfico. Isso inclui novos métodos de fazer cinema. Se traçarmos um panorama recente de filmes que decidiram contar sua história em duas partes, poderíamos pensar em 2003, quando Quentin Tarantino escolheu contar a épica história de Kill Bill em duas partes. Em alguns casos, isso é feito para que o público não seja sobrecarregado com um filme absurdamente longo — como no próprio Kill Bill ou como em Ninfomaníaca, por exemplo. — Em outros casos, especialmente quando se trata de adaptações de livros para adolescentes e jovens adultos, frequentemente a divisão tem uma natureza mais comercial do que qualquer outra razão.

O método que ganhou a moda atualmente é principalmente direcionado para o encerramento desse tipo de saga, vide Harry Potter e Crepúsculo, e as vindouras adaptações de Convergente (capítulo final de Divergente que também será dividido em dois filmes) e possivelmente de Maze Runner (que já pensa em dividir o último livro em duas partes no cinema). Dividir filmes em duas partes em seu capítulo no final é a forma de manter a atenção dos fãs voltada para a franquia por um pouco mais de tempo, ampliando assim a margem de lucro e sucesso sob o pretexto de contar a história de forma mais detalhada e abrangente (adaptando mais fielmente os acontecimentos finais da saga). Em todos os casos, isso tem seus pontos positivos e negativos, e alguns filmes trabalham melhor com esse método de fazer cinema do que outros.

Jogos Vorazes fez essa opção de dividir seu final, mais para aproveitar um pouco mais do lucro e do sucesso de sua franquia do que para contar a história detalhadamente, uma vez que o livro final da série, A Esperança, não é tão maior ou mais denso do que os dois anteriores. Isso não significa um demérito porque o terceiro filme ainda cultiva os acertos que tornaram a saga de Katniss tão bem sucedida no cinema. Para os fãs dos livros, Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 tem um quê a mais, pois lhes oferece a possibilidade da encontrar mais elemento dos livros nas telas. Para aqueles que conhecem a série pelos filmes e não leram os livros, é uma grata surpresa notar que esse terceiro filme é construído com uma estrutura razoavelmente concisa, de modo que sua história termina com um bom clímax, ao invés de simplesmente terminar com um final indefinido a ser resolvido apenas na parte dois. A Esperança – Parte 1 deixa o gancho para a próxima parte da história, mas consegue se fechar em si mesmo, concedendo uma validade maior para si enquanto parcela de uma franquia. Ele não é apenas uma ponte de eventos entre um filme e outro.

Ainda assim, o lado negativo da divisão em duas partes é facilmente perceptível. Embora seja um filme de cerca de duas horas de duração, algumas cenas mostram-se desnecessárias para o todo ou meros prolongamentos de situações que visam apenas estender um pouco mais o tempo de história (para preencher as necessidades de um roteiro único dividido em duas partes). Devido a isso, as cenas de ação são poucas e de impacto emocional reduzido — exceto talvez a sequência da missão militar noturna perto do final que é realmente tensa —, enquanto muitas outras cenas acontecem em um bunker subterrâneo de aspecto apático, uma apatia que às vezes torna a experiência de acompanhar Katniss um pouco fria demais.

O que contrabalanceia essas sensações são elementos interessantes inerentes à própria história, trazidos do livro para as telas, e o elenco. O grande mérito continua sendo especialmente de Jennifer Lawrence, que prova mais uma vez ser a alma da série e uma das grandes responsáveis por seu sucesso. Ela incorpora Katniss com uma naturalidade comovente, expressando com facilidade a relutância da personagem no olhar, na voz tremida, nos gestos incertos. Mesmo quando aparece decidida e imponente em alguma cena, ela mantém um pouco dos trejeitos que revelam, lá no fundo, os medos e as inseguranças da protagonista. Ela é uma mulher forte, só que no fundo, é muito mais a imagem daquilo que querem que ela seja — ou que precisam que ela seja. — Vale mencionar também a participação excepcional de Philip Seymour Hoffman, que faleceu sem concluir as gravações de seu personagem, mas ainda aparece em grande parte do filme, e tem uma presença em cena sempre cativante. Mais uma evidência do quanto ele vai fazer falta no cinema.

Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 dá seguimento aos acontecimentos de Em Chamas, e nos insere facilmente em seu contexto graças às surpresas consistentes dos minutos finais do filme anterior. Katniss sobreviveu à sua segunda participação nos Jogos Vorazes e agora se tornou o símbolo de esperança para inspirar o povo dos distritos a uma revolução. Ela é o Tordo — The Mockingjay. — O problema é que Peeta ficou para trás, e agora está sendo usado pelo inimigo como contraponto para ela.

Apesar de mudar o contexto da trama, é interessante ver como o filme mantém sua essência. Essa é uma história sobre aparências e sobre o poder que a publicidade exerce. A Esperança – Parte 1 trata da publicidade voltada para a guerra, focando na forma como a imagem de um herói pode ser moldada e transformada em um símbolo capaz de incentivar e inspirar pessoas a lutarem. Até certo ponto, ao invés da exploração da imagem através da temática da “violência” dos reality shows, a história explora a propaganda belicista, de uma forma que emula a época da Segunda Guerra Mundial, quando a publicidade alcançou o que pode ser considerado seu mais alto patamar na história até então. Enquanto ambos os lados conflitantes preparavam-se para a guerra, foram produzidas inúmeras campanhas a fim de motivar seus povos e possibilitar o aumento de produção. Considerando isso, o enredo levanta também o debate sobre os valores e as implicações de uma guerra, e como a luta por aquilo que se acredita certo tem muito mais camadas do que aparentam na superfície. O trabalho sobre a imagem, sobre como transformar um herói em um símbolo, sobre como transformar Katniss em algo que ela não é, continua sendo o foco principal, ainda que nessa parte da história não aconteça uma nova edição dos Jogos Vorazes.

O que se segue é uma visão fascinante sobre os bastidores de uma guerra de propaganda. Embora Katniss não tenha as qualidades messiânicas de um Neo ou um Harry Potter, ela desperta um sentimento de inspiração raro entre as pessoas. Seguida por uma equipe de filmagem, ela passa por zonas de guerra para gravar mensagens de vídeo que motivem os diversos distritos a se juntarem na insurreição contra a Capital. Essa premissa funciona particularmente bem em cena, de uma forma até melhor do que nas páginas, uma vez que o poder da imagem é ainda mais impactante no cinema.

Qualquer assobio ou música cantada por Katniss após uma transmissão logo se torna uma canção da resistência. Mas o inimigo não fica em silêncio, transmitindo regularmente entrevistas que mostram Peeta fazendo declarações ideologicamente opostas as de Katniss (e da nação). E em outro contraponto, vemos as ações explosivas de Katniss, motivadas sempre por paixões e pelo coração, se chocarem com as ações comedidas do Presidente Snow, que age sempre com frieza, inclusive escolhendo as palavras de seus discursos com cautela para não dar ainda mais forma à causa de seus adversários — que ele não define como “rebeldes”, mas como “radicais”, de modo a fazer uma luta pela liberdade parecer com simples terrorismo. — Nesse confronto, entre rebeldes e tiranos, prevalece a guerra de influências, e vence aquele que melhor sabe jogá-la. O tipo de jogo agora é outro, apenas a voracidade é a mesma.

Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1

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