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Interestelar

História gira em torno de um grupo de exploradores que fazem uso de um buraco de minhoca recém-descoberto para superar as limitações de uma viagem espacial. O experiente piloto Cooper (Matthew McConaughey) se junta aos astronautas Amelia (Anne Hathaway), Doyle (Wes Bentley) e Romilly (David Gyasi) com o objetivo de encontrar um novo lar para a humanidade — em outro planeta —, uma vez que a Terra está sendo assolada por uma crise ecológica de grandes proporções. Enquanto isso, a família de Cooper permanece na Terra. Murph (Mackenzie Foy), filha de Cooper, luta para sobreviver ao ambiente cada vez mais hostil e mutável do planeta, acreditando que um dia seu pai voltará de sua ambiciosa missão nas estrelas.

(Interstellar) – Ficção Científica. Estados Unidos, 2014.

De Christopher Nolan. Com Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Mackenzie Foy, Jessica Chastain, Casey Affleck, Michael Caine, David Gyasi, Wes Bentley, John Lithgow e Topher Grace. 169min. Classificação: 12 anos.

Interestelar


INTERESTELAR – RESENHA

O planeta está morrendo. E falta pouco para a total extinção. Essa é a premissa inicial de Interestelar, mostrada a nós desde os primeiros momentos do filme. A história se passa em um futuro próximo, quando a Terra está exaurida de seus recursos e a natureza está retomando o controle do mundo — e expulsando a humanidade. — O tempo de ponderar sobre a Terra ser uma fonte infinita passou. O tempo de debater sobre os males do aquecimento global passou. O tempo agora é de acreditar que existe uma maneira de reverter a deterioração progressiva do planeta — “Nós encontraremos uma maneira. Nós sempre encontramos.” — Mas e se isso for impossível? Talvez a única maneira seja encontrar um novo lar, um novo planeta que possa abrigar a humanidade antes da extinção.

O tempo é um dos temas principais do filme, assim como o tempo parece ser o elemento principal de toda a filmografia de Christopher Nolan. Em algum ponto, de alguma forma, de várias maneiras, o tempo é uma questão crucial para Nolan em seus filmes, desde o tempo fragmentado da memória em Amnésia, até o impacto da passagem do tempo sobre um herói em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, passando ainda pelo tempo incerto e impreciso dos sonhos em Inception.

O tempo é crucial, e tudo em Interestelar é movido pelo tempo — ou através dele —, desde os aspectos técnicos até os aspectos de enredo. Ele é tão forte e tão presente que repetidas vezes ao longo do filme somos lembrados disso pelas citações ao poema de Dylan Thomas“Do not go gentle into that good night, Old age should burn and rave at close of day; Rage, rage against the dying of the light.” — Um tipo de praga devastou o planeta, arruinou sua capacidade de sustentar vida animal e vegetal, e a salvação está na viagem para outra galáxia com o objetivo de encontrar um planeta que possa sustentar a vida humana. Um novo lar. O poema reflete a luta do homem para superar suas limitações, para ir além da idade e do tempo e ir além das galáxias, para levar a humanidade além das adversidades que possam assolá-la e até mesmo para além do impossível. O tempo é crucial.

Interestelar é provavelmente a obra de grandes proporções mais completa do cineasta no que tange o futuro do cinema. O roteiro desenvolvido por Christopher Nolan, repetindo a sempre bem-vinda parceria com seu irmão, Jonathan Nolan, conta uma história emocionante utilizando técnicas complexas — edições não-lineares, ideias inventivas, trilha sonora impactante, e todo o tipo de coisa que podemos esperar do diretor, que tornam a ação ainda mais espetacular e o drama humano ainda mais envolvente. — Semelhante ao que ele fez em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Nolan filmou Interestelar com uma combinação do formato 35 mm de filme e no formato 70 mm IMAX.

A exuberante fotografia de Hoyte Van Hoytema (O Espião Que Sabia Demais, Ela) contribui para as ambições narrativas, que expõem os recantos mais profundos do espaço e da condição humana, lugares que o homem nunca esteve, em ambos os aspectos. Interestelar é grandioso em todos os sentidos, e para todos os sentidos. Esse é um filme bastante humano. Nolan, sempre tão intrincado em seus pensamentos, sisudo em suas ações, aproxima-se um pouco do território de Steven Spielberg, com um misto de space opera e drama de família — uma família que luta para permanecer unida mesmo atravessando o tempo e as galáxias. — Essa percepção é tão real que o início do filme — em um mundo inóspito, mais rural do que urbano, apresentado por um homem que olha para as estrelas em busca de mudanças — nos faz lembrar Contatos Imediatos de Terceiro Grau.

Ao mesmo tempo em que nos remete ao clássico na ficção científica, Nolan nos faz abandonar noções preconcebidas sobre um épico espacial, revelando seu otimismo sobre o que o filme deve fazer. Interestelar é concebido para ser grande, imponente, de tirar o fôlego em todos os sentidos, em grande parte inspirado pela trilha sonora pesada de Hans Zimmer — com os toques incisivos de órgão que eram comuns às grandes obras de ficção científica do passado. — O filme acredita que a humanidade nunca esteve destinada a morrer na Terra, e que existem fronteiras e lugares ainda inexplorados na escuridão espacial, prontos para serem conquistados. Dotado de um idealismo comovente, é um filme que ainda se maravilha com os mistérios do universo, e com o potencial de evolução do ser humano. Assim como 2001: Uma Odisseia no Espaço, esse é um filme sobre a evolução do homem como espécie, mas diferente de seu antecessor, Interestelar vai além.

Semelhante a maioria de seus filmes, Nolan tem um talento especial para nos situar confortavelmente nos universos que ele cria. McConaughey e Hathaway buscam algo mais além das razões de sua expedição, tentando encontrar a alma no ideal de Nolan, que além de uma história sobre famílias separadas, também conta uma história de seres humanos que tentam manter o que intrinsecamente os torna humanos. McConaughey chora por sua família. Hathaway se fixa na ideia de que uma noção tão simples e humana como o amor poderia transcender o tempo e o espaço, e ambos concedem impulso à jornada, com performances ricas em um filme que oferece a eles uma estranha mistura de lágrimas, pela alegria e pela beleza, pela tristeza e pela ignorância, pela viagem rumo ao desconhecido e pela empatia de uma história bem contada.

Cooper é um homem abandonado pela nova era do mundo, um ex-engenheiro da NASA, que se tornou obsoleto pela mudança das circunstâncias e da cultura em meio ao desespero de um planeta que está morrendo. A Terra não precisa mais de engenheiros, precisa de fazendeiros que possam cultivar comida. Mas o trigo morreu, o quiabo também, e em mais alguns anos, o milho também encontrará seu fim. Em mais algumas décadas, o mundo encontrará seu fim. Cooper tornou-se tão obsoleto quanto o planeta, e se sente condenado, enquanto tenta oferecer a seus filhos tanto tempo quanto for possível para que eles possam criar suas próprias maneiras de viver. Por isso mesmo ele se torna a maior esperança do planeta.

Sua filha Murph, no entanto, precisa de mais e percebe mais. Ela encontra padrões entre os livros de sua casa, na poeira. Ela direciona o caminho para Cooper, e por ela, o que tiver que acontecer, acontecerá. Lei de Murphy. Como acontece com muitos filmes de Nolan, o início destila sutilmente pistas que nos revelam alguma coisa sobre o poderíamos esperar do final. Quem está acostumado a olhar para os filmes de Nolan dessa forma, pode percebê-las. Quem está acostumado com reviravoltas de ficção científica, pode teorizá-las. E mesmo assim, mesmo tendo alguma consciência — ainda que mínima — do que esperar, Interestelar ainda consegue surpreender. E isso também é um mérito do diretor, que consegue manter tudo acerca da produção sob o mais absoluto sigilo, tornando a experiência assistir a um de seus filmes algo único e inesquecível. Ele faz isso como poucos hoje em dia. O que quer que tenhamos visto nos vários materiais de divulgação do filme, acredite, é praticamente nada perto do que é o filme em si.

Quando a viagem verdadeiramente começa, com a aeronave que transporta Cooper, Amelia, Doyle e Romilly rumo à Saturno, tomamos noção de como o filme solenemente mantém a tensão enlouquecedora do espaço em um nível mínimo, enquanto nos faz entender, a duras penas, o terror da missão a ser completada. A tripulação é guiada por dois robôs retangulares sencientes chamados TARS e CASE — os monólitos de 2001: Uma Odisseia no Espaço mandam lembranças —, e a partir desse ponto, o filme se aprofunda cada vez mais no espaço e nas psiques instáveis dos personagens. Há muito em jogo, e a humanidade está em jogo, como espécie e como ser humano, em muitos aspectos. O tempo continua a ser crucial. Mas também a emoção e a solidão. E a ciência e a relatividade.

SPOILERS: ATENÇÃO! A partir desse ponto, o texto contém alguns spoilers sobre aspectos científicos do filme que afetam o enredo. Se você não quiser saber detalhes importantes sobre Interestelar, pare agora e volte somente depois de ver o filme. Agora se você não se importa de ler spoilers ou sua curiosidade é maior do que seu bom-senso, continue por sua conta e risco.

Para construir seu filme, Nolan trabalhou em conjunto com astrofísicos que pudessem ajudá-lo com os aspectos mais científicos relacionados a buracos negros (Black Hole) e buracos de minhoca (Wormhole), que são partes fundamentais do enredo. Como um “atalho” que poderia ser usado para atravessar o continuum espaço-tempo — reduzindo assim o tempo e as limitações de uma viagem espacial —, os buracos de minhoca são amplamente utilizados na ficção científica. Nolan aplica sua própria visão de ficção científica, embasado por especialistas, concedendo ao filme a sobriedade habitual de suas obras.

O físico teórico Kip Thorne, que é produtor executivo do filme, participou como consultor científico para garantir que as representações dos buracos de minhoca e da Teoria da Relatividade fossem tão precisas quanto possível. O aspecto científico, graças a ele, é bastante denso, com a equipe da NASA tentando resolver uma equação sobre a gravidade e muitas discussões sobre como encontrar o caminho mais curto para Cooper concluir sua jornada. Em dado momento, Romilly explica sobre o buraco de minhoca e a forma como ele reduz a distância entre dois pontos no espaço, usando um papel e uma caneta — e acenando de leve para outro clássico, Enigma do Horizonte. — Thorne trabalhou nas equações que aparecem em um quadro negro do filme, de modo que elas permitissem a representação dos rastros de luz durante uma viagem dentro de um buraco de minhoca ou em torno de um buraco negro.

O que vemos na tela é baseado (com as devidas adaptações para uma obra de ficção) na Teoria da Relatividade de Albert Einstein, em que o espaço-tempo é apresentado de uma forma que noções geométricas possam ser utilizadas, sendo composto por quatro dimensões — três espaciais e uma temporal, esta última considerada a quarta dimensão. — Há ainda no filme referências à quinta dimensão, que boa parte dos físicos teóricos acreditam existir, mas que não somos capazes de detectar. Para alguns cientistas, a quinta dimensão nos permitiria compreender a matéria escura, que não emite nem reflete luz e é completamente invisível. Dessa forma, ela funcionaria como um atalho de proporções milimétricas em dobras no espaço por onde escapa a gravidade de galáxias muito distantes. Ainda de acordo com os teóricos, se pudéssemos ver a quinta dimensão, seríamos capazes de enxergar milhões de galáxias apenas no espaço de (por exemplo) uma sala de estar, ou seja, a quinta dimensão permitiria que uma infinidade de corpos tridimensionais coubesse em um espaço de poucos milímetros (talvez um espaço cúbico que refletisse múltiplos momentos do tempo).

Thorne também colaborou com os artistas de efeitos visuais, fornecendo equações teóricas por escrito a eles e ajudando a desenvolver um novo software de renderização de computação gráfica com base nessas equações, de modo que eles pudessem criar simulações precisas do efeito gravitacional provocado por esses fenômenos. O efeito visual fornecido por Thorne resultou em uma nova visão sobre os efeitos gravitacionais que circundam os buracos negros, e será usado para a criação de dois artigos científicos: um para a comunidade astrofísica e um para a comunidade de artistas da computação gráfica. Uma vez um amigo meu me falou que antigamente a ficção científica, no cinema e na literatura, impactava e estimulava de alguma forma os avanços do pensamento científico no mundo real (mais do que acontece hoje em dia). Até nisso Interestelar reflete a ficção científica old school e, a sua maneira, está estimulando novas formas de pensamento científico.

Esse é invariavelmente um filme de Christopher Nolan, e por isso, além de toda a técnica grandiosa, é também sobre a perseverança humana. Amnésia, O Grande Truque, Inception, todos, em essência, são histórias sobre pessoas que corajosamente enfrentam desafios impossíveis. Mesmo a trilogia do Cavaleiro das Trevas é sobre um homem que sobrevive a um trauma de infância, um amor perdido, até mesmo uma coluna destroçada, para salvar não apenas uma cidade, mas conquistar uma vida pacífica para si mesmo. Interestelar também partilha desse otimismo teimoso normalmente exigido pela perseverança humana. E a perseverança caminha junto com o tempo, pois é preciso tempo para perseverar e alcançar o que se deseja.

Outra razão para esse ser um filme de Nolan é pelo que ele representa para o cineasta. Interestelar é um filme com ares de antiguidade, com estilo e estética old school, como o é seu próprio realizador. Assim como o cinema analógico atualmente perde espaço para o cinema digital, homens que fazem cinema como Nolan são cada vez mais raros. Ele abraça a nova forma de fazer cinema, saudoso pela velha forma, sabendo que o fim do antigo é inevitável. Assim como o fim da Terra, em seu filme, é inevitável. Assim como seus protagonistas abraçam uma possível nova Terra, saudosos pela velha Terra. Com um retorno ao velho modelo de produção cinematográfica, emula noções de um filme de Georges Méliès com sua nave que sustenta sonhos. Na busca por o que pode ser um ideal ilusório, pode nem sempre ser perfeito. E por suas falhas, é ainda mais poderoso em sua mensagem. Nolan lança um filme com ares de antiguidade, mas com dimensão de blockbuster. Múltiplas dimensões. O melhor de dois — ou talvez vários — mundos. O foco está em seus personagens, em seus diálogos, em suas ideias, em seus ideais. Como ficção científica, olha e referencia a velha ficção científica, com objetivo de criar algo novo. E como as ficções científicas do passado, é denso, contemplativo e ambicioso. Interestelar é a morte da luz e sua renovação. A raiva de Nolan por uma velha era que queima, e sua esperança para o futuro. Um passo além das estrelas e um recomeço. Lázaros.

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