Cultura

Aprendendo Política Com a Série THE WEST WING

The West Wing

The West Wing (EUA, 1999) é uma das minhas séries preferidas, dessas que vejo e revejo sempre que tenho oportunidade. No meio da nossa acirrada eleição presidencial e já irritada com a quantidade de grosserias e besteiras que surgem no meu Facebook e Twitter resolvi pegar o episódio quatro da segunda temporada, intitulado “In this White House” e estabelecer um paralelo com esse momento em que vivemos. Por que escolhi esse episódio especificamente? Porque vejo nele a antítese do que estamos vivendo nessa campanha, a Casa Branca de Jed Bartlet (Martin Sheen) é a utopia, e esse episódio mostra o mundo ideal da disputa política.

Ainsley Hayes (Emily Procter) é um advogada republicana que é escalada para debater com Sam Seaborn (Rob Lowe), vice diretor de comunicações da Casa Branca. Ainsley acaba com Sam no debate e faz com que o Presidente Bartlet insista para que ela seja contratada. Em um governo democrata não é comum a contratação de um republicano, ainda mais uma republicana que acaba de destruir um importante integrante do primeiro escalão do governo em um debate na TV. Claro que a decisão do presidente gera um caos na equipe e em Ainsley. De bônus, há uma história paralela sobre um presidente africano que pode ser um bom paralelo para a crise com o ebola.

Ainsley e seu grupo de amigos é o protótipo da oposição ferrenha, fala mal do governo, dos seus integrantes, de tudo. Ela é bem mais educada do que o que aparece na minha timeline, mas no fundo é igual, nada do governo presta. Do outro lado, temos as reações da equipe do atual governo, que tem a mesma atitude com a oposição. Na tela da TV foi uma troca de acusações e descaminhos delicada. Aqui a mesma coisa acontece com dedo em riste, é só pegar um debate desse segundo turno presidencial para ver. São acusações de parte a parte, não existe um debate de ideias, existem acusações, como se a única forma de convencer o eleitor fosse com o “ele/ela é pior do que eu”.

O episódio começa nesse clima e ele é exacerbado em um bate boca entre Ainsley, Sam e Josh Lyman (Bradley Whitford) quando aguardam ser recebidos por Leo McGarry (John Spencer), Chief of Staff (algo como ministro da casa civil). Em um dado momento da discussão, eles estão falando sobre porte de armas, Ainsley diz que o problema deles (democratas) não é que eles não gostam que as pessoas tenham armas, eles não gostam das pessoas. No meio da discussão Sam fala, ao saber que ela vai recusar a oferta de emprego, que é sempre muito mais fácil criticar de fora do que fazer algo para mudar as coisas. Ambos os argumentos são golpes baixos, bem melhores do que estamos vendo na nossa campanha eleitoral, mas baixos ainda assim. A importância dessa discussão na história é a reflexão que vem nas cenas seguintes.

Ainsley acaba aceitando o emprego porque é seu sonho trabalhar na Casa Branca e ajudar o país, mesmo que essa Casa Branca seja democrata e não republicana. A convivência dela com o alto escalão do governo democrata faz com que ela faça um importante discurso na mesa de jantar com os amigos. Eles estão falando mal sobre os democratas, demonizando-os, e Ainsley muda o rumo dos argumentos de insultos para ideias. Diz algo como “falem que eles gastam muito, que suas políticas interferem demais na vida privada, mas não os chamem de idiotas”. E é aqui o momento importante, a lição da história: em política, somos adversários e não inimigos. Deveríamos concordar que discordamos, que esquerda e direita tem uma visão para que o país evolua, são diferentes, até mesmo antagônicas essas visões, mas devem ser respeitadas igualmente.

Do lado democrata, Sam não só aceita a contratação de Ainsley como se tornam amigos, seus debates sobre visões diferentes sobre os mesmos assuntos é um dos melhores momentos desse arco narrativo, em especial quando ela reescreve um parecer dele no episódio 07 da mesma segunda temporada. A amizade entre os dois com debates francos sobre os assuntos, sem baixarias é o que deveria ser um debate político, seja ele entre amigos ou candidatos, um papo em que as propostas de parte a parte são postas e analisadas. Eu sei que isso tudo é utópico, mas tenho que mirar em algo, e esse é o meu mundo ideal, onde todos debatemos educadamente sobre ideias, concordamos que discordamos e nos respeitamos por isso.

Sobre a crise do ebola, nesse mesmo episódio um presidente de um país fictício africano se reúne com empresas farmacêuticas para tentar preços mais baixos para o coquetel anti-HIV. Em um dado momento, Toby Ziegler (Richard Schiff) fala que se a crise de saúde fosse entre homens brancos e na Europa tudo estaria resolvido, mas como está acontecendo com pessoas negras e pobres na África, ninguém liga muito. Troca AIDS por Ebola e nós temos a situação atual. Enquanto a doença estava matando pessoas na África, ninguém se mobilizou, bastou um europeu aparecer doente para se tornar uma crise de saúde mundial.

Voltando a questão central desse post, uma das frases mais ouvidas em qualquer trabalho de Aaron Sorkin (The Newsroom, A Rede Social, Studio 60 on the Sunset Trip) é “Decisions are made by those who show up” e essa é uma boa frase. Ficar reclamando e xingando a distancia é fácil, difícil é fazer acontecer. Espero que o legado dessa eleição, com trocas tão baixas de acusações e, muitas vezes, calunias, seja de pessoas mais engajadas na política nacional. Cidadãos que acompanhem o trabalho de deputados, senadores, governadores e presidente, que cobrem o cumprimento de propostas, que toda essa participação não se perca depois do dia das eleições. Que os vencidos e os vencedores sejam capazes de conviver e de desempenhar seu papel. O dos vencedores o de governar, o dos vencidos o de fiscalizar.

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