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The Strain – Primeira Temporada

Baseada na série de livros de Guilhermo del Toro e Chuck Hogan, a história gira em torno de um avião que aterrissa no Aeroporto Internacional John F. Kennedy, com luzes apagadas e portas seladas. O epidemiologista Dr. Ephraim Goodweather (Corey Stoll) e sua equipe do Centro de Controle de Doenças (CDC) são enviados para investigar. A bordo eles encontram duzentos cadáveres e quatro sobreviventes. Embora as investigações sejam inconclusivas a princípio, Eph decreta a ameaça de uma pandemia, mas começa a encontrar problemas para fazer seu trabalho por causa de interesses políticos ou burocráticos. A situação se complica quando os corpos começam a desaparecer dos necrotérios. Enquanto o que quer que tenha saído do avião se espalha, Eph e sua equipe descobrem que o surto viral parece ter ligações como uma antiga e maligna forma de vampirismo. Enquanto a tensão se espalha junto com a praga, eles lutam para evitar um mal ainda maior, em meio a uma guerra cuja melhor chance de salvação está no velho dono de uma loja de penhores, um caçador de vampiros chamado Abraham Setrakian (David Bradley).

(The Strain) – Horror. Estados Unidos, 2013.

De Guillermo del Toro, Chuck Hogan e Carlton Cuse. Com Corey Stoll, David Bradley, Mía Maestro, Sean Astin, Kevin Durand, Natalie Brown, Jonathan Hyde, Richard Sammel, Jack Kesy, Ben Hyland e Miguel Gómez. Canal FX. 13 episódios. 60min.

The Strain


PRIMEIRA TEMPORADA – RESENHA

Guillermo del Toro é conhecido por seu trabalho fortemente influenciado por contos de fadas e horror, tendo em seu currículo grandes obras de dark fantasy por causa disso. Por ter um fascínio e uma visão única de monstros, suas histórias são sempre dotados dos tipos mais bizarros e grotescos de criaturas, como é o caso de Blade II (2002), quando ele aplicou essa sua visão horripilante a um dos mitos mais clássicos do horror: o vampiro. Depois de Blade II, o cineasta evoluiu seu conceito de vampiro junto a Chuck Hogan, com quem escreveu o romance The Strain (Noturno), primeira parte do que chamaram The Strain Trilogy (Trilogia da Escuridão) publicada em 2009.

Curiosamente, The Strain havia sido pensado como enredo para uma série de televisão, mas del Toro não conseguiu encontrar uma emissora disposta a comprar o programa. Um agente sugeriu que ele transformasse a história em uma série de livros, e os livros se tornaram um sucesso. Graças ao sucesso, o romance se tornou uma série do FX — para você ver como às vezes são as coisas. — O motivo do sucesso é a forma como conta sua história e apresenta seus monstros.

Apesar de Del Toro ter dirigido apenas o episódio piloto, sua presença é notável ao longo de toda a primeira temporada. Não apenas por ter qualidade digna de seus filmes, também pelo aspecto meio antiquado — fortalecido por uma loja de penhores no cenário —, pelo tom amarelado doentio da iluminação e pelos efeitos especiais práticos. O enredo mistura elementos de suspense de investigação criminal, mais ou menos no estilo CSI, com questões de luta pela sobrevivência e decadência moral humana frente a um caos social, comum às histórias de apocalipse zumbi.

Aqui no caso, a proposta é um apocalipse vampírico! Os vampiros são monstros horrendos, bestiais e distorcidos, como não se vê mais com frequência hoje em dia — algo próximo aos vampiros de A Hora do Espanto (1985), Um Drink no Inferno (1996) ou 30 Dias de Noite (2007). — Chamados normalmente de Strigoi, eles são mostrados mais como parasitas contagiosos que proliferam feito vírus do que como a visão habitual de seres sobrenaturais que venderam a alma para o demônio. A ênfase é mais biológica do que mística, e sob esse ponto de vista científico, a série consegue até mesmo explicar clássicas fraquezas vampíricas, como vulnerabilidade ao sol e à prata.

Muito do conceito aplicado por Del Toro aos vampiros de Blade II é reaproveitado e melhorado (de uma maneira distorcida), como a pele esbranquiçada e a forma grotesca de alimentação — que se dá através de uma tromba retrátil de até seis metros que sai da boca, com um ferrão usado tanto para sugar o sangue quanto para infectar a vítima. — Uma inovação interessante é a forma como as pessoas são infectadas. O vetor que transmite o vampirismo é um verme que, uma vez introduzido na corrente sanguínea (que pode acontecer quando o vampiro se alimenta ou através da invasão direta do verme quando entra em contato com a pele de alguma forma), se espalha pelo corpo da vítima absurdamente rápido, manipulando os genes do hospedeiro e provocando a transformação em vampiro. Não é bonito de se ver, e tenho que dizer que estava sentindo falta de ver um vampiro bizarro assim em uma história bizarra assim.

O elenco composto por bons atores ajuda bastante na atmosfera do cenário, embora eles passem por altos e baixos ao longo da temporada. Corey Stoll (House of Cards) é o protagonista Dr. Ephraim “Eph” Goodweather, um homem da ciência tentando O TEMPO TODO dar algum sentido para o apocalipse vampiro. Se por um lado Stoll é grandioso no início da série por causa de seu código moral voltado para evitar que uma terrível pandemia se espalhe, por outro, ele cai bastante de rendimento quando seu ceticismo se torna ingenuidade estúpida — que só aumenta quando se trata de sua família, que é meio sem graça. — Por outro lado, no final, quando Eph começa a aceitar o apocalipse iminente e compreende a ameaça dos vampiros, ele volta a crescer como o personagem que era no começo. O momento em que ele decide ensinar seu filho, Zach, a atacar os órgãos vitais dos vampiros com uma espada de prata é uma virada importante para o personagem, e uma cena de impacto para Stoll — ainda não é a relação poderosa entre pai e filho de Rick e Carl em The Walking Dead, mas é um começo. — Ao lado dele, cabe destacar o desempenho de Kevin Durand como o exterminador ucraniano Vasiliy Fet, uma homem que passou a vida caçando pragas nos esgotos da cidade e descobriu o verdadeiro foco de sua vocação ao se deparar com a mais terrível praga de todas. Durand é de uma frieza incrível e até um pouco chocante, especialmente em um momento importante envolvendo Jim Kent, personagem de Sean Astin. A presença de Mía Maestro como Nora Martinez concede alguma suavidade à selvageria caótica da série.

Separado do grupo principal está Miguel Gómez como bandido mexicano Augustin “Gus” Elizalde, que pouco a pouco se constrói como um potencial matador de vampiros. Ele é um personagem complicado, que tem força, mas cuja maioria dos diálogos soa forçado. É um personagem que pode realmente crescer nas próximas temporadas, mas que ainda não disse muito a que veio.

O verdadeiro herói, contudo, surge na forma do caçador de vampiros Abraham Setrakian — COMO ESSE NOME É FODA! —, interpretado por um David Bradley em nível bad ass maioral. Ainda que seja conhecido por seu papel de Argus Filch nos filmes Harry Potter, e também por Walder Frey na série Game of Thrones, esse é definitivamente um personagem marcante para o ator. Bradley concede a Setrakian um misto de imponência e cansaço, digno de um homem que perdeu muito e caçou vampiros durante boa parte da vida, e apesar de toda a experiência e sabedoria que acumulou, está visivelmente cansado (pela idade e pelo peso que carregou nos ombros durante anos). Seu desempenho é tão brutal quanto emocionante, de uma forma que nos faz acreditar cegamente que ele, mesmo sendo um homem velho, é perfeitamente capaz de sobreviver a um apocalipse. Especialmente quando empunha sua espada de prata — “My sword sings of silver!”

A série também nos mostra, através de flashbacks, como Setrakian chegou ao ponto que chegou. Revisitamos seus dias durante sua prisão em um campo de concentração nazista atormentado por mortes misteriosas, causadas pelo monstro vampiro conhecido como o Mestre — que habita o corpo de Jusef Sardu, um nobre romeno do século XIX que possui gigantismo e era conhecido como “gigante gentil” durante a vida. — Durante os flashbacks conhecemos o passado de Setrakian e o Mestre, seus encontros anteriores, e a relação do caçador de vampiros com um dos maiores asseclas do mestre vampiro, o ex-coronel nazista Thomas Eichorst, interpretado por Richard Sammel — que já foi um nazista no filme Bastardos Inglórios. — Sammel concede tantas camadas ao seu nazista, que ele se torna aquele tipo de personagem que nós gostamos de odiar. Mesmo quando Eichorst parece ter compaixão em alguns momentos por Setrakian, ele se mostra relutante e apegado ao ódio com o qual seu caráter foi moldado. A cena em que Eichorst coloca maquiagem para esconder sua aparência vampírica é especialmente estranha, e maravilhosa.

Em sua primeira temporada, The Strain foca principalmente em ser o início de um apocalipse pandêmico, mostrando a entrada da “doença” nos Estados Unidos por meio de uma intensa investigação no avião “morto”, e se constrói a partir das peças movidas pouco a pouco ao longo da trama, até a cidade de Nova York ser completamente tomada por vampiros que vagam pelas ruas e drenam pessoas com ferrões que brotam de suas bocas como tentáculos. Esse conceito bizarro funciona muito bem para o mito de vampiros que Del Toro constrói com a história, criando uma visão única e assustadora do gênero. Até mesmo os estereótipos, que estão por toda parte no enredo — que é bem básico —, são tratados de uma forma que concede certo charme para a série. O drama existe, mas o horror é o mais importante. Os vampiros estão ficando mais inteligentes à medida que amadurecem e a praga está se espalhando. A segunda temporada promete ser ainda mais bizarra e apocalíptica.

The Strain é uma história inquietante e assustadora sobre um mundo que não faz prisioneiros. Crianças não estão seguras, personagens principais não estão seguros, nosso apetite provavelmente não está seguro. O grotesco é nojento, de revirar o estômago, como tem que ser. De vez em quando é bom assistir a uma história de vampiros que explora a alma atormentada de seus protagonistas, e ao mesmo tempo não tem medo de ser um espetáculo de sangue e vísceras.

The Strain

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