Você Viu?

O Abutre

Enfrentando dificuldades para conseguir um emprego formal, o jovem Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) decide entrar no perturbador submundo do jornalismo criminal independente de Los Angeles. Com uma câmera na mão e um assistente, ele começa a correr atrás de crimes e acidentes chocantes, registrando tudo e vendendo a história para veículos de imprensa interessados.

(Nightcrawler) – Suspense. Estados Unidos, 2014.

De Dan Gilroy. Com Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Riz Ahmed, Bill Paxton, Ann Cusack, Kevin Rahm, Jonny Coyne e Kathleen York. 117min. Classificação: 14 anos.

O Abutre


O ABUTRE – RESENHA

Se há algo que pode se ter certeza em O Abutre é que não há como se livrar de Jake Gyllenhaal, mesmo horas depois do fim do filme. Seu desempenho e sua presença em cena são de uma intensidade tão horripilante que é impossível esquecê-lo ou as diretrizes que ele usa para alcançar seus objetivos. Até certo ponto, ele está certo no que acredita; o problema é a forma como ele aplica aquilo em que acredita. E isso dá medo, muito medo.

O pior tipo de ser humano é aquele que não tem filtros morais ou sociais, e isso fica claro desde o primeiro momento em que conhecemos Louis Bloom. Em sua primeira cena, quando espanca um guarda por causa de alguns cabos de cobre, ele mostra quem é e no que acredita. Gyllenhaal literalmente se transforma fisicamente para o papel, pálido, com olhos esbugalhados, um cabelo desgrenhado que ele eventualmente prende acima da cabeça. Ele vaga pela cidade como um vagabundo estranho, cheio de ambições, e sedento para encontrar sua forma de subir na vida, não importa o que ele precisará fazer para isso.

Enquanto dirige pelas ruas igualmente pálidas de Los Angeles, Lou encontra sua vocação ao se deparar com um sangrento acidente de carro, onde vê uma equipe de reportagem de TV tentando gravar imagens da carnificina. Ganhar a vida fazendo imagens da desgraça dos outros para vendê-las para a emissora que pagar melhor; parece a profissão ideal para um homem como Lou. Ele logo encontra seu caminho para trilhar a profissão, buscando crimes horríveis que possam ser filmados e vendidos a Nina (Rene Russo), uma produtora do noticiário da TV local, que está sempre a procura de matérias chocantes para alavancar a audiência.

Não demora muito até o filme se revelar surpreendente, quando Lou começa a se embrenhar em cenas do crime antes que a polícia chegue. Quando testemunhamos de verdade o que ele é capaz de fazer, O Abutre se transforma em uma obra-prima do cinema contemporâneo. O diretor e roteirista Dan Gilroy levanta questões importantes sobre ética profissional e decência humana, trabalhando com um anti-herói de comportamento amoral, que pouco a pouco é impulsionado por atitudes cada vez mais distorcidas e impiedosas. Não é o tipo de história em que você torce pelo protagonista; pelo contrário, aprendemos com ele um pouco mais sobre a frieza da sociedade moderna, especialmente no que diz respeito à famigerada sociedade do espetáculo, em que a imagem vale mais do que qualquer palavra ou valor moral. O valor, na verdade, está no quão chocante uma imagem pode ser. O jornalismo contemporâneo manda lembranças.

Gyllenhaal merece todo o crédito por fazer com que Lou permaneça estranhamente atraente mesmo quando ele está decaindo rumo às profundezas mais vis de sua depravação. Em alguns aspectos, Lou se aproxima de outro icônico sociopata, Travis Bickle de Taxi Driver. Ainda que não tenha a sutileza nem a charmosa complexidade do personagem da obra de Martin Scorsese, Lou é construído como um indivíduo icônico à sua maneira, de modo que pode entrar para o seleto rol de personagens marcantes do cinema.

Lou ainda surge como uma consagração definitiva para a carreira camaleônica de Gyllenhaal; é incrível como ele consegue mudar (em aparência, trejeitos, personalidade, carisma) cada vez que assume um papel novo. Ele não apenas escolhe bem seus papéis, como os incorpora de forma sempre excepcional. Poucos atores dessa nova geração produzem o efeito e o impacto que ele produz a cada atuação.

O Abutre funciona muito bem como um thriller angustiante criado para fazer uma crítica mordaz ao cinismo e a desumanidade que cresce cada vez mais no meio jornalístico — como personificado pela produtora Nina, que de tão desprovida de consciência torna-se, em certo ponto, suscetível à doutrinação de alguém cujo comportamento amoral é fruto de uma visão legitimamente deturpada de mundo, não de uma simples falha de caráter. — Lou é uma pessoa horrenda, e ainda assim, fascinante por sua determinação insana e seu instinto de auto-preservação. Seriam qualidades ideais para se alcançar o sucesso no mercado de trabalho de hoje em dia, se não fossem a forma como as coloca em prática.
Há uma ótima virada na trama envolvendo Riz Ahmed, como o jovem sem-teto que se torna “estagiário” de Lou, e outra com Bill Paxton, o cinegrafista rival de Lou. Os desfechos desses dois personagens revelam muito sobre o próprio Lou, e sobre como o espetáculo de Gyllenhaal produz um retrato frio e inquietante de um monstro moderno.

O Abutre

O Abutre

O Abutre

Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Inscreva-se no Canal

Resenhas Populares

Rogue One: Uma História de Star Wars

Rogue One: Uma História de Star Wars

It: A Coisa

It: A Coisa

Planeta dos Macacos: A Guerra

Planeta dos Macacos: A Guerra

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Raw

Raw

Siga no Bloglovin’

Follow

Vem Com a Gente

Curta e Compartilhe

Aperte o Play

Nível Épico em Imagens