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Festa no Céu

Inspirado no feriado mexicano do Dia de los Muertos, a animação começa com a guia de um museu contando uma história a um grupo de alunos bagunceiros uma história sobre as disputas entre a bela La Muerte e seu marido Xibalba, que reinam nos mundos para onde vão as almas após a morte. Querendo sair da soturna Terra dos Esquecidos, Xibalba faz uma aposta com La Muerte, com a intenção de trocar de lugar com ela, assumindo assim o trono da Terra dos Lembrados (um lugar mais festivo e vibrante). Os deuses observam três amigos de infância — a esperta Maria, o sensível artista Manolo e bom de briga Joaquin — e apostam em qual dos meninos vai crescer e se casar com Maria. La Muerte escolhe o bondoso Manolo, enquanto Xibalba escolhe Joaquin, que recebe do deus uma medalha com poderes sobrenaturais que vai ajudá-lo a conseguir a vitória. Maria é mandada embora do México — que no filme é o centro do universo — para estudar, e quando ela retorna já adulta (voz original de Zoe Saldana), se vê em meio à disputa dos dois amigos por seu coração. Manolo (Diego Luna) toca guitarra escondido, porque seu pai quer que ele na verdade siga o negócio da família e se torne um grande toureiro, enquanto Joaquin (Channing Tatum) se tornou um soldado lendário e conhecido por seus feitos heroicos.

(The Book of Life) – Fantasia. Estados Unidos, 2014.

De Jorge R. Gutierrez. Com Diego Luna, Zoe Saldana, Channing Tatum, Ron Perlman, Christina Applegate, Ice Cube e Kate del Castillo. 95min. Classificação: Livre.

FESTIVAL DO RIO 2014 – Exibição na Mostra Panorama do Cinema Mundial

Festa no Céu


FESTA NO CÉU – RESENHA

Filmes infanto-juvenis que falem sobre a morte são consideravelmente raros. Não é todo dia que vemos esse tipo de abordagem no cinema, especialmente com uma animação. Histórias sobre romances e relacionamentos — amorosos ou em família, de teor adolescente ou não — são mais frequentes, e somos apresentados a eles desde cedo. A morte, contudo, ainda é tratada como um assunto tabu, muitas vezes deixado de lado em histórias infanto-juvenis. Isso talvez seja um reflexo da nossa própria forma de encarar a morte como algo triste, que não deva ser tratado com humor. Mas isso é um sentimento estimulado pelo tipo de cultura em que estamos inseridos. A cultura mexicana — ou a cultura japonesa, apenas para citar outro exemplo — enxerga a morte de maneira diferente. Existe a tristeza e a saudade, mas isso é visto por essas culturas de uma forma mais agradável.

Essa é a visão de Festa no Céu — tradução de The Book of Life, e um título que não faz jus à verdadeira ambientação do filme, por associar o mundo (que realmente é festivo) para onde vão as almas dos mortos a um conceito simplista de “paraíso” típico da nossa cultura, mas distante da cultura mostrada na história. — A animação tem como temática central o Dia de los Muertos, a celebração mexicana em honra à morte e renascimento e à vida dos ancestrais. Para os mexicanos, não há tristeza ou luto nesse dia. Pelo contrário, essa é uma das festas mais animadas do México, pois segundo a cultura popular, os mortos vêm para visitar seus entes queridos. Ela é festejada com comida, bolos, festa, música e doces preferidos dos mortos.

Festa no Céu se vale dessa comemoração animada, contando uma história colorida e vibrante sobre a memória daqueles que partiram, ao mesmo tempo em que celebra a força para construirmos nossas próprias vidas, de acordo com nossas próprias visões, ao invés de simplesmente seguirmos o desejo dos outros. Isso tudo ainda se soma às temáticas habituais dos filmes de animação, pois também há espaço para romances e relacionamentos — amorosos ou em família, de teor adolescente ou não. — O charme de Festa no Céu está justamente no equilíbrio entre a abordagem criativa sobre a morte e a abordagem clássica das aventuras românticas. A morte aqui não é um fim a ser temido, mas uma oportunidade de alegria ao se reencontrar o abraço caloroso de veneráveis ancestrais.

Com direção primorosa de Jorge R. Gutierrez e tutela do produtor Guillermo del Toro, o filme tem cenas sempre bem dosadas com bastante humor e música, mesmo nos momentos mais melancólicos. Gutierrez cria um universo memorável, composto por vários mundos que vão surgindo um após o outro: a Terra dos Vivos — ou se você preferir o México de Bigode! —, a SENSACIONAL Terra dos Lembrados, a Terra dos Esquecidos e a terra onde habita o psicodélico Homem de Cera. Festa no Céu é uma celebração de cores e paisagens encantadoras, com um visual totalmente baseado na arte popular mexicana e em imagens do Dia de Los Muertos, uma alternativa interessante às bruxas e abóboras comuns ao Halloween. A mitologia criada pelo filme é maravilhosa, com uma aventura empolgante e, às vezes, contemplativa. Tudo é muito bonito, tudo é uma grande festa que celebra a vida, mesmo entre os mortos.

Os personagens que transitam por esse cenário bonito e cheio de detalhes criativos são um espetáculo a parte. Eles são criados como se fossem bonecos de madeira (quando vivos) ou esqueletos (quando mortos), e todos têm articulações em pontos de ligação e movimento do corpo — como ombros, cotovelos, joelhos, dedos. — Eles parecem marionetes, mas ao mesmo tempo, todos têm olhos e rostos expressivos, mesmo quando aparecem como esqueletos na vida após a morte. Outro detalhe interessante é a distinção entre mocinhos e bandidos. Os antagonistas da história são sempre apresentados como monstros ameaçadores, vide os touros imensos e cobertos de espinhos, ou o vilão Chakal. Os mocinhos são mais cativantes e adoráveis — especialmente o porco de estimação de Maria, que é bem divertido! — Com uma animação impressionante como um todo, vale destacar o uso de textura, desde a trama dos tecidos das roupas até a pele de açúcar da deusa La Muerte — que, aliás, é a coisa MAIS LINDA E FANTÁSTICA do universo! Catrina entrou no topo da minha lista de personagens apaixonantes! Adorei muito ela!

Festa no Céu

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