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Batman: Asilo Arkham

Asilo Arkham: Uma Séria Casa Em Um Sério Mundo conta uma história em que Batman é chamado para acabar com um motim no infame Asilo Arkham, a instituição psiquiátrica onde estão os vilões mais perigosos da cidade de Gotham. No interior do asilo, Batman precisa lidar com alguns de seus maiores inimigos, Duas-Caras, Killer Croc, Chapeleiro Maluco, todos instigados pelo Coringa. Quando Batman entra mais a fundo nas dependências do asilo, descobre que alguns vilões estão muito diferentes e precisa não apenas enfrentá-los, como também enfrentar seus piores medos. Em paralelo à jornada do Homem Morcego, somos apresentados à flashbacks que contam sobre o passado de Amadeus Arkham, o psiquiatra que criou o Arkham e terminou enlouquecido dentro dele.

(Arkham Asylum: A Serious House on Serious Earth) – Horror. Estados Unidos, 1989.

De Grant Morrison. Arte de Dave McKean. Com os personagens Batman, Coringa, Duas-Caras, Killer Croc, Chapeleiro Maluco, Maxie Zeus e Amadeus Arkham. Editora Panini Comics. 216 páginas.

Batman: Asilo Arkham


BATMAN: ASILO ARKHAM – RESENHA

O Batman teve bastante destaque em uma série de grandes histórias no final de 1980. Frank Miller lançou um olhar para o passado e o futuro do herói em Batman: Ano Um e O Cavaleiro das Trevas, enquanto Alan Moore e Brian Bolland apresentaram seu arqui-inimigo, o Coringa, como parte de um dos piores momentos da história do Homem-Morcego em A Piada Mortal. O Coringa também surge como principal elemento de Asilo Arkham: Uma Séria Casa Em Um Sério Mundo — normalmente abreviado para Batman: Asilo Arkham —, graphic novel escrita por Grant Morrison e ilustrada por Dave McKean. Até hoje me lembro da dificuldade que tive para adquirir essa HQ na minha adolescência — a edição publicada em 1990 pela Editora Abril —, pois demorei bastante para comprá-la, e quando decidi fazê-lo já não era tão fácil encontrar nas bancas e lojas. No fim das contas comprei pela Internet uma versão usada, que li no mesmo dia que chegou. Essa HQ mudou minha forma de encarar o Batman.

Dentre todas essas grandes histórias do herói que citei anteriormente, Asilo Arkham foi a primeira que li, e dela, eu segui para as outras. Até hoje me lembro o impacto que me causou descobrir um Batman atormentado pelos medos que fizeram dele um herói, em um conto macabro e à beira da loucura, numa época em que meu interesse pelo horror crescia consideravelmente. Atualmente a graphic novel pode ser encontrada em uma versão de luxo publicada pela Panini Comics. Considerada uma das maiores histórias do Batman de todos os tempos, a edição definitiva é repleta de extras, que incluem o roteiro completo com comentários do autor, layouts das páginas e um posfácio inédito da editora Karen Berger. A HQ ainda se tornou a referência definitiva sobre o passado negro por trás da criação do Asilo Arkham, e uma parte importante da mitologia do Homem-Morcego.

Morrison utiliza vários elementos tradicionais — o bat-sinal iluminando o céu nublado de Gotham, uma horda de vilões, um flashback do assassinato dos pais de Bruce —, mas essa é uma história completamente diferente do Batman. É mais espiritual e mística, com círculos de sal para afastar os maus espíritos — o que estabelece certa relação com H.P. Lovecraft — e referências às aventuras da Alice de Lewis CarrollNo País das Maravilhas e Através do Espelho — que concedem uma natureza onírica da história. Pode-se dizer que esse é o Batman no “buraco do coelho”, inclusive com uma participação macabra do Chapeleiro Maluco, extraído das obras de Lewis Carroll, aqui mostrado como uma representação da violência às crianças.

Há inclusive uma versão magricela e eletrificada de Maxie Zeus, que se encontra ligado à sala de terapia de eletrochoque, perpetuamente recebendo correntes elétricas, que ele acredita ser “fogo do céu”. Ele se compara aos deuses supremos em muitas mitologias, e não reconhece o Batman quando ele chega à sala, enxergando-o como uma espécie de peregrino que está apenas de passagem. Como um vilão de pouca representatividade na mitologia do Batman, poucos escritores se preocupavam em apresentar algum aspecto mais profundo de Maxie Zeus. Morrison o faz, apresentando o vilão como uma criatura patética, iluminado em tons azuis, que se considera o Senhor da Eletricidade a ser adorado em um “altar AC/DC”.

O autor seleciona seus personagens com sabedoria, trabalhando arquétipos para cada um deles, sem super povoar o asilo. Sucinto e sombrio… é a forma como ele mergulha nas profundezas do espírito do Homem-Morcego. Killer Croc é visto como o “dragão que há lá dentro” — com uma luta de lança impactante entre Batman e o vilão que remete à ópera de Wagner, Parsifal —; Cara-de-Barro surge como um homem imundo e degenerado, querendo “partilhar sua doença” com o Batman, a quem o Coringa trata como alguém igualmente imundo e degenerado; Doutor Destino, um personagem meio esquecido, senhor dos sonhos e pesadelos, simboliza os terrores enfrentados e derrotados com violência pelo herói ao longo de seu caminho; Duas-Caras reflete uma personalidade destruída para ser recriada e o que pode nascer disso, como é a própria origem do Batman.

O tratamento dado ao Coringa é igualmente articulado, com a noção de que sua loucura é associada a uma super sanidade adequada à vida urbana no final do século XX — que seria semelhante à Síndrome de Tourette —, definindo de maneira inteligente por que em alguns dias ele é um palhaço infantil, e em outros, um assassino psicótico. Isso concede peso ao Coringa como um caso especial no Arkham, além de qualquer tratamento, e como o grande vilão que está sempre, de alguma forma, equiparado ao Batman.

Morrison brilhantemente trabalha seu misticismo sutil, vinculado ao zodíaco, aos ciclos lunares, a maldições e espíritos. Mesmo nos flashbacks da vida de Amadeus Arkham durante os anos 1920, Batman e Coringa estão sempre presentes, ainda que presos ao inconsciente do psiquiatra. As imagens de “asas batendo” que assombram Arkham enquanto ele dorme — que depois se revelam um monstruoso morcego —, o peixe-palhaço em seu aquário — que em dado momento ele define como um inexplicável déjà vu. — No início da HQ, sob ordens do Coringa, a psicoterapeuta Ruth Adams faz um jogo de associação de palavras com o Batman. Morrison parece fazer o mesmo conosco, criando associações de palavras para a construção de seu cenário — o peixe que se torna Peixes, Peixes de abril, “poisson d’avril”, Primeiro de Abril, Dia dos Tolos, dia em que acontece a rebelião dos vilão no asilo. — Ao fazer isso, o eterno embate entre Batman e seus adversários rompe as fronteiras de Gotham, tornando-se algo como sonhos e pesadelos que sempre povoaram as mentes das pessoas — e nossas mentes de leitores. — Eles representam nossos pensamentos e medos.

Dave McKean consegue captar todas essas sensações da história através de sua arte tão perturbadora quanto incrível. Ao ilustrar a história, ele mistura pinturas, desenhos, fotografia e colagem das mais variadas formas, criando páginas marcantes e uma densa simbologia. Com seus aspectos surrealistas, McKean constrói muitas cenas vistas na HQ com o uso de símbolos para indicar elementos psicológicos em particular, como as cartas de tarô que podem ser associadas aos vilões da história, ou a inscrição em grego que significa “Conhece-te a ti mesmo” e está sobre a porta da câmara de eletrochoque de Maxie Zeus, entre outras.

Asilo Arkham: Uma Séria Casa Em Um Sério Mundo coloca o Batman em seu momento mais vulnerável, em que ele deve confrontar seus demônios, talvez saindo mais forte no final da jornada. Ainda que em meio às sutilezas de sua narrativa revele o herói como alguém que pode ser tão louco quanto os demônios contra os quais luta, também mostra por que ele é o herói da história, uma vez que o Batman é capaz de fazer a escolha que nenhum deles consegue fazer — deixar o mundo do asilo para o mundo real. — E apesar de seu mal-estar ao ser acompanhado pelo Coringa no Asilo, o herói caminha lado a lado com seu arqui-inimigo enquanto está saindo. Não é como caminhamos todos?… Entre o preto e o branco, o tempo todo fazendo escolhas e enfrentando demônios para seguir o caminho mais correto.

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