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Trash: A Esperança Vem do Lixo

Quando os meninos Rafael e Gardo (Rickson Tevez e Eduardo Luis), catadores de lixo em uma favela, encontram uma carteira entre os detritos do lixão local, eles nem imaginam que suas vidas estão prestes a mudar. Mas quando a polícia aparece oferecendo uma recompensa pela carteira, eles percebem que o que encontraram deve ser muito importante. Com a ajuda do amigo Rato (Gabriel Weinstein), os dois investigam a história do dono da carteira. Eles logo chegam a uma dupla de missionários americanos, que trabalham na favela e estão dispostos a ajudá-los em sua busca para resolver esse mistério. O problema é que a corrupção que assola a cidade está por toda parte e pode ser mais difícil de enfrentar do que eles imaginam.

(Trash) – Aventura. Estados Unidos, 2014.

De Stephen Daldry. Com Selton Mello, Wagner Moura, Rooney Mara, Martin Sheen, Nelson Xavier, José Dumont, Gabriel Weinstein, Eduardo Luis e Rickson Tevez. 115min. Classificação: 14 anos.

FESTIVAL DO RIO 2014 – Exibição na Noite de Encerramento

Trash: A Esperança Vem do Lixo


TRASH: A ESPERANÇA VEM DO LIXO – RESENHA

Trash — que significa “lixo” em inglês — não é tão trash quanto poderíamos esperar, e curiosamente, é até bem limpo em seu aspecto e claro em suas intenções. O filme é uma fábula urbana, que o tempo todo deixa evidente seu interesse em contar sua história como ~uma fábula. Desde o momento inicial, em que José Ângelo (Wagner Moura) atira sua carteira para a estrada, do alto da sacada de um prédio, e ela cai certinha na caçamba de um caminhão de lixo que estava passando naquele momento, percebemos que tipo de história vamos acompanhar e como ela nos será contada. Perto do final, uma revelação inacreditável é feita em um cemitério, o ciclo dessa história como fábula se confirma plenamente. O diretor Stephen Daldry, assim como em outros de seus filmes — Billy Elliot, Tão Forte e Tão Perto, por exemplo —, conta sua fábula à beira do realismo, inclusive usando de violência para reforçar suas intenções quando necessário. E como uma boa fábula, a intenção é bastante simples: passar uma lição moral sobre caráter e sabedoria.

Passando por cenários e personagens dignos de uma fábula, somos conduzidos pela graça e pela coragem de meninos que tentam lutar contra a sujeira da índole humana para fazer o que é certo. Essa é a intenção de Trash, mostrar que o lixo não se restringe apenas a lugares, mas também está presente nas pessoas, e que nem sempre as pessoas que vêm do lixo trazem sujeira dentro de si.

Daldry capta a emoção de suas imagens com auxílio da direção de arte primorosa de Adriano Goldman, que lança um olhar profundo e atraente sobre a cidade. Lixão e túneis subterrâneos de esgoto onde vive Rato — que são fictícios —, assim como lugares como o Vidigal e a estação de trem da Central — que compõem a paisagem real da cidade —, são construídos sob uma ótica fantasiosa, emulando um sentimento de realismo que funciona adequadamente dentro do cenário.

Baseado no livro homônimo de Andy Mulligan — conhecido por escrever livros para jovens adultos —, a história funciona principalmente devido à energia contagiante de seus três protagonistas adolescentes. Stephen Daldry mais uma vez mostra sua facilidade para conduzir atores jovens, e parece confortável com os moleques que têm a sua disposição. Rafael, Gardo e Rato, apesar de todas as dificuldades que enfrentam na vida cotidiana, encaram a vida com um olhar leve e infantil, e essa visão simples de mundo se reflete em sua camaradagem. Eles são despojados e divertidos, e acima de tudo, desapegados. Por isso são fortes de caráter. Quando encontram algo errado, decidem fazer alguma coisa para corrigir, sem pretensões, sem desejar uma recompensa. Eles fazem o que fazem apenas porque acreditam que é certo. Essa convicção é a alma da história, o charme adorável do filme.

A aventura — que logo se configura em uma espécie de caça ao tesouro no melhor estilo Goonies — é pontuada por emocionantes cenas de perseguição pelas ruas da cidade, e por sequências que não tentam explorar lugares convencionais — leia-se pontos turísticos — do Rio de Janeiro. Isso é sem dúvida um mérito de Daldry. Toda essa atmosfera é permeada ainda por uma constante presença da fé e da religião, tanto pela parte dos garotos e do Padre Juilliard (Martin Sheen) quanto pelas críticas destiladas contra a corrupção na cidade. Em vários momentos, os garotos buscam apoio na fé, especialmente Rafael, e muitas vezes eles parecem realmente protegidos por algum tipo de força divina que impede as coisas ruins de chegarem perto deles.

Os acontecimentos são ainda intercalados por trechos de cenas filmadas em que os garotos contam para o público — rompendo um pouco a quarta parede — como chegaram até aquela situação. Durante esses trechos de frente para a câmera, os garotos parecem mais travados, menos despojados do que de costume. Mais para frente na história, descobrimos que aqueles trechos foram filmados por Olivia (Rooney Mara), que queria registrar os apuros que eles estavam enfrentando, transformando o jeito envergonhado dos garotos em algo natural da composição dos personagens. Tevez, Luis e Weinstein, que não são atores profissionais, possuem uma alegria que vai além das convenções cinematográficas. Eles são encantadores como sua história.

Um dos elementos do livro é que a história se passa em uma cidade que não é especificada por Mulligan em momento algum. Pode ser qualquer — QUALQUER! — cidade de um país subdesenvolvido ou em desenvolvimento que possua lixões e favelas. Nesse sentido, o filme mantém o clima do livro, ao não estipular verdadeiramente a localização da cidade onde se passa a história. Em nenhum momento no filme é citado que a cidade em questão é o Rio de Janeiro. Nós sabemos que é o Rio de Janeiro por causa das imagens e por causa das referências que Daldry utiliza — “Santos mora na Barra, perto de onde mora o Cabral.” — Tudo é tratado como aspectos da composição de um cenário que, no filme, é tratado de forma fictícia e fantasiosa. Essa história poderia ser sobre outras cidades, porque corrupção, pobreza e violência existem em muitos outros cantos do mundo. Mas essa é uma fábula sobre uma cidade maravilhosa de corrupção e sujeira.

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