Cultura

O Homem Mais Procurado

Depois de ser brutalmente torturado, um imigrante de origens chechena e russa faz uma viagem à comunidade islâmica de Hamburgo, tentando resgatar a grande herança que seu pai teria lhe deixado. A chegada súbita deste homem chama a atenção de agências de espionagem da Alemanha e dos Estados Unidos, que começam a seguir seus passos de perto. Enquanto a investigação avança, as dúvidas sobre o imigrante aumentam. Será que ele é apenas uma vítima? Ou será que é um extremista com um plano para um atentado?

(A Most Wanted Man) – Suspense. Reino Unido, 2014.

De Anton Corbijnn. Com Philip Seymour Hoffman, Grigoriy Dobrygin, Willem Dafoe, Rachel McAdams, Robin Wright, Daniel Brühl, Nina Hoss e Derya Alabora. 122min. Classificação: 14 anos.

FESTIVAL DO RIO 2014 – Exibição na Mostra Panorama do Cinema Mundial

O Homem Mais Procurado


O HOMEM MAIS PROCURADO – RESENHA

Um dissidente checheno é avistado em Hamburgo. Esse é o ponto de partida de uma trama de espionagem com a marca do escritor John Le Carré, conhecido por seus romances mais cerebrais, que focam em funcionários do governo conscientes da ambiguidade moral de seu trabalho. Com dramas mais psicológicos do que físicos, as histórias de Le Carré costumam ser mais lentas, explorando conflitos mais internos do que externos. Não é algo como as histórias inacreditáveis, cheias de explosões e dispositivos mirabolantes, ao estilo James Bond ou Missão Impossível.

O diretor Anton Corbijn leva as telas uma adaptação do livro homônimo de Le Carré, construindo um bom filme de espionagem, lento e moralmente ambíguo como os romances do autor. Ainda que as histórias de Le Carré normalmente sejam ambientadas na Guerra Fria, essa história se desenrola em um mundo ainda mais moralmente ambíguo do que o da Guerra Fria.

O filme de Corbijn não é uma história sobre grandes tramas internacionais, sobre obter informações sobre outros governos. Esse é um filme de espionagem pós 11 de setembro. Os inimigos não têm um território e não é possível a negociação com um chefe; todos os países trabalham em conjunto com o objetivo de combater o terrorismo. E esse “trabalho em conjunto” é o que movimenta a trama, o que a impulsiona, e o que é realmente questionado pelo filme.

Esse é um dos últimos filmes que Phillip Seymour Hoffman deixou pronto antes de morrer e assisti-lo também causa sentimentos ambíguos. Por um lado, o prazer de assistir ao talento impressionante do ator, que se destaca em todas as cenas que aparece e é o grande responsável pelos dramas morais da história. Por outro lado, dá uma dor no coração percebermos, ao fim do filme, o talento que perdemos, e que não veremos outras obras desse grande ator — além das poucas que ainda estão para estrear, como as duas partes de Jogos Vorazes: A Esperança. — Hoffman concede um misto de frieza e emotividade ao chefe de espionagem Günther Bachmann. O sotaque na medida, a voz mais gutural, é uma aula de interpretação. Os diálogos dele com a Martha Sullivan de Robin Wright são particularmente tensos e passam bem o clima de animosidade que existe entre as potências internacionais que trabalham nesse “conjunto” contra o terrorismo. Destaque para o sorriso irônico dele em uma cena importante com ela.

Operando em Hamburgo, a cidade que teve papel importante na trama dos ataques de 11 de setembro, Bachmann tem a responsabilidade de monitorar os vários refugiados dos conflitos do Oriente Médio que chegam à cidade, determinando se eles são ou não ameaças em potencial. Em nome da segurança, atos terríveis às vezes precisam ser cometidos. Por um lado, Bachmann tenta evitar novos atentados terroristas. Por outro, ele precisa conter o (digamos) “entusiasmo” excessivo dos norte-americanos, sempre tão ansiosos para classificar estrangeiros como possíveis terroristas para mostrar serviço ante a comunidade internacional. Ao contrário dos espiões a serviço de Bachmann, os norte-americanos não têm tantas ponderações, e preferem atirar primeiro e só depois averiguar se o imigrante é inocente ou não.

Nesse sentido, o filme é bastante crítico em relação aos excessos normalmente cometidos pelos Estados Unidos, e como às vezes esse exagero leva a consequências trágicas e/ou injustas. Com isso, acompanhamos a história de um bom homem preso em um mundo onde nem sempre é possível agir de forma correta. Entre cigarros e drinks, Corbijn transforma esse homem inteligente e enigmático num pequeno resquício de humanidade em meio ao caos do anti-terrorismo.

O Homem Mais Procurado é um filme de espionagem denso e cheio de conflitos. Como todo filme baseado em Le Carré, tem um ritmo próprio, mais lento, e isso é um de seus méritos. Por sua atuação memorável, não há dúvidas de que esse é o filme de Phillip Seymour Hoffman. Com seu terno desalinhado e sua voz grave, ele domina cada instante em que aparece. Acima de tudo, essa é a última grande reverência a um grande ator.

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