Filmes

Annabelle

Annabelle conta a origem horrível da medonha boneca assombrada do filme Invocação do Mal. Antes de ser capturada por Ed e Lorraine Warren, a boneca pertenceu a uma colecionadora chamada Mia Form (Annabelle Wallis), que a tinha recebido de seu marido, John (Ward Horton), como um presente por sua gravidez. Uma noite, a casa de John e Mia é invadida por membros de uma seita satânica, e a invasão não termina bem. Depois do trauma, o casal se muda para uma nova casa, onde tentam recomeçar a vida com sua filha recém-nascida. O problema é que Mia começa a ser atormentada por acontecimentos sobrenaturais, que aos poucos revelam ter relação com a preciosa boneca que Mia guarda em sua coleção.

(Annabelle) – Terror. Estados Unidos, 2014.

De John R. Leonetti. Com Annabelle Wallis, Alfre Woodard, Ward Horton, Tony Amendola, Eric Ladin e Brian Howe. 99min. Classificação: 14 anos.

FESTIVAL DO RIO 2014 – Exibição na Mostra Midnight Terror

Annabelle


ANNABELLE – RESENHA

Annabelle é uma empreitada conduzida pelo diretor John R. Leonetti (Mortal Kombat: A Aniquilação) e pelo roteirista Gary Dauberman, que assumiram a função inglória de produzir esta prequel/spin-off de Invocação do Mal, o absurdamente bem sucedido terror de James Wan. E o problema está justamente na tentativa de explorar a qualquer preço o sucesso do primeiro. Annabelle é nitidamente um filme estimulado pelo hype, que tenta emular as qualidades de Invocação do Mal, sem o mesmo sucesso.

Leonetti e Dauberman até possuem algumas ideias bizarras, ainda que sejam estereotipadas, e a proposta de ambientar a trama principalmente com referências ao filme O Bebê de Rosemary é interessante. O início que cita a Família Manson — e culmina em um ataque à casa dos protagonistas, uma referência ao assassinato de Sharon Tate, esposa de Roman Polanski, diretor de O Bebê de Rosemary — é uma boa sacada e ajuda a criar a atmosfera do que virá a seguir. O próprio nome dos protagonistas, John e Mia, são referências aos primeiros nomes dos atores principais de O Bebê de Rosemary — Mia Farrow e John Cassavetes.

Annabelle, infelizmente, não consegue sustentar sua tensão inicial por muito tempo, e começa a sofrer com furos na lógica do roteiro e repetição de táticas primárias para causar intimidação e sustos. Muito diferente da tensão macabra construída em Invocação do Mal. Isso reflete a falta que James Wan faz para Annabelle. Ele atua como produtor do filme, mas não parece ter contribuído muito mais do que isso, especialmente por estar envolvido em outro projeto — Velozes e Furiosos 7.

O spin-off na verdade se esforça para ser um complemento adequado para Invocação do Mal, fazendo uso de um estilo de terror parecido com o de Wan, com elementos chocantes tratados de forma mais natural e sequências que sofrem reajuste instantâneo dentro de um mesmo enquadramento. No início, esse estilo funciona bem, criando um clima tenso graças à montagem e aos eventuais momentos de sustos. Então as boas ideias se perdem em uma profusão de sustos repetitivos e acontecimentos que não fazem sentido dentro da história. Em alguns aspectos, alguns poderiam até comparar com a forma do filme Atividade Paranormal — a diferença é que AP sabe o que quer e aonde quer chegar, e seus protagonistas, Katie e Micah, são muito mais carismáticos e interessantes do que Mia e John.

Enquanto esse apego ao estilo de Wan é o maior trunfo do filme, também é seu maior limitador, pois Annabelle não tenta ir além. Depois de um tempo, o spin-off parece jogar os acontecimentos horripilantes na tela de forma desconexa, sem construir realmente o clima de horror. Isso acontece pela tentativa — deliberada ou não — de amenizar aspectos mais pesados da história, provavelmente para tornar o filme mais acessível a um público maior — Invocação do Mal não teve hype ou grandes intenções comerciais e muito mal foi divulgado, e só ganhou destaque e sucesso através do boca a boca dos fãs, justamente por ser um excelente filme. — No caso de Annabelle, os realizadores parecem ter tido medo de ir fundo no horror, e mesmo criando momentos bizarros, acabam descambando para uma previsibilidade que estraga as possibilidades de horror. Em dado momento, conseguimos descobrir exatamente o caminho que a história vai tomar e como vai terminar. E o clímax, que deveria ser algo realmente desafiador e marcante para os protagonistas — talvez até destruindo totalmente um deles, ou ambos — é fraco e sem propósito.

SPOILERS: ATENÇÃO! A partir desse ponto, o texto contém TODOS OS SPOILERS DO MUNDO sobre o enredo do filme. Se você não quiser saber detalhes cruciais sobre Annabelle, pare agora e volte somente depois de ver o filme. Agora se você não se importa de ler spoilers ou sua curiosidade é maior do que seu bom-senso, continue por sua conta e risco.

Quero citar apenas alguns exemplos do potencial desperdiçado do filme. Um deles é o demônio invocado, que aparentemente divide a maldição da boneca com o fantasma da menina — Annabelle Higgin — que morreu segurando a boneca enquanto o invocava. Enquanto o demônio — que lembra muito a criatura de Sobrenatural, outro filme de James Wan — tem aparições sempre carregadas de tensão, nunca fica claro se a manifestação da boneca é o demônio ou o fantasma da menina. Às vezes parece que o demônio apenas se manifesta com a aparência do fantasma da garota, mas isso soa desnecessário, uma vez que o fantasma (que deveria ser importante) acaba se tornando irrelevante na história se comparado ao demônio (que é o adversário principal dos protagonistas, já que deseja a alma de um deles).

Isso se complica ainda mais quando o demônio aparece para Mia na forma do Padre Perez — logo depois que o padre sofre um acidente grave. — Essa cena não tem razão de ser simplesmente porque o padre depois aparece vivo. Se o padre não morreu, por que diabos o espírito assume a forma dele? Não faz sentido. Um puta furo na lógica do roteiro. O problema, na verdade, tem uma razão de existir. Na história real, Annabelle Higgin é o espírito que possui a boneca, e teria sido uma menina que morreu ainda criança — ela não tinha relação com uma seita de fanáticos ou qualquer coisa do gênero. — No filme, quiseram criar a história do demônio sem abandonar os elementos reais da história da boneca, por isso criou-se essa confusão de manifestações sem propósito.

Outra coisa é que no final, quando Mia está prestes a se sacrificar por seu bebê, para que o demônio leve sua alma — ao invés da alma de sua filha —, quem se mata é a amiga de Mia, Evelyn (que não tinha mais nada a perder na vida). O que o demônio queria era uma alma inocente, que precisava ser oferecida a ele de livre e espontânea vontade. O problema é que se a alma inocente é oferecida de livre e espontânea vontade para salvar outra alma inocente, isso não caracterizaria um ato de altruísmo? E esse altruísmo não deveria tornar a alma protegida contra um demônio ou qualquer outro mal? Tanto no caso da mãe como no caso da amiga, as duas estariam sacrificando suas vidas de forma altruísta em nome de outra vida. Mia não se sacrifica porque a amiga o faz, e o efeito é o mesmo. Mas no caso de um sacrifício altruísta, a alma deixaria de ter valor para o demônio. No fim, ainda vemos o padre abençoando e consagrando Evelyn por seu sacrifício — durante o velório dela —, o que também negaria a influência do demônio sobre a alma — essa é uma lógica comum em filmes e séries de terror. — Isso também vai de encontro à lógica da história. Provavelmente funcionaria melhor se Mia, para salvar a alma da filha, matasse John ou Evelyn, entregando a alma do assassinado para o demônio — seria uma alma de um inocente e faria mais sentido, ainda mais considerando que eles não tinham nenhum demonologista do lado deles para resolver o problema.

Um dos elementos que sem dúvida contribuíram com o sucesso de Invocação do Mal foi a forma como trataram os eventos reais do caso investigado por Ed e Lorraine Warren, adicionando a ficção, mas mantendo a essência. Annabelle peca por tentar criar uma história totalmente nova e fictícia sobre a boneca, apenas aproveitando uma ou outra coisa sobre a boneca real. O caso sobre a boneca, na verdade, conta que uma mãe a comprou para a filha, que era enfermeira — e isso é apenas mencionado no começo e no fim do filme, inclusive reprisando o início de Invocação do Mal. — No mais, a história é toda fictícia, com personagens fictícios, numa tentativa vã de criar uma história de origem para a maldição da boneca.

Annabelle, no fim das contas, tenta mostrar um pouco sobre a história da icônica boneca amaldiçoada de Invocação do Mal, mas se perde na tentativa de reciclar o horror da obra original e por não acrescentar nada de novo à mitologia. Boas prequels e/ou spin-offs normalmente são criados para expandir o universo da história original (Atividade Paranormal: Marcados Pelo Mal) ou mudar nossa visão sobre uma história que já conhecíamos (Oz: Mágico e Poderoso), mas no caso de Annabelle, apenas vemos uma história que já conhecemos ser contada de uma forma mais longa e não tão elaborada. Uma pena constatar que esse é um spin-off que parece ter sido pensado apenas para capitalizar em cima do hype de Invocação do Mal, inferior ao que realmente poderia ter sido.

Annabelle

Annabelle

Annabelle

Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Resenhas Populares

Rogue One: Uma História de Star Wars

Rogue One: Uma História de Star Wars

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Raw

Raw

Capitão Fantástico

Capitão Fantástico

O Homem nas Trevas

O Homem nas Trevas

Nível Épico em Imagens

Google Plus

Facebook

SoundCloud