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Mapas Para as Estrelas

Stafford Weiss (John Cusack) é um psicoterapeuta de Los Angeles, que fez sua fortuna com livros de autoajuda que prometem a felicidade. Sua esposa Cristina (Olivia Williams) é a agente arrogante de seu filho de 13 anos de idade, Benjie (Evan Bird), uma estrela de TV, recentemente saído da reabilitação de drogas. Sua filha, Agatha (Mia Wasikowska), acaba de sair de um hospital psiquiátrico e faz amizade com o motorista de limusine e aspirante a ator Jerome (Robert Pattinson). Entre os clientes de Stafford está a celebridade, Havana Segrand (Julianne Moore), uma estrela em decadência que tenta desesperadamente conseguir o papel principal no remake de um filme que no passado teve sua falecida mãe (Sarah Gadon) como protagonista.

(Maps to the Stars) – Drama. Estados Unidos, 2014.

De David Cronenberg. Com John Cusack, Olivia Williams, Evan Bird, Mia Wasikowska, Robert Pattinson, Julianne Moore e Sarah Gadon. 111min. Classificação: 16 anos.

FESTIVAL DO RIO 2014 – Exibição na Mostra Panorama do Cinema Mundial

Mapas Para as Estrelas


MAPAS PARA AS ESTRELAS – RESENHA

Hollywood é um céu repleto de estrelas. Onde nossas fantasias estão estampadas em pôsteres nas paredes de toda parte. Seres estranhos, com uniformes de frotas espaciais ou marcas berrantes no rosto, aparecem sentados pelos cantos, aguardando serem chamados para assumir seus próximos papéis. Um lugar onde marcas de uma grave queimadura deixam de ser uma visão desagradável para se tornar apenas um pedaço de maquiagem em um figurino inacabado. Hollywood é bonito e colorido, um caos eterno e irrefutável.

David Cronenberg, um cineasta habituado a trabalhar com os mais puros pesadelos, trata de ambições, fantasmas, morte e todos os tipos de vícios que atormentam essas estrelas bonitas e caóticas. A família Weiss esconde segredos obscuros por trás de suas paredes de vidro — que são representadas no cenário pela suntuosa casa deles — e suas falsas terapias.

Com o roteiro inspirado de Bruce Wagner, ele nos apresenta a uma fábula absurdamente insana sobre uma menina piromaníaca, que após deixar o hospital psiquiátrico onde esteve por grande parte da vida, volta para casa para tentar se redimir com os pais e com o irmão mais novo. O pai é um guru da autoajuda que não consegue ajudar a si mesmo ou a sua filha. A mãe é obcecada em ser a mãe de um popstar do cinema. O irmão é irritadiço, mal educado e obcecado em ser um popstar do cinema.

Todos nesse filme têm delírios de grandeza e estrelato. Uns alcançaram o sucesso e querem permanecer no topo, custe o que custar. Outros, mais derrotados e decadentes, sofrem de alucinações que lhes arrastam para a escuridão de um céu sem as estrelas que tanto perseguem. A menina piromaníaca controla suas visões com remédios, e por isso consegue se colocar mais neutra na história, desejando somente encontrar algum tipo de perdão ou redenção que, no fundo, sabe que não virá. Mia Wasikowska é distante e contida na medida certa, como uma labareda que pouco a pouco ganha combustível para explodir em chamas.

O irmão mais novo é atormentado pelas visões de uma menina desconhecida que ele visitou enquanto ela estava internada no hospital com uma doença terminal. Mas ele, do alto de seu falso pedestal, sequer sabia qual era a doença da garota. E quando ela morreu, tornou-se para ele um fantasma de seu próprio fracasso como estrela de Hollywood. Evan Bird, além de sustentar bem o papel, possui uma aparência estranha, de corpo muito fino e cabeça grande, que combina com o conceito de “garoto que alcançou a fama cedo demais e precisa lidar com uma responsabilidade de adulto que ele não quer ter”.

Em outra parte desse céu, Havana Segrand, também tem seus fantasmas e suas visões. Ela vê sua falecida mãe, uma ex-estrela que se matou ateando fogo em si mesma. Julianne Moore, que ganhou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes por essa atuação, é de uma maestria perturbadora. Sua aparência e os trejeitos de dondoca alucinada que ela aplica à sua personagem refletem com absurda eficiência as frivolidades do universo apresentado pela história. O contorcionismo que Moore faz com a boca enquanto fala é espetacular de tão bizarro, especialmente porque sabemos que ela não fala assim. A atriz definitivamente merece o prêmio que ganhou. Segrand é para onde converge toda loucura e estranheza dos tormentos hollywoodianos.

A única pessoa que parece sã nesse filme é o motorista de Robert Pattinson, que dirige uma limusine turística pela cidade, mostrando as casas das estrelas. Jerome é uma representação do próprio roteirista do filme, uma vez que Wagner já trabalhou conduzindo limusines. Ele é a visão de quem está de fora de toda essa loucura, que no geral tenta permanecer de fora, mas que volta e meia se desvia de seu caminho para participar um pouco de toda essa insanidade.

David Cronenberg não faz rodeios em sua representação de uma Hollywood narcisista, e parece mais próximo do Cronenberg que aprendemos a gostar, capaz de trabalhar seu ponto de vista sobre uma história da forma mais perturbadora e distorcida. Mapas Para as Estrelas se aproxima bastante do Cronenberg na primeira fase de sua carreira — com filmes como Enraivecida na Fúria do Sexo, Scanners e Videodrome —, quando era uma mistura de mestre do horror e artista maníaco. Seus trabalhos mais recentes — como Um Método Perigoso e Cosmópolis —, ainda que sejam bons filmes, pareciam mais um cineasta trabalhando do que um cineasta apaixonado. Mas ao vir para Hollywood fazer um filme sobre Hollywood, da forma mais sórdida possível, Cronenberg parece ter retornado à velha forma.

Mapas Para as Estrelas, contudo, é mais do que apenas uma sátira mordaz ao meio artístico hollywoodiano. No começo, devido ao ritmo lento e confuso do enredo, pode parecer só isso, mas depois novas cortinas se abrem. Os diálogos mais cruéis são disfarçados por “padrões de etiqueta” de uma cidade como Los Angeles, mas quando são revelados — longe das ruas e na segurança das mansões —, resultam em atitudes imperdoáveis, cujas consequências são desencadeadas pelo culto excessivo a si próprio. O que falar da dancinha feliz que Savana faz ao descobrir que conseguiu o papel que tanto sonhou porque a atriz escolhida anteriormente se retirou do filme após o filho morrer afogado? É tão grotesco que faz rir, de nervoso. Graças ao clima de desordem, social e emocional, nos sentimos como se estivéssemos dopados por uma das longas listas de remédios que Havana compra o tempo todo.

Mapas Para as Estrelas é uma representação dos habitantes de uma fábrica de sonhos, que desejam controlar as fantasias do mundo, mas são incapazes de controlar suas próprias vidas e egos. Nesse céu cheio de estrelas, algumas se apagam, morrem, e nós aprendemos o que acontece quando uma estrela implode. Elas se tornam buracos negros que arrastam tudo o que estiver ao redor com elas para a destruição.

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