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Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário

Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário é uma espécie de reboot da série original, focado na fase do Santuário. A história acompanha um grupo de guerreiros que, deste a remota era mitológica, lutam para proteger a deusa Atena. Nos dias atuais, uma jovem com misteriosos poderes chamada Saori Kido é salva pelo Cavaleiro de Ouro de Sagitário e criada por Mitsumasa Kido como uma menina normal até o momento em que pudesse assumir sua herança como deusa protetora da Terra. Quando descobre sobre seu passado, Saori é atacada por cavaleiros a serviço do Mestre do Santuário, que a acusa de ser uma falsa deusa. Saori é salva por Seiya, Hyoga, Shiryu e Shun, quatro cavaleiros de bronze que foram treinados desde a infância com o objetivo de se tornarem defensores de Saori quando ela crescesse. Confusa por seus dons e por seu destino, Saori decide partir com Seiya e os demais cavaleiros de bronze para o Santuário, onde eles precisam enfrentar o Mestre do Santuário e seus Cavaleiros de Ouro.

(Saint Seiya: Legend of Sanctuary) – Fantasia. Japão, 2014.

De Keiichi Sato. Com Kaito Ishikawa, Kenji Akabane, Nobuhiko Okamoto, Kensho Ono, Kenji Nojima e Ayaka Sasaki (vozes brasileiras de Hermes Baroli, Elcio Sodré, Ulisses Bezerra, Francisco Brêtas, Leonardo Camilo e Letícia Quinto). 93min. Classificação: 10 anos.

Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário


CAVALEIROS DO ZODÍACO: A LENDA DO SANTUÁRIO – CRÍTICA

Foi em 1986 que o autor Masami Kurumada começou a publicar o mangá Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya), mais tarde adaptado para o anime que conquistou o mundo a partir do final dos anos 80 e nos anos 90. A versão animada chegou ao Brasil em 01 de setembro de 1994 — há vinte anos — graças à extinta Rede Manchete e se tornou uma verdadeira explosão de cosmo na televisão brasileira. Com 114 episódios, depois complementados por filmes, pela Saga de Hades, por duas novas séries (The Lost Canvas, que acontece antes, e Saint Seiya Omega, que se concentra em uma nova geração de cavaleiros), o universo de Seiya e seus amigos transformou-se em um dos pilares da animação japonesa no Brasil e no mundo, graças a suas batalhas épicas e sua mensagem sobre valores como nobreza e amizade.

Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário começou a ser produzido com a proposta clara de fazer uma homenagem, ao autor e à obra, através de um filme de computação gráfica que funcionaria como uma espécie de reboot da série original, focado na fase do Santuário. Com direção de Keiichi Sato e roteiro de Tomohiro Suzuki, de fato a primeira coisa que qualquer um precisa saber antes de assistir a esse filme é ~abandonai toda nostalgia e saudosismo, vós que entrais.

Muita coisa, MUITA COISA MESMO, sofreu alterações drásticas em relação à obra original, mudanças que certamente podem incomodar os fãs mais radicais. Não é fácil desligar o lado emocional e se esquecer de todo conhecimento acumulado ao longo de anos de série, mas por outro lado, é preciso se ter consciência de que esse é um filme pensado com um tom de homenagem e direcionado (principalmente) para uma nova geração — assim como é o caso de Saint Seiya Omega. — Assim como a própria série original, o filme tem coisas boas e coisas ruins. Para o que se propõe a ser, funciona muito bem na maior parte do tempo.

Na versão brasileira, há de se mencionar o fato de que o filme é dublado pelos dubladores originais do desenho — exceto Camus de Aquário, cujo dublador original, Valter Santos, faleceu no fim de 2013, e Milo de Escorpião, por motivos óbvios. — A dublagem brasileira é boa, com altos e baixos. Em alguns momentos, parece que falta um pouco da empolgação de antigamente nas vozes. Devo dizer que sou adepto de assistir a filmes e desenhos (japoneses ou não) com o som original, e depois da minha adolescência, poucas foram as vezes que assisti a animes com dublagem brasileira. No caso de Cavaleiros do Zodíaco, gosto da sensação de escutar um “Rozan Sho Ryu Ha”, mas o sentimento de escutar um “Cólera do Dragão” para quem acompanhou o anime na Rede Manchete é algo difícil de colocar em palavras, e não há como negar que isso concede um charme todo especial para o filme.

Por se tratar de uma história longa condensada em pouco mais de uma hora e meia, Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário é rápido e sucinto. Tudo é bastante resumido. A trama começa com uma cena que mostra Aiolos de Sagitário fugindo do Santuário com a nova encarnação de Atena ainda bebê nos braços. Ele enfrenta Shura de Capricórnio e Saga de Gêmeos em uma batalha épica no ar, por entre as estrelas. Aqui fica claro um dos focos principais desse novo filme: o visual das cenas de ação. QUE É ABSURDO DE IMPRESSIONANTE. Os poderes dos Cavaleiros do Zodíaco versão 2014 são sensacionais! Como muito brilho e muito impacto!

Tudo é construído para impressionar e encher os olhos. A câmera se move, gira, amplia para oferecer imagens altamente dinâmicas, muitas vezes carregadas de luzes e brilhos. O resultado é maravilhoso, às vezes exagerado, um exagero mais do que satisfatório. Estamos falando de Cavaleiros do Zodíaco. Exagero é necessário e isso é uma coisa boa. Quanto a isso não há o que falar de Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário. O filme é bonito ao extremo.

SPOILERS: ATENÇÃO! A partir desse ponto, o texto contém TODOS OS SPOILERS DO MUNDO sobre o enredo do filme. Se você não quiser saber detalhes cruciais sobre Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário, pare agora e volte somente depois de ver o filme. Não chega a ser um monte de spoilers gritantes porque a Batalha do Santuário é a saga principal e mais famosa dos Cavaleiros do Zodíaco, e certamente os fãs a conhecem muito bem. Então fica ao seu critério continuar a leitura agora ou depois.

As mudanças visuais são nitidamente concebidas para modernizar tudo. Nada muito chocante, especialmente para quem vem acompanhando os materiais de divulgação do filme. Algumas coisas causam estranheza, como o piercing no lábio do Cavaleiro de Leão por exemplo, mas nada que atrapalhe realmente. Algumas opções conceituais parecem inspiradas na própria excentricidade de estilo comum aos jovens japoneses, então até fazem sentido — exceto os óculos do Mu de Áries, esses não caíram bem mesmo. — Preciso falar também do Máscara da Morte de Câncer. Esse sempre foi um personagem ridículo na série, mas ainda era um tremendo vilão, daqueles que inspira raiva. Não no filme. Agora ele é apenas ridículo. E ele canta. Como um bufão saído de algum reality show bizarro. Entendi que quiseram usar a ideia de “máscara da morte” do personagem como representação das máscaras da comédia e da tragédia típicas da história do teatro. Mas não funciona. Não consigo nem descrever o nível de vergonha alheia que é esse Máscara da Morte. Mais triste ainda é que Câncer é o meu signo, e ele continua me envergonhando em Cavaleiros do Zodíaco. Ainda bem que hoje em dia existe o Manigold de Câncer, esse sim só me dá orgulho.

Aparentemente os realizadores tentaram aproximar um pouco mais os cavaleiros da cultura japonesa e da concepção overpower dos jogos de videogame, reduzindo os aspectos gregos. Atena e as constelações são parte importante do cenário, de uma forma diferente. Em questões de dez minutos, tudo o que precisamos saber sobre Saori e sua herança como Atena é explicado e resolvido. O que leva dezenas de episódios para ser apresentado no anime, no filme é feito da forma mais resumida possível. O objetivo é partir para o Santuário e para os grandes confrontos.

No Santuário é que as mudanças se fazem mais fortes. Para começar o Santuário agora é uma espécie de cidade no céu localizada em outra dimensão. Não há mais o aspecto de cenário repleto de colunas gregas margeadas por escadarias intermináveis. O Santuário é composto por montes de arcos flutuantes, mostrado quase sempre em uma vista panorâmica que reduz a importância das casas e edifícios da cidade ao redor. Importante mesmo, só algumas das doze casas — elas ainda estão lá — e o Palácio do Mestre — que é onde está o chefão de fase a ser derrotado no final. — Em alguns aspectos, essa nova versão do Santuário é como um Olympus que remete um pouco ao design da Asgard da Marvel apresentada no filme Thor. Essa escolha conceitual deve-se provavelmente ao fato de que seria complicado justificar a mitologia grega da trama em apenas uma hora e meia.

Para falar a verdade o tempo de duração de uma hora e meia é um dos maiores entraves do filme. Apresentar um mundo em que CINCO heróis e UMA deusa precisam enfrentar um grupo de (mais ou menos) DOZE inimigos é um grande problema sem dúvida. Escolhas precisaram ser feitas nesse caso.

As escolhas na subida das Doze Casas são o ponto mais questionável. Algumas lutas lendárias foram simplesmente ignoradas, o que consequentemente afetou o desenvolvimento dos personagens principais — que são os cavaleiros de bronze. — Seiya é o que mais recebe destaque. Ele enfrenta Aldebaran de Touro e o Mestre do Santuário. Sua batalha contra Aiolia de Leão é absurdamente simplificada, e no fim das contas, Aiolia é na verdade retirado de seu transe — provocado pelo Satã Imperial do Mestre — por Shaka de Virgem — relembrando o confronto entre os dois cavaleiros de ouro no anime, embora no filme não chegue a ser uma batalha. — Hyoga tem uma luta rápida e fria (com perdão do trocadilho) contra Camus de Aquário e mais nada. Shun, coitado, é resumido ao extremo pelo filme, tornando-se mais uma espécie de “conselheiro” para o grupo de bronze. Ele não tem nenhum combate significativo, nem contra o Cavaleiro de Gêmeos — que é guardado para ser o grande chefão final —, nem contra Afrodite de Peixes — que aparece apenas para ser morto, sem disparar sequer uma rosa. — Agora os dois mais prejudicados são Ikki e Shiryu.

Os dois personagens mais poderosos e com força de presença do anime são justamente os mais decepcionantes. Ikki aparece em uma cena no estilo “sou fodão” contra um capanga fracote qualquer e devasta o sujeito na porrada. Apenas para depois levar uma surra do Shura de Capricórnio e ser esquecido pelo resto do filme. Apenas isso, sem mais. Fracasso total. Shiryu recebe algum destaque na batalha contra o Cavaleiro de Câncer, mas fica marcado como “piada interna” por ser o cara que NUNCA tira a armadura — uma forma que os realizadores encontraram para brincar com o fato de que Shiryu era o personagem que sempre tirava a armadura para lutar na série clássica. — Por um lado, a brincadeira com Shiryu é divertida. Por outro, o filme exagera demais na brincadeira, tornando-a o tipo de desconstrução de personagem que, na verdade, destrói completamente o personagem. Shiryu, no anime, era a representação máxima da nobreza e dos valores pregados pelos cavaleiros, e a forma como ele é tratado no filme, infelizmente, é um tremendo desrespeito. Até no Saint Seiya Omega, tão criticado por muitos — não por mim —, Ikki e Shiryu são tratados de acordo com a lenda que construíram na série, não como meros personagens de apoio ou alívio cômico. Esse caso dos dois é o único caso em que abandonar a nostalgia e o saudosismo não funciona de forma alguma, porque não se trata simplesmente de carinho ou apego emocional de fã, mas de aspectos narrativos ESSENCIAIS para o enredo como um todo, parte importante do motivo pelo qual Cavaleiros do Zodíaco se tornou (como eu disse antes) um dos pilares da animação japonesa no Brasil e no mundo. Uma coisa é mudar história, visual e elementos conceituais. Outra coisa bem diferente é mudar a essência.

Muitos dos personagens secundários, como os cavaleiros de bronze de Unicórnio ou Lobo, ou as amazonas Shaina e Marin, ou mesmo o Mestre Dohko de Libra, simplesmente não aparecem — Dohko é no máximo mencionado. — Aliás a falta de mulheres combativas na história, devido as ausências supracitadas de Shaina e Marin, também é responsável por uma das mudanças maiores: Milo de Escorpião é uma mulher! Com aparência de mulher, dublada por uma mulher e fazendo comentários típicos de uma mulher. Não é um caso de androginia.

O que provavelmente devem ter pensado é que precisavam de uma personagem feminina entre os cavaleiros, então, como tinham pouco tempo para explorar personagens adicionais, optaram por transformar Milo em mulher — Milo inclusive é um nome que combina com qualquer gênero. — Cavaleiros do Zodíaco nunca foi um grande exemplo em termos de construir personagens femininas fortes. O foco sempre foi mais masculino. Essa visão começou a mudar com The Lost Canvas, ao colocar uma amazona, Yuzuriha de Grou, entre os protagonistas, e depois com Saint Seiya Omega, ao inserir Yuna de Águia no grupo principal de personagens. Milo aparece pouco no filme, mas marca sua presença como Amazona de Ouro, e isso certamente é uma mudança bastante bem-vinda para o universo dos cavaleiros. A própria Saori tem um papel mais ativo e não se reduz meramente a uma donzela em perigo.

Outra coisa interessante dessa nova concepção de Cavaleiros do Zodíaco é o prazer em conhecer esses novos cavaleiros durante batalhas em meio a ambientes mais urbanos — elemento que a série clássica usou bastante em seus primeiros episódios, mas que depois foi esquecido. — As armaduras, em suas primeiras aparições, explodem em novas formas, com brilho e intensidade à medida que o Cosmo se eleva, e os efeitos visuais são espetaculares cada vez que uma técnica especial é disparada. Os veios luminosos das armaduras dão um aspecto mais épico aos personagens. Funcionam muito bem nesse sentido. As armaduras são guardadas em medalhões — que parecem “dog tags” militares —, e quando invocadas, revelam as urnas onde ficam guardadas. Há ainda a mudança das máscaras, que podem mudar de aspecto, de tiaras para elmos abertos ou fechados. O braço da armadura de Pégasus se abre quando Seiya usa sua técnica, liberando uma projeção de energia que se materializa nos Meteoros de Pégasus! FODA DEMAIS! Essas alterações no conceito dos personagens funcionam bem para a proposta de modernização, e mais ainda quando colocadas nas cenas de ação.

Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário

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  • Nathan

    No Omega também tem uma mulher na armadura de escorpião.

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Sim!…a Sonia de Escorpião! Adorei essa personagem do Omega.

      Não mencionei no texto porque acabei focando os exemplos mais nas mulheres que aparecem como parte do grupo de protagonistas…mas pensando bem, considerando a comparação…acho que devia ter mencionado a Sonia. :D

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