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Amor Fora da Lei

Amor Fora da Lei (Ain’t Them Bodies Saints, EUA, 2013) começa como algo que parece ser uma história romântica entre um homem e uma mulher, jovens, impetuosos, criminosos. Logo descobrimos que se trata de um amor que oscila entre crime e obsessão, romantizado como o que poderíamos considerar um paralelo os famosos Bonnie e Clyde. Ambientado nos anos 70, em Texas Hill Country, a história acompanha três personagens em diferentes lados da lei — o fora-da-lei Bob Muldoon (Casey Affleck); sua mulher, Ruth Guthrie (Rooney Mara) e o xerife local Patrick Wheeler (Ben Foster), que se vê em meio aos problemas do casal. Eles vivem ao lado Skerritt (Keith Carradine), que administra a loja de ferragens da cidade e, possivelmente, a própria cidade.

Amor Fora da Lei

Por entre os fachos de luz que escapa por através das árvores de Texas Hill Country, o drama de David Lowery começa com um tiroteio no que parece ser o mundo idílico em que os amantes criminosos, Ruth e Bob, compartilham seus preciosos momentos juntos, até que são separados pelas forças da lei. Eles lutam, ferindo o policial Patrick com um tiro disparado por Ruth. Encurralados e feridos, física e psicologicamente, os dois prometem se reencontrar no futuro, de qualquer maneira, e sob a esperança dessa promessa, eles se entregam às autoridades. Bob assume a responsabilidade pelo tiro no policial, por Ruth, que está grávida. Bob é preso, enquanto Ruth consegue ser perdoada e continua a viver sua vida com sua filha, Sylvie. A atração quase magnética entre o casal, mesmo quando separados, é a força motriz do cenário, totalmente estabelecido para o eventual reencontro do casal.

A história se estende por anos, se mantendo em uma escala contida e intimista, sempre melancólica. Com aspectos de faroeste moderno, Amor Fora da Lei aborda a ideia da morte como é comum em faroestes, mas de uma forma um pouco diferente. Ostensivo com o lado fora da lei, revela como Bob e Ruth eram felizes em seus dias de crime e paixão, e como a vida de ambos se tornou vazia quando isso lhes foi tirado.

Quatro anos depois, contudo, o vazio prevalece imenso para um e amenizado para o outro. Ruth tornou-se uma mulher estoica e suave, feliz com a maternidade. Ela é empurrada de volta para os conflitos de seu passado quando Bob escapa da prisão, decidido a voltar para ela, fiel à promessa que fizeram de que estariam juntos sempre. Bob é obstinado, obsessivo, e acredita que Ruth voltará para ele com certeza absoluta. Ruth quer encontrá-lo novamente e ficar com ele como prometeu, mas não pode. Ela não pode mais se permitir esse tipo de destemor.

Embora seu amor por Bob ainda exista, ela tem consciência de suas responsabilidades e da dura realidade que eles precisam considerar. Ruth se preocupa em garantir a segurança da filha, mas não só isso. Ela sabe que se for com Bob, terá de viver uma vida de inseguranças e perseguições. Não é o momento, talvez nunca seja, talvez um dia seja. Há ainda a presença de Patrick, o policial em quem ela atirou e que parece ter alguma consciência disso, mas que possui atração por ela, um interesse romântico que até certo ponto é correspondido por Ruth em meio a momentos de preocupação paternal, desejo por perdão e experiências em comum do passado.

Amor Fora da Lei se preocupa com narrativa e personagens e também com tom e efeito. Enquanto o reencontro de Bob e Ruth impulsiona a história para frente, edição e som criam um fluxo constante de circunstâncias que rodeiam os personagens, pouco a pouco levando o casal de volta para o mundo idealizado por eles no começo. Em alguns aspectos, possui paralelos com a filmografia de Terrence Malick, com sua atmosfera impressionista, composta por lembranças, sua natureza tranquila sob o sol quente e sua melancolia soturna sob a escuridão. Ainda que separados pela distância, Bob e Ruth se falam através de cartas, que os conectam em um drama com contornos líricos que vão além de espaço e tempo narrativo.

Casey Affleck e Rooney Mara habitam esse mundo sem esforço, transitando entre o antiquado e o imediato. Bob é um bandido menor, que no fundo é um sonhador. Ele é perigoso porque ele acredita firmemente em suas próprias convicções e em torná-las realidade. Mas ele também é um romântico, com o simples desejo de construir uma pequena casa em algum lugar distante para viver com sua família, algo impossível para ele, mesmo antes de ser preso. Em contrapartida, Mara é friamente sedutora como Ruth. Frágil, mas feroz, com olhar sempre penetrante, Mara torna evidentes os conflitos internos e o remorso de sua personagem de forma sutil, sem exageros. O exagero é reservado à Affleck, com suas palavras pesadas e sua crença intransigente no amor.

Há ainda a relação entre Mara e Foster, que juntos são adoravelmente cativantes. Foster é rústico e ainda assim brando com seu personagem. Patrick, apesar do tiro que o feriu, entrou na vida de Ruth e sua filha aparentemente por nutrir os mesmos anseios de Bob. Ele deseja uma família. Ele quer ser um homem para Ruth e uma figura paterna para Sylvie. Ele quer ser o homem com quem elas possam contar.

Keith Carradine é uma presença forte, escalado para o papel certamente como homenagem ao tipo de filmes dos anos 70 em que Amor Fora da Lei foi inspirado. Seu personagem reflete um elemento importante do belo roteiro de Lowery: a liberdade com a qual as histórias são contadas. Seu personagem, Skerritt, é uma incógnita, difícil de decifrarmos exatamente quem ele é, ou a extensão de seu relacionamento com Bob e Ruth. Sabemos que ele cuida de Ruth e sua filha, mas suas intenções podem ser interpretadas de várias maneiras, especialmente quando Bob foge da prisão e volta para buscar sua família. O roteiro se mantém contido, revelando alguns detalhes básicos, e nos convidando a preencher as lacunas. Graças a isso, quando alguns desfechos se configuram em cena, tornam-se ainda mais encantadores dentro da história.

Com suas convenções do gênero e seu final singelo, Amor Fora da Lei termina como um faroeste moderno, parte filme de crime, parte filme de drama tradicional. Lowery leva seu tempo na condução e nos permite gastar um tempo com elementos meticulosamente trabalhados em cena, com seu trabalho de câmera contemplativo e sua cenografia impecável. Seu filme é ao mesmo tempo corajoso e bonito, cumprindo suas intenções e mostrando-se digno de sua idílica paisagem, cadenciado pela força singular de sentimentos simples.

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