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Viva a Liberdade

Viva a Liberdade (Viva la Libertà, Itália, 2013) acompanha a história do secretário principal do partido da oposição, Enrico Oliveri (Toni Servillo), que não está se saindo tão bem nas eleições quanto gostaria. Um dia, depois de um debate, ele simplesmente some. Seu assessor, Andrea Bottini (Valerio Mastrandrea), e sua esposa, Anna (Michela Cescon), começam a procurá-lo, sem saber o motivo de seu desaparecimento, e acabam encontrando seu irmão gêmeo, Giovanni Ernani, que apesar de parecido na aparência, é completamente diferente em personalidade e comportamento. Giovanni acaba assumindo o lugar do irmão na política e com seu jeito espontâneo e meio louco promove mudanças surpreendentes na campanha.

Viva a Liberdade

Com direção de Roberto Andò, é difícil não ser sugado pela espiral de debate que o filme se propõe a discutir. Ainda que seja bastante voltado para o cenário político da Itália, sua discussão se encaixa em aspectos políticos que podem ser facilmente encontrados em outros países, incluindo o Brasil. Apesar do teor lúdico, especialmente no que diz respeito a Giovanni, a história mexe em questões que muito são abordadas quando se trata de política e sociedade, e da conturbada relação que existe entre elas e por entre elas.

Giovanni é um ex-filósofo bipolar e deprimido, que fala muito e o tempo todo. Sua inserção inusitada na política, no lugar de seu irmão, lhe é libertadora, quase uma epifania, para ele e para os outros. Suas ideias são tão simples que deixam os outros atordoados, propostas com frescor e indiferença únicos em relação a certos mecanismos já tão estabelecidos. A contrapartida deste cenário é a forma como este discurso está sendo propagado, com base em um convite à consciência democrática, um tema recorrente ao debate político. A história é antiga. O que muda é a narrativa, mais refinada, poética, e até mesmo jocosa, com um estilo que às vezes é mais “tapa na cara” do que conscientizador.

Com isso em mente, o filme trabalha aquela velha máxima: um governante é um reflexo do povo que o elegeu, para melhor ou para pior. Um elemento que aparece mais sutilmente é o desconhecimento que essas pessoas nutrem sobre os meandros da política, sempre tão burocrática e traiçoeira e labiríntica, capaz de confundir e afetar tanto o eleitorado quanto os próprios políticos.

Uma vez inserido nela, é difícil escapar. Isso é o que acaba afastando Oliveri. Com o personagem de Giovanni Ernani, vemos um Toni Servillo excelente e por cima, que como um tolo imprudente dá o seu melhor, pisando suavemente nos entraves políticos e nos burocratas já tão presos e atordoados por eles. Do outro lado, Oliveri, sob pressão máxima, simplesmente foge de tudo, refugiando-se na casa de um antigo amor de sua juventude. Separando a trama em dois pólos, o filme estabelece uma discussão em separado, criando uma espécie de subtrama para Oliveri, em que ele precisa enfrentar os fantasmas de seu passado, apenas para mais tarde voltar com maior consciência, tendo enfrentado dilemas brutais e obstáculos invisíveis, mas igualmente formidáveis. Enquanto isso, Ernani reconquista o respeito político que Oliveri perdeu, acrescentando um pouco de inocência não só àqueles que estão inseridos na política, mas também para aqueles que estão ao seu redor, como o assessor Andrea e a esposa Anna. Como o espelho de uma viagem de cicatrização de feridas e autoconhecimento, a história trata seus personagens com carinho e certa ambiguidade, sem se esquecer das questões sobre as quais deseja debater.

Toni Servillo se envolve no duplo papel, como Oliveri e Ernani, com um efeito camaleônico impressionante, fruto tanto de sua experiência quanto de sua paixão. O resultado é uma performance ora grotesca, ora surreal, e até mesmo intimista. Seus personagens, ainda que eventualmente simplificados em sua psicologia, oscilam entre o trágico e o cômico, ambos com desejo de se construir como pessoas, não apenas como indivíduos. Neste sentido, é esclarecedor a decisão final do Oliveri, aquele que decide o destino da história.

Viva a Liberdade impressiona como brincadeira zombeteira em certos momentos, feito de propósito para tirar sarro de uma classe política que frequentemente está à beira do ridículo. Ainda assim, revela-se mais focado nas descobertas de seus personagens principais do que na mensagem em si, e termina com uma mensagem positiva, esperançosa em despertar a responsabilidade pessoal de cada um de nós, sem se aprofundar demais. Porque no final, o que faz diferença? O indivíduo ou a pessoa? A diferença é substancial, porque o individualismo é o que nos leva a um momento político de desconfiança e pobreza de valores, trancados que estamos nesse pequeno mundo que pertence a cada um de nós e que não permite concessões. Enquanto as verdadeiras respostas são esperadas pela pessoa, aquela que deve ser cultivada, na cultura, na educação, na conscientização, de quem podemos e devemos esperar muito, talvez tudo. Talvez este seja o momento para poetas. Talvez entre a razão e a loucura encontremos o equilíbrio que tanto nos está faltando.

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