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A Marca do Medo

A Marca do Medo (The Quiet Ones, EUA, 2014) é um filme forte em termos sonoros, calcado por aumentos ensurdecedores de áudio a cada ocorrência sobrenatural. Sua tática principal de horror é elevar o volume em determinados momentos, ampliando a sensação de incômodo instigada pela história. E isso funciona para o bem e para o mal. Não se trata apenas de tormentos espectrais, mas também nas pequenas coisas, como rolhas de champanhe estouradas como tiros, efeitos de rádio trepidando bizarramente e palmas sendo batidas como claquetes de cinema. Ainda que corroborem com o clima do filme, os efeitos sonoros são exagerados em certos momentos e atrapalham em outros. Quando ajudam, é para chamar nossa atenção para um roteiro meio incerto e às vezes cansativo.

A Marca do Medo

O filme é vagamente baseado no Experimento Philip, realizado em 1972 por um grupo de parapsicólogos canadenses que tinham como objetivo criar um fantasma, provando assim sua teoria de que fantasmas são apenas produtos da mente humana. Para isso, os pesquisadores criaram um personagem histórico fictício, escreveram-lhe uma biografia e chamaram-no de Philip Aylesford (de onde vem o nome do experimento), que de acordo com a biografia, era um nobre inglês do século XVII. Através do experimento e de “sessões” espiritualistas, o grupo teria conseguido manifestar Philip, que teria entrado em contato com eles através de efeitos sobrenaturais como batidas em mesas e oscilações de luzes; mas o grupo nunca conseguiu realmente materializar Philip como um espírito a ponto de ser visto.

Essa é a história usada como pano de fundo para A Marca do Medo, cujo Experimento (como é chamado no filme) tem uma finalidade parecida com o original, embora seja tratado de forma ficcional e com um fantasma bem mais palpável. A trama do filme se situa em 1974, uma época em que se falava mais sobre fantasmas, inclusive no meio acadêmico. Durante uma aula na universidade de Oxford, o professor Joseph Coupland (Jared Harris) pergunta a seus alunos o que são fenômenos sobrenaturais, e se é possível provar que eles existem. Ninguém consegue responder à pergunta. Ele está convencido de que eventos incomuns muitas vezes atribuídos à poltergeists são na verdade manifestações telecinéticas de traumas emocionais.

Coupland decide então reunir uma equipe com mais três alunos — o descontraído Harry (Rory Fleck-Byrne), sua namorada fogosa Krissi (Erin Richards) e o tímido cinegrafista Brian (Sam Claflin, expandindo seu alcance após interpretar o convencido Finnick de Jogos Vorazes: Em Chamas) —, para investigar o estranho caso de Jane Harper (Olivia Cooke, de Bates Motel), uma garota aparentemente possuída por demônios. O experimento consiste em isolar Jane dentro de um casarão, fazendo uma série de testes para que os poderes paranormais na garota se manifestem e possam, com isso, ser “curados”. Quando a universidade corta o financiamento do projeto, toda a equipe se muda para uma casa em uma região mais remota, onde possam continuar com o estudo.

Assim como Invocação do Mal provou com o sucesso grandioso de sua estreia, histórias de fantasmas que lançam um olhar sobre eventos de décadas passadas, parecem ter boas chances de render boas histórias. O próprio elemento da “seita ocultista”, que era mais comum antigamente e andava sumido, parece estar reaparecendo aos poucos em histórias de suspense e horror — vide a série True Detective, por exemplo, que não trata de fantasmas, mas trata do horror proporcionado por seitas ocultistas. — A Marca do Medo se aproveita desses elementos, ainda que seu design de produção retro não seja tão suficiente para disfarçar a familiaridade com os truques paranormais do filme.

Com o cinegrafista de Claflin filmando os acontecimentos com uma câmera de baixa qualidade, com imagem granulada, o filme tenta criar um clima de filmagem caseira — como em REC ou Atividade Paranormal —, em que o cinegrafista é o ponto de vista. O cinegrafista, contudo, também é um personagem ativo e participa da história, eventualmente abandonando sua câmera, quando o ponto de vista passa a ser do espectador. O recurso da filmagem caseira ajuda na atmosfera sombria e meio sórdida, mas aos poucos se torna menos usado, à medida que a presença do cinegrafista de Claflin como personagem principal torna-se mais requisitada. No fim parece estar ali apenas como uma desculpa para que os realizadores pudessem explorar algumas convenções do gênero, e para incluir alguns fenômenos sobrenaturais de canto de tela.

O elemento mais interessante do filme é a questão da culpa em experimentos científicos: a frieza de Coupland é o retrato de algo que pode ser encontrado em meios científicos e acadêmicos, um homem com tendências manipuladoras e que demonstra uma crescente falta de preocupação para com a segurança de sua cobaia humana, independente de quão perigosas as circunstâncias estejam se mostrando. Jane, personagem interpretada com ingenuidade horripilante por Cooke, possui um pouco mais de dimensão do que um típico personagem possuído que só serve como receptáculo para um espírito. Boa parte do filme foca nos debates sobre a ética do Experimento. O debate excessivo é que desacelera o ritmo do filme, cortando o clima de tensão provocado pelas descobertas sobre Jane. E alguns estereótipos também incomodam por sua superficialidade, como a loira que só quer saber de fazer sexo e não tem finalidade maior na história além de arrastar homens para um quarto e possivelmente morrer.

A Marca do Medo acaba sendo um filme de terror mediano, interessante na premissa, incerto na execução, que soa mais como um material genérico tendo como base um fato real. O que torna isso um pouco mais triste é o fato do filme ser uma produção da Hammer Film Productions, estúdio respeitado justamente por seus filmes de terror. Mas tudo bem, o estúdio saiu de um longo período de atividades em baixa apenas em 2007, e está ganhando terreno aos poucos, já tendo produzido bons filmes com Deixe-me Entrar (2010) e A Mulher de Preto (2012). Apesar de instável, A Marca do Medo é um passo importante dessa nova trajetória.

A Marca do Medo

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