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O Espelho

O Espelho começa sua história com Tim Russell (Brenton Thwaites), que está saindo do hospital psiquiátrico após ser considerado curado depois de um evento trágico em seu passado. Ele não acredita que um espelho mal-assombrado teria possuído seus pais quando ele era criança, levando seu pai (Rory Cochrane) a assassinar sua mãe (Katee Sackhoff), fato que levou Tim a atirar com um revólver em seu pai, matando-o. Ele acredita, agora, que seu pai simplesmente enlouqueceu. Sua irmã Kaylie (Karen Gillan) continuou vivendo sua vida, cresceu, construiu uma carreira e ficou noiva, mas também continuou obcecada com a ideia de encontrar o espelho e destruí-lo. Ela finalmente encontra o espelho, e quando Tim deixa o hospital psiquiátrico, ela o convida para que os dois possam realizar sua vingança contra o espelho maldito. Kaylie descobriu a história do espelho ao longo dos séculos e preparou um plano para destruí-lo. Ela acha que pode vencê-lo, uma tolice típica de personagens de filmes de terror.

(Oculus) – Terror. Estados Unidos, 2013.

De Mike Flanagan. Com Karen Gillan, Brenton Thwaites, Katee Sackhoff, James Lafferty, Rory Cochrane, Annalise Basso, Garrett Ryan e Miguel Sandoval. 103min. Classificação: 14 anos.

O Espelho


O ESPELHO – CRÍTICA

O Espelho é simples em sua premissa e em suas intenções, e não demora muito para nos inserir em seu contexto. Os personagens sabem tudo o que há para saber sobre este antigo item amaldiçoado antes do início do filme. Eles estão preparados para “enfrentá-lo” e primeiro ato do filme foca em configurar o plano e em como o espelho provocou os acontecimentos trágicos do passado. Os dois atos restantes colocam o plano em conflito com os interesses do espelho, que nos é apresentado como uma entidade consciente. O conflito é basicamente estimulado pela tentativa de um em quebrar o outro. Os irmãos tentam quebrar o espelho fisicamente. O espelho tenta quebrar os personagens emocional e psicologicamente. O espelho, contudo, tem a vantagem, uma vez que, do alto de sua tolice prepotente, Kaylie decidiu pôr seu plano em prática na casa em que eles viveram no passado e onde seus pais morrerem. O embate entre os irmãos e o espelho oscila entre bons e maus momentos. Isso afeta a dinâmica do filme, tornando-o interessante em alguns momentos e cansativo em outros.

O filme conta logo no início o que aconteceu com a família, com fotos da cena do crime e o conhecimento óbvio das duas crianças que sobreviveram. Os eventos são mostrados em flashbacks rápidos, que entrecortam a história no presente. Os cortes provocados para a entrada dos flashbacks desaceleram um pouco o ritmo e reduzem a tensão da trama, uma vez que conhecemos previamente a história dos personagens — porque já nos foi contada antes de ser mostrada — e sabemos como cada um deles termina. O filme só não se perde completamente porque a edição é primorosa.

Kaylie adulta sai de um quarto e a jovem Kaylie sai do outro lado. A edição nos move para trás e para frente entre o passado e o presente, e é bastante eficaz no começo. Ao longo do filme, contudo, a estrutura da edição deixa de servir à história. As versões adultas, influenciadas pelo espelho, começam a repetir as ações de suas versões mais jovens, sem uma razão consistente, criando uma situação em que a história precisa se adequar à estrutura da edição. Nesse ponto o filme torna-se desnecessariamente confuso, tentando criar uma ilusão de ótica — Oculus, o título original, significa “olho” em latim — que não sabe se quer enganar ou revelar o que teoricamente seriam os segredos da trama. O lado bom é que, se a proposta era criar uma grande ilusão de ótica, conseguiu. O lado ruim é que o roteiro, que já não tem muita força, acaba um pouco mais prejudicado.

O plano de Kaylie é surpreendentemente meticuloso, pensado ao longo de uma década de estudos sobre o espelho, mas não faz muito sentido na prática. Quando as coisas começam a acontecer, fica evidente a tolice dela por tentar enfrentar uma força sobrenatural incompreensível. Ela se mostra inteligente em suas ações, mas não consegue contornar as distorções ilusórias provocadas pelo seu adversário. São essas distorções que enfraquecem a boa ideia da história. Em uma cena bizarra com uma lâmpada, por exemplo, o peso de uma realidade sangrenta é amenizado pela constatação de uma não-realidade, que soa um pouco frustrante por não testar de verdade os limites da personagem principal e também por tornar previsível como a história vai acabar.

Por outro lado, o escritor e diretor Mike Flanagan, apesar dos elementos fantasmagóricos, cria uma história pouco etérea, mais próxima de um delírio esquizofrênico do que simplesmente de uma caçada ao sobrenatural. Isso é um ponto interessante da ilusão de ótica, pois às vezes nos faz questionar se os acontecimentos com o espelho são reais ou imaginados por mentes tragicamente danificadas. A dúvida não dura muito, já que o decorrer dos fatos logo nos mostra que o espelho é sim mal-assombrado. O trabalho de Flanagan, especialmente com a edição, é o que faz o filme parecer excepcional, apesar de seus problemas. As performances fortes do elenco também ajudam bastante, com destaque para Karen Gillan. Quem a conhece pela série Doctor Who, sabe como ela pode ser intensa e carismática. Sua sinceridade enérgica como Kaylie é o que sustenta grande parte do filme.

SPOILERS: ATENÇÃO! A partir desse ponto, o texto contém TODOS OS SPOILERS DO MUNDO sobre o enredo do filme. Se você não quiser saber detalhes cruciais sobre o final de O Espelho, pare agora e volte somente depois de ver o filme. Agora se você não se importa de ler spoilers ou sua curiosidade é maior do que seu bom-senso, continue por sua conta e risco.

O Espelho, no fim das contas, é uma faca de dois gumes — ou seria uma âncora?! —, brilhante na concepção e na execução — realidade? —, mas efêmero demais em sua condução e seu desfecho — ilusão? — Ainda assim é um retrato interessante sobre a loucura e até onde o ser humano é capaz de refletir sobre si mesmo. O espelho nunca mata realmente. Ele lentamente destrói seus donos, conduzindo-os pouco a pouco para a insanidade. O filme se pergunta o tempo todo — o que é real? —, assim como quando nos olhamos em um espelho e sabemos que o reflexo não é real.

O espelho reflete a loucura, que é tão efêmera quanto a ilusão de um reflexo. Como uma entidade consciente, não aceita ser quebrado ou derrotado. Não aceita que uma vítima sua escape ilesa. Algum dano ele tem que causar. Ele consegue concluir seu objetivo quando, mais uma vez, envia Tim de volta para o manicômio por um crime que não cometeu. Se antes descobrimos que o menino não chegou a matar o pai, já que o próprio pai puxou o gatilho para se matar; agora também sabemos que ele não tinha intenção de soltar a âncora contra sua irmã. Ele queria destruir o espelho e soltou a âncora por isso. Mas o espelho os enganou, colocando Kaylie no caminho. Tim é mais uma vez acusado por um crime que não cometeu, mais uma vez por supostamente matar um membro de sua família. Kaylie termina morta por sua própria arma e por sua tolice. O demônio do espelho é o grande vencedor.

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