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Máquina de Armas

Brasileiros que só conheçam o escritor inglês Warren Ellis por seu prolífico trabalho com os quadrinhos agora têm a chance de experimentar como o autor se sai no meio literário. A parceria entre a editora Novo Século e o site de entretenimento e cultura pop Omelete trouxe ao nosso país o segundo romance do autor: Máquina de Armas (Gun Machine, EUA, 310 páginas, 2014), sendo que o livro de estreia, Crooked little Vein ainda é inédito por aqui.

A capa destaca que ele é o autor de Surpreendentes X-Men; Red, que já foi adaptado para os cinemas; e Transmetropolitan. Poderiam ser destacadas ainda outras séries de quadrinhos como Planetary, que só recentemente teve sua última HQ publicada em português pela Panini; Frequência Global; a série policial inacabada Fell, entre muitas outras obras de Ellis, sejam criações dele ou franquias de grandes editoras que em algum momento ele assumiu.

Máquina de Armas

Tamanha produção o torna um dos maiores destaques da invasão britânica no mercado de quadrinhos americanos, seja na quantidade de trabalho, seja pela qualidade do material. Na literatura, ele também conseguiu se destacar, chegando a figurar na lista de best-sellers do jornal The New York Times assim que o livro foi originalmente publicado, em 2012. Mas apesar de bastante interesse, esse seu livro policial não é tão inovador quanto sua produção quadrinística.

Máquina de Armas conta a história do infeliz detetive do Departamento de Polícia de Nova York, John Tallow (sobrenome que significa sebo, em português). Ele e seu parceiro recebem um chamado para atender um caso aparentemente simples em um prédio resindencial de uma área decadente da ilha de Manhattan: um morador surtou e passou a ameaçar seus vizinhos de arma na mão e sem roupa no corpo. A aparente simplicidade acaba com o parceiro com os miolos estourados e com uma descoberta estarrecedora. Um apartamento daquele mesmo prédio, protegido por uma porta de segurança, escondia dezenas, centenas de armas de fogo.

A análise da perícia revela que cada uma delas esteve envolvida em pelo menos um assassinato não solucionado ocorrido em Nova York nos últimos vinte anos. Pior que isso: algumas daquelas armas já deviam estar sob custódia da polícia, uma delas tendo pertencido a um dos mais famosos serial killers a ter agido na cidade. Isso significa reabrir pelo menos duas centenas de casos e arriscar provocar uma crise sem precedentes no prestígio da força policial, que deixou agir aquele que deve ser o assassino em série mais perigoso da história.

Essa descoberta acidental não faz de Tallow o detetive mais popular de seu departamento. Ela acarreta muito trabalho extra para seus colegas e um embaraço com potencial para o desastre a seus superiores. Por isso, antes mesmo de passar o período obrigatório fora das ruas por ter perdido um parceiro e usado sua arma para defender a própria vida, o protagonista é obrigado a investigar o caso com a ajuda de uma dupla improvável de peritos, uma lésbica que se faz de autista como desculpa para sua falta de trato social e um nerd à beira do caricato.

O próprio Tallow é um estranho protagonista, sem grande carisma, ensimesmado a ponto de não saberem seu nome no bar que ele frequenta há anos. O modo como ele vai conseguindo pistas no rastro do estranho Caçador une intuição legítima e doses inacreditáveis de coincidências, que vão revelando exóticos mapas invisíveis na Manhattan de hoje e dos tempos em que era habitada por nativos indígenas antes da chegada dos europeus.

Warren Ellis se mostra um pesquisador de talento, capaz de descobrir e pôr no papel minúcias sobre o funcionamento de pistolas e revólveres, sobre a burocracia das forças de segurança da cidade ou mesmo do passado de Nova York. A prosa é ágil e os diálogos inspirados, apesar de não ter em seu texto a sofisticação de alguns de seus colegas de HQs britânicos que também se arriscaram na literatura, como o Alan Moore de A Voz do Fogo ou o Neil Gaiman de Deuses Americanos. O livro é bom, mas melhores são os quadrinhos do escritor.

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