Música

JESUS & MARY CHAIN – Vivo Open Air no Rio de Janeiro

Felizmente Happy When It Rains, a dupla escocesa Jim e William Reid, do Jesus & Mary Chain, tocou debaixo d’água no Vivo Open Air, na terça-feira, dia 27 de maio, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro. O evento, como sempre, misturou música e cinema: o enorme telão ao ar livre exibiu O Exterminador do Futuro (The Terminator, 1982, de James Cameron). Se a máquina assassina interpretada por Schwarzennegger enrijeceu um pouco com o passar das décadas e ameaçou enferrujar sob a chuva que chegou de repente à noite do Rio, o Jesus mostrou que — salvo alguns enganos — sobreviveu razoavelmente ao fato de estarmos em 2014.

Confesso que não estava nutrindo grandes expectativas em relação ao show. A apresentação anterior em São Paulo, no sábado, dentro do Festival Cultura Inglesa, foi bem malhada pela crítica. E a banda que abriu para o Jesus em SP, o grupo galês Los Campesinos!, uma das melhores surpresas do novo rock alternativo, infeliz e cegamente não foi incluído no evento carioca. Uma grande pena. Além disso, o show dos Reid no Planeta Terra, também em São Paulo, em 2008, foi uma triste imitação da banda em seu auge: lento, com as músicas estranhamente limpas e desaceleradas, preguiçoso e visivelmente mal ensaiado. Mesmo sendo uma das minhas cinco ou seis bandas favoritas, desisti daquele show na terceira música e fui ver Foals e Breeders no palco menor do festival, ali ao lado.

Explica-se: palcos grandes nunca ajudaram bandas mais low profile e/ou intimistas e o Jesus tinha acabado de voltar. Separados por brigas em 1999, haviam retornado em 2007, menos de um ano antes, e estavam visivelmente enferrujados. Como resultado, o Planeta Terra viu um pálido reflexo da banda em seu auge, como na dupla de shows, dois sensacionais dias seguidos, que fizeram no Canecão, no Rio, em 1990. Comparar a lenta e desajeitada retomada de 2008 com a banda seminal, energética, impressionante daquelas duas noites 24 anos antes foi o estopim que me fez desistir do show e partir para outra, como quem vê um velho amigo pagando mico e prefere sair de perto para manter as boas lembranças. Com isso e as péssimas críticas do show recente em SP, minhas expectativas estavam longe de ser das melhores.

Jesus & Mary Chain

Por sorte eu estava — parcialmente — errado. O show desta terça na Marina da Glória foi impressionante, ainda que o principal tivesse se perdido há muito tempo. Foi-se o punch e a tensa emergência de expor suas tristezas encharcadas de distorções, ficou uma banda competente — adjetivo muitas vezes tão cruel quando se trata de rock. Mas desta vez os dois irmãos estavam entrosados, com visível vontade de tocar e, o mais importante, acertaram em cheio no setlist e no tempo do show. Apostando em músicas do melhor de sua carreira, os quatro primeiros álbuns, abriram o show com um lado B, Snakedriver, presente na coletânea de singles e raridades The Sound of Speed (1993). Recepção morna da plateia, que parecia querer ouvir os sucessos da banda. A segunda música agradou a essas expectativas: Head On, do terceiro e mais pesado álbum, o ótimo Automatic (1989), regravada de forma acachapante pelos Pixies em 1991 e pela Legião Urbana em seu Acústico de 1999. Mais animada, a plateia continuou pulando ao som de Far Gone and Out, do quarto e subestimado álbum, o dançante Honey’s Dead (1992), emendando com Between Planets e a ótima Blues From a Gun, do Automatic. Mais uma relativa pausa nos ânimos para Teenage Lust e mais dois singles: Sidewalking e Cracking Up. Apostaram então em All Things Must Pass, de 2008, primeira música gravada em estúdio pelos Reid desde o rompimento da banda em 1999 e parte da trilha sonora do seriado de TV Heroes. Isso abriu caminho para Some Candy Talking, um de seus primeiros singles, que prenunciou a clássica Happy When It Rains, talvez o melhor momento do show. Halfway to Crazy antecipou a última música da apresentação, a primordial Just Like Honey, da obra-prima Psychocandy, primeiro álbum da banda de 1985.

Voltaram rápido para o bis, que permitiu The Hardest Walk e a espetacular Taste of Cindy (outro excelente momento do show), do mesmo Psychocandy. Fecharam a tampa com Reverence, de Honey’s Dead, com direito a citações do riff da proto-punk I Wanna Be Your Dog, dos Stooges. Reverence se ressentiu da ausência do baterista da banda na ocasião daquele álbum: o ótimo Monti (da banda Curve). O Jesus sempre foi coisa dos irmãos Reid, que cuidam dos vocais, letras e guitarras e na prática são a banda. Mas bons baixistas e bateristas passaram pela formação do grupo, como Bobby Gillespie (baterista do primeiro disco, que deixou a banda para formar o Primal Scream), Douglas Hart (primeiro baixista, criador de várias linhas de baixo já clássicas) e o já citado Monti. Todos deixaram a sua marca, a ponto de, sim, haver uma cozinha característica do Jesus & Mary Chain. Por isso é uma pena ver que os atuais baixista e baterista se mostraram aquém do esperado em vários momentos. O baterista atual, Brian Young, é correto, mas deixa muito a desejar, principalmente em faixas como Reverence – Young é reto e não sustenta as viradas mais groovy. O novo baixista, Phil King, segura melhor a onda, mas deixou cair a bola em certos pontos do show, alterando para pior linhas de baixo originalmente memoráveis. Felizmente Jim e William Reid estavam bem azeitados e mantiveram o nível da apresentação, com vocais e guitarras irrepreensíveis. Ao que parece, estavam bem melhores do que no ultracriticado show de dias antes em São Paulo, quando foram acusados de estar pessimamente ensaiados. Findo o show, teve início uma ótima festa ao som dos sempre excelentes Edinho e Tito, que tocaram rock e pop para um ambiente que parecia o de velhos conhecidos se reencontrando na sala de estar de um amigo. Bom momento.

Fica uma ressalva final para as guitarras. Tá, show competente, duração OK (alguns acharam curto o tempo de pouco mais de uma hora, mas funcionou bem), só que houve um paradoxo temporal: a banda — em escolha acertadíssima — tocou apenas músicas dos primeiros quatro de seus seis álbuns de estúdio, mas o tom e o timbre das guitarras lembrava o som dos dois últimos álbuns, que são mais domesticados, medianos e menos impressionantes. Músicas antigas, guitarras novas. Faltou o oceano de feedback e fuzz e os altofalantes furados que são a marca registrada dos melhores momentos da banda. Caros irmãos Reid: por que venderam seus pedais?


SETLIST:

Snakedriver

Head On

Far Gone and Out

Between Planets

Blues From a Gun

Teenage Lust
Sidewalking

Cracking Up

All Things Must Pass

Some Candy Talking

Happy When It Rains

Halfway to Crazy

Just Like Honey

Bis:

The Hardest Walk

Taste of Cindy

Reverence


BIO:

Formados na cena alternativa escocesa em 1983, em East Kilbride, o Jesus & Mary Chain logo se destacou como a pequena grande banda capaz de fazer os pedais de fuzz e distorção acompanharem as melodias melancólicas compostas por Jim e William Reid, na época dois garotos de 21 e 24 anos, com visível e central influência do seminal Velvet Underground, banda que, se hoje é muito falada e pouco ouvida, na época era pouco falada e pouco ouvida. Aprendendo as lições de Lou Reed e John Cale sem deixar de lado Nico — coisa que o próprio Lou Reed tentava fazer —, o Jesus & Mary Chain retomou as ideias centrais do Velvet: colocar o feedback na frente do resto, sem abrir mão das melodias do pop e nem do peso. Mas não o peso mastodôntico do metal, muitas vezes empunhando toneladas que o impede até mesmo de sair do lugar: antes disso, o peso da confusão de informações ainda assim perfeitamente concatenadas, o peso de todas as dúvidas, melancolias e tristes certezas da adolescência.

Brian Eno, ex-Roxy Music e autointitulado não-músico, um dos artistas mais importantes do mundo contemporâneo, disse certa vez que “o primeiro disco do Velvet deve ter sido comprado por 300 pessoas, mas todas elas quiseram formar novas bandas”. J&MC repetiu também essa característica, ainda que tenha um público maior do que o Velvet jamais teve, graças à ajuda de terem surgido em uma época onde o rock alternativo estava prestes a estourar comercialmente e de clips que teriam feito Andy Warhol, patrono e padrinho do Velvet, corar de inveja. O primeiro álbum, Psychocandy, de 1985, se notabilizou por extrapolar os efeitos de feedback no som das guitarras. Os toques de Velvet se mesclavam ao uso da técnica do wall of sound, tipo de produção de estúdio criada e popularizada pelo produtor Phil Spector nos anos 60. Rompendo barreiras e tímpanos, Psychocandy provocou ainda um efeito colateral engraçado: houve quem tentou devolver o disco na loja, achando que o som ensurdecedor das guitarras sobre aqueles vocais e melodias tão bonitos e melancólicos fossem um erro da prensagem do vinil.

Era um erro apenas de percepção estético-temporal, como tantos que vieram a se repetir ao longo das décadas e como sempre aconteceu na história da arte e, claro, da música pop. Surpresas, decepções e recriações são inevitáveis. Darklands, de 1987, para muitos seu melhor álbum, diminuiu o feedback e amplificou as sombras; a coletânea de lados B e covers Barbed Wire Kisses, de 1988, nos mostrou o apreço dos irmãos por bandas solares como os Beach Boys; Automatic, de 1989, ampliou os horizontes estéticos com apostas na mistura da distorção com baterias mais altas e definidas, em esplêndido resultado; Honey’s Dead, de 1992, incorpora o groove das pistas de dança e uma mescla de baterias acústicas e eletrônicas; Stoned & Dethroned, de 1994, diminui a marcha e reduz os excessos, criando a trilha para um road movie mais contido; e o canto do cisne, Munki, de 1998, luta contra a irrelevância amplificando a dicotomia/paradoxo pós-punk com I Love Rock’n’Roll e I Hate Rock’n’Roll. Cai o pano, mas o feedback continua saindo dos altofalantes.

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