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Malévola

Mais uma vez vamos precisar do nosso poder de abstração, porque Malévola (Maleficent, EUA, 2014) usa os personagens do conto de fadas A Bela Adormecida, mas está muito longe de ser uma versão dele. Ele tem uma premissa interessante, mostrar a história da Malévola, a “fada” que acaba não sendo convidada para a festa pelo nascimento da Princesa Aurora. Com raiva por ter sido ignorada, a vilã vai a festa mesmo assim e ainda joga uma maldição na criança: quando ela completar 16 anos, espetará o dedo em uma roda de fiar e morrerá.

O longa da Disney decidiu mostrar essa história pelo ponto de vista da vilã, amenizando sua maldade e dando uma razão para ela fazer o que faz. Na verdade ainda prefiro a razão “não fui convidada e vou lá tocar o terror na festa” do que a do filme, mas entendo que a intenção aqui é explicar por que Malévola é como é. O lance é que contos de fadas SÃO maniqueístas, pois têm como função ser uma lição, que a princesa precisa passar por uma provação para conseguir o que quer e, principalmente, que o bem é simplesmente o bem e o mal é simplesmente o mal. Assim, preto e branco. Mas acho louvável que os filmes voltados para o público mais jovem procurem mostrar que o mundo não é assim, que existem tons de cinza e que são nessas nuances que devemos prestar atenção.

Malévola

Olhando por esse prisma, Malévola é cheio de boas intenções, que funciona em alguns pontos e erra muito feio em outros. Ele conta a história da Malévola, que vive na mágica Moors, uma terra onde vivem seres mágicos e que é protegida por ela e seus guardiões. Um dia, ela conhece um menino órfão e pobre, Stefan, que tenta roubar uma das joias encantadas de Moors. Os dois acabam se tornando grandes amigos e se encontram todos os dias até a adolescência, quando acabam se apaixonando. Porém, com o início da vida adulta, Stefan (Sharlto Copley) e Malévola (Angelina Jolie) se separam. Ela se torna a poderosa e eficiente guardiã das terras mágicas, as quais o rei quer invadir e tomar para si. Gravemente ferido por causa de uma luta entre seu exército e os seres de Malévola, o rei decide que quem matar a fada ganhará a mão de sua filha em casamento e, em consequência, o reino. Stefan, agora lacaio do rei, percebe que aquela é sua chance, já que conhece o ponto fraco da fada. Volta a encontrá-la e a engana com um sedativo. Enquanto Malévola dorme, Stefan decide matá-la, mas sem coragem para fazê-lo, apenas lhe arranca as belas asas. Na manhã seguinte, ela desperta e descobre o que aconteceu. Enquanto Stefan se torna rei, Malévola se entrega às trevas e passa a reinar através do ódio. Mas ainda há algum bem na fada. Ela transforma um corvo pego em uma armadilha num humano, que se torna seu fiel guardião, Diaval (Sam Riley), fazendo dele suas asas para controlar o reino.

As terras mágicas são lacradas por enormes espinhos e, ali, Malévola vive e reina consumida pelo ódio a Stefan. Até o dia que Diaval conta que o Rei Stefan e sua esposa tiveram uma filha. Durante o grande baile em homenagem a linda Princesa Aurora, todos os seres aparecem e oferecem presentes a pequena princesa, entre eles as três fadinhas: Knotgrass (Imelda Stauton), Thistlewit (Juno Temple) e Flittle (Leslie Manville). Malévola invade a festa e joga uma maldição na pequena princesa, que quando ela completar 16 anos espetará o dedo em uma roda de fiar e dormirá para sempre, até que o beijo de um amor verdadeiro a desperte. Nada poderá retirar sua maldição a não ser esse beijo. Desesperado com a maldição, o rei manda queimar todas as rodas de fiar do reino e manda que as três fadas cuidem de Aurora até o dia que ela tenha 16 anos e 1 dia (quando é interpretada por Elle Fanning).

Tirando a parte inicial da trama do filme, ele parece ser bem fiel ao conto da Bela Adormecida, mas ele não termina aí. A partir do momento em que Malévola joga a maldição em Aurora, outras características da história mudam. Mas antes de comentá-las, porque são spoilers do filme, preciso destacar o elenco. A primeira boa surpresa do filme é ter Sam Riley no elenco, que dá o tom cômico à história e seu personagem tem o papel de ser o equilíbrio de Malévola. Riley, que me conquistou quando interpretou o cantor Ian Curtis em Control (2007), mostra com Diaval o quanto é versátil. A outra surpresa, para mim, foi Jolie, porque tenho várias implicâncias com ela, mas em Malévola, ela me conquistou ao mostrar que tem (muito) carisma. Sharlto Copley prova que é capaz de fazer qualquer papel em qualquer filme e a fofíssima Elle Fanning, está mais do que adorável como Aurora. Mas há uma decepção enorme, aliás, três: Imelda Stauton, Juno Temple e Leslie Manville. As três fadas madrinhas de Aurora deveriam ser engraçadas e graciosas, mas são burras, chatas e completamente desnecessárias no filme. O que me chateou muito, porque são minhas personagens favoritas no conto.

SPOILERS: É preciso ser discutido porque o filme acerta bastante em alguns pontos quando se afasta do conto mas erra horrivelmente em outros e, para isso, é necessário dar alguns spoilers do filme. Por isso, se você ainda não viu e não quer detalhes da trama, pare por aqui, veja e depois “discutimos” se concorda ou não com os meus pontos. Se você não se importa e até prefere saber o que exatamente acontece, vamos lá. ATENÇÃO!

A primeira coisa que muito me incomoda no filme, e esse não é um grande spoiler, é o fato da personagem principal se chamar Malévola. Eu sei que esse É O NOME DELA, que o filme quer contar a história do ponto de vista dela e tudo isso. Mas no início do filme, ela é uma fada fofa e boazinha que cuida dos animais e da natureza, além de ser muito querida pelos seres que vivem em sua terra. Por que alguém colocaria o nome de Malévola em um ser bom? Enfim, sei que é pura implicância, mas que é um furo enorme, isso é. Ela poderia ter outro nome e se tornar Malévola no decorrer do filme, acho muito mais digno.

Depois, quando Malévola perde as asas, ninguém a ajuda. Ninguém! E isso me incomodou muito, porque ela era muito boa com todos, tinha guardiões que tomavam conta dela e, de repente, nada. Ela fica lá, triste, chorosa, com dor e nem uma fadinha quer saber o que aconteceu. Sei lá, achei esse um furo muito feio do filme. Desse jeito, eu também me tornaria amarga e mandaria todo mundo pastar.

A terceira e última coisa que me incomodou no filme foram as três fadas madrinhas da Aurora. No conto, elas são engraçadinhas, atrapalhadas com o fato de não poderem usar magia para não despertar o interesse no fato de que estão escondendo a princesa. Mas ao mesmo tempo, são muito espertas e divertidas. No filme, elas são um enorme desperdício de bom elenco, três ótimas atrizes que são obrigadas a fazer papel de bobas e burras. São desastradas de uma forma irritante, brigam o tempo todo e nem ligam para Aurora, que se torna um fardo para elas. O que no conto elas veem como uma dádiva, aqui veem como uma problema. Entendo que a forma desastrada delas serem é exagerada para justificar o fato de Malévola passar a “proteger” a menina. Mesmo que ela não reconheça isso. Mas não precisava criar três personagens tão irritantes e inúteis.

O filme, na verdade, é uma boa história sobre a saga muito bem construída de uma personagem interessante. Longe de ser a Malévola da Bela Adormecida, mas uma Malévola que se cria e amadurece sozinha. Muitos pontos positivos por conseguirem criar e contar a história de uma personagem feminina forte, que não é completamente boazinha e nem completamente má. Que não é invejosa, nem que vive em função de um grande amor. Que cresce e se fortalece por mérito próprio, através de seus erros e acertos. Podem pensar, “ah, mas ela faz tudo o que faz porque é largada pelo Stefan!”. Não, ledo engano, ela se vinga porque foi traída de forma covarde por uma pessoa em quem ela confiava, já que seu mundo era protegido e cheio de pessoas boas. Ela não conhecia a maldade e passa a entendê-la quando Stefan a trai. Podia ser qualquer um. Por isso, apesar dos incômodos citados acima, que gostei de Malévola, porque é um filme honesto sobre auto descobrimento.

Outro ponto muito interessante do filme, e que tem sido uma nova constante dos filmes da Disney, desde Valente (que é da Pixar, mas abstraia isso agora) e que fica muito mais explícito em Frozen, é a mensagem que personagens femininas podem e tem fortes laços com outras personagens femininas. É lindo ver crescer o carinho entre Malévola e Aurora, porque no fundo a fada má é uma menininha indefesa e sem amigos, que passa a nutrir um carinho quase maternal pela delicada e gentil Aurora. Há uma troca entre elas, Malévola ensina Aurora a ser adulta, a saber se cuidar e Aurora ensina Malévola que ela pode ser delicada e carinhosa e esse é ponto que mais me tocou no filme, que princesas nem sempre precisam ser salvas pelo Príncipe Encantado, porque eles não existem. O amor eterno e maravilhoso deve ser conquistado. O príncipe até existe no filme e Aurora se interessa por ele, mas ele não é o seu grande salvador.

Mais uma vez a Disney ganha muitos pontos comigo ao mostrar que amizade e autoconhecimento são muito mais importantes do que um príncipe no cavalo branco. Por isso consegui abstrair que Malévola tem alguns furos, que a personagem não é exatamente a do conto de fadas, porque sua mensagem é seu maior ponto positivo e a principal razão pela qual você não deve perder o filme.

Malévola

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