Filmes

Uma Longa Queda

Sempre que vou assistir um filme baseado em um livro tenho em mente que aquela é a adaptação de uma outra pessoa sobre o livro. Sim, sei que isso é óbvio, mas o que quero dizer é que a pessoa que leu o livro e decidiu transformá-la em filme não pensa necessariamente como você. Claro que o plot principal será o mesmo, mas nuances não são percebidas da mesma maneira. Às vezes um ponto focal para você, dentro de uma história, pode não ser o mesmo da pessoa que fez a adaptação. Por isso, quando vou ao cinema ver um filme baseado em um livro, principalmente um livro que eu amo, tento analisar o filme como uma obra separada.

Só que o filme Uma Longa Queda (A Long Way Down, Reino Unido, 2014) serviu para me mostrar que tem gente que consegue sair completamente do plot original. Baseado muito livremente no livro homônimo de Nick Hornby, a produção usa o argumento principal (quatro pessoas que querem se matar na véspera de Ano Novo) e os personagens. Só isso.

Uma Longa Queda

Logo no início, segue um rumo completamente diferente do livro e vira uma outra coisa que, com certeza, não é mais uma adaptação. Ganhei o poder de abstrair adaptações livres depois que assisti O Iluminado, dirigido pelo genial Stanley Kubrick, que decidiu usar só a premissa principal do livro do Stephen King (que é um dos meus favoritos) e a partir dali fez o seu filme, mudando partes inteiras da história original, inclusive o fim. Amo o livro e amo o filme. O problema é que Uma Longa Queda não é O Iluminado, porque com certeza absoluta Pascal Chaumeil não é Stanley Kubrick.

Com tudo isso em mente, decidi deixar de lado que é uma adaptação de um livro que amo e analisar como uma comédia romântica britânica, dessa forma a decepção é menor. O filme, Uma Longa Queda, conta a história de Martin (Pierce Brosnan), Maureen (Toni Collette), Jess (Imogen Poots) e J.J. (Aaron Paul), que decidem subir em um dos prédios mais altos de Londres, na véspera do Ano Novo, para se matarem. Eles não se conhecem, apenas tem a ideia ao mesmo tempo e acabam se conhecendo lá em cima.

Cada personagem se encontra em uma situação limite em suas vidas e decidem que não querem mais viver. Martin era um famoso apresentador de televisão que se viu envolvido em um escândalo com um menina menor de idade. Maureen tem um filho adolescente com uma doença degenerativa, que o faz precisar de cuidados constantes. Jess quer curar uma forte desilusão amorosa e J.J. conta a eles que tem um câncer inoperável. Claro que ao se encontrarem, o plano de morrer acaba ficando de lado e todos descem do prédio para seguirem, como podem, com suas vidas. Só que Jess decide ir atrás de seu ex-namorado em uma festa e leva todos os outros com ela. Lá, ela tem uma overdose, o que obriga seus novos amigos a levarem-na para o hospital. Já melhor, a moça cria um novo pacto de morte que une o novo grupo inusitado. O problema é que alguém conta a história deles a repórteres, que se interessam pelo fato de Martin estar no meio do grupo, e suas vidas viram um caos.

Tanto no filme quanto no livro, o principal é a reflexão que os personagens tem sobre suas vidas, quanto o evento de subir no prédio e conhecer outras pessoas na mesma situação mudou completamente o ponto de vista de cada um. O problema é que no filme, além da história mudar completamente a partir do momento em que eles descem do prédio, essa reflexão é muito superficial e óbvia. Você tem certeza absoluta sobre o que vai acontecer com cada um daqueles personagens.

Já em seu livro, Hornby conta uma história de humor negro, mas que também é extremamente realista, sobre escolhas e o quão duro às vezes é viver. No filme há nuances disso dentro do drama de Maureen, uma pessoa solitária com um fardo muito grande, que tem dúvidas sobre seu papel de mãe. Chaumeil transforma o humor negro em comédia romântica e acaba tudo bem. Seu grande trunfo e, na verdade, o que salva o filme é o elenco.

Pierce Brosnan transborda charme com seu eterno estilo James Bond, mas consegue convencer como um charlatão egoísta que só se preocupa com a própria fama. Toni Collette é frágil, tímida, infeliz na medida certa. Aaron Paul está adorável como músico fracassado que vai tentar a sorte na Inglaterra. Mas quem rouba o filme é Imogen Poots como a louca Jess. A atriz consegue se sobressair mesmo no meio de grandes estrelas e conquista com facilidade.

Essas são as quatro razões pelas quais acabei gostando de Uma Longa Queda. Poderia ser melhor se fosse mais fiel à essência do livro, principalmente com esse elenco. É uma divertida comédia, que torna leve um assunto pesado, principalmente porque se afasta completamente dele. Porém, leia o livro.

Uma Longa Queda

Uma Longa Queda

Uma Longa Queda

Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Nível Épico em Imagens

Facebook

Google Plus