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Excalibur

A força do mito do Rei Arthur reside em sua multiplicidade de interpretações. O rei justo, o grande herói que voltará dos mortos, a traição, os cavaleiros de um reino idealizado, a apropriação pelo cristianismo dos rituais pagãos e até mesmo o início da época medieval; tudo isso e muito mais vem inspirando escritores e criadores desde o século V até hoje, rendendo boas histórias.

Sendo assim, é interessante ver que mesmo escritores brasileiros brincam com o tema, cada um a seu modo, na coletânea Excalibur: Histórias de Reis, Magos e Távolas Redondas (Brasil, 248 páginas, 2013), organizada por Ana Lúcia Merege para a Editora Draco.

Excalibur

O curioso é que apenas um dos contos se passa no Brasil. Em Os Reis Às Margens do Rio, Cirilo S. Lemos apresenta uma história alternativa onde a monarquia sobreviveu ao fim da escravidão e a Segunda Guerra foi travada também em solo pátrio. Aqui, temos uma abordagem sensacional do aspecto messiânico de Arthur, numa mistura de delírio, alucinação e misticismo com um fundo político e social. Imperdível.

Ainda falando em linhas alternativas, temos dois contos derivados da Arturiana Alternativa publicada no site Hyperfan alguns anos atrás. Em As Mãos Vermelha de Isolda, Octavio Aragão apresenta um Lancelot maduro, servindo à Camelot. Ele acaba se envolvendo numa conspiração contra o Reino. A premissa do conto é um final diferente do tradicional, onde Arthur sobrevive e não há a queda de Camelot. A leitura tem bom ritmo e um final empolgante.

Já em O Herdeiro de Shalott, de Ana Cristina Rodrigues, conhecemos Phelipe, o filho de Lancelot com a Dama de Shalott, que se depara com o cristianismo já tomando conta do reino de Arthur, e luta para preservar sua crença nos antigos deuses. A autora trabalha bem o conflito entre as religiões, mostrando como a mudança da visão religiosa atendeu a interesses políticos, e não apenas espirituais.

A Dama de Shalott serve ainda de inspiração para O Espelho, de Liége Báccaro Toledo, que se passa nos tempos modernos. A autora investe bem na ambientação, mas faltou desenvolver mais o conflito da protagonista para que o leitor se envolvesse mais com a mesma.

Há outras releituras interessantes, puxando para a Ficção Científica, que lembram a antiga HQ Camelot 3000, de Mike W. Barr e Brian Bolland. É o caso de Momento Decisivo, onde a dupla Luiz Felipe Vasques e Daniel Bezerra situam o retorno de Artur numa divertida space opera em que Lancelot é um piloto de uma nave interplanetária. Mais uma vez está presente a temática da traição, que é bem inserida dentro do novo contexto.

Em A Fada, de Marcelo Abreu, voltamos ao messianismo de Arthur. O interessante aqui é vermos a idealizada Camelot em um cenário distópico, fato bem trabalhado pelo autor, onde o antigo reino serve de inspiração para uma luta revolucionária.

Na mesma onda, temos A Solução Final, de A. Z. Cordenosi, em que o mito arturiano ganha uma ambientação steampunk. O autor faz um crescendo de tensão, em meio a guerras e traições, mas a linguagem um tanto quanto formal, principalmente nos diálogos, acaba criando um certo ruído entre os acontecimentos e o leitor, resultando num certo afastamento entre ambos.

Ainda no quesito traição, mas com um enfoque bem diferenciado, temos Mau Conselho, de Pedro Viana. Desta vez o próprio rei pode ser considerado um traidor, junto com Merlin. Apesar da originalidade, as motivações não soam inteiramente convincentes, retirando um pouco a força da ideia principal.

Alguns dos contos se ocuparam em retratar a própria corte de Camelot, pela visão de um novo personagem. Assim fez André Soares Silva em O Cavaleiro Anônimo, no qual criou um paladino que deseja se tornar um cavaleiro de Arthur. O problema é que o personagem começa ingênuo e assim permanece até o final, não evoluindo mesmo diante das adversidades que enfrenta.

Nesse embalo também vai O Fio da Espada, de Melissa de Sá, no qual um jovem ousado chama a atenção do rei e acaba se tornando escudeiro de Lancelot. O conto é até divertido, mas seu protagonista apresenta o mesmo problema da trama anteriormente mencionada: o protagonista essencialmente não amadurece ao longo da narrativa.

Roberto de Sousa Causo também insere seu próprio protagonista em Camelot com A Memória da Espada. Trata-se de um guerreiro lusitano capaz de derrotar o próprio Arthur. O autor cria uma mística em torno do personagem que ao final não se justifica. Além disso, acaba num anticlímax até certo ponto moralista. Apesar do bom potencial, o desenvolvimento não faz o leitor “comprar” as motivações do personagem principal.

Por fim, a própria organizadora da antologia apresenta um conto com viés mais realista em A Dama da Floresta, mostrando um ponto de vista feminino sobre a guerra e as tradições celtas e galesas que inspiraram o mito do Rei Arthur. A autora apresenta boa narrativa, estilo elegante e boa caracterização de personagens, sendo seu conto um dos pontos altos da coletânea.

Aliás, é curioso notar que muitos dos contos apresentam como figura negativa Morgana ou Guinevere, as principais personagens femininas do mito. Já Lancelot, mesmo com a traição dominando a temática da maioria das narrativas, possui uma abordagem mais variada.

Outro fato que chama atenção é que as obras mais interessantes foram justamente as que buscaram novas leituras de Arthur, seja inserindo-o em um novo contexto ou apresentando roupagem diferente aos acontecimentos considerados canônicos.

Mas talvez o mais positivo deste livro seja apresentar a diversidade da literatura fantástica nacional contemporânea. A partir do ponto comum, tivemos leituras bem afastadas entre si, desde a fantasia mais tradicional até visões futuristas do mito. Desta forma, mesmo com oscilações comuns a este tipo de coletânea, Excalibur merece destaque no panorama atual, sendo a sua leitura essencial para os fãs do fantástico, bem como os do Rei Arthur.

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