Filmes

Sob a Pele

Uma jovem mulher dirige uma van branca, pedindo por informações para homens aleatórias que ela para ao longo do caminho. Parece aleatório, mas não é. Ela procura alguém que possa desaparecer sem que ninguém sinta falta. Por fim, um homem novo se senta ao seu lado no banco do passageiro. A partir de sua linguagem corporal, sabemos que eles estão passando por aquele processo social de duas pessoas que acabaram de se conhecer e precisam quebrar barreiras para estabelecer uma proximidade um com o outro. Se o homem não se abre ou se sente desconfortável, não há conexão, e ele é logo ignorado. A mulher continua até que encontre outro, alguém que esteja mais aberto para sua investida. Quando encontra, surge a possibilidade do sexo, que preenche o espaço entre eles como a névoa do cenário escocês onde se passa essa busca. Quando o sexo, por fim, chega ao ponto de ser consumado, descobrimos do que essa “busca” se trata.

Sob a Pele (Under the Skin, Reino Unido, 2013) acompanha a estranha história de uma alienígena (Scarlett Johansson) cuja sexualidade atrai os homens para a escuridão. Eles são seduzidos, despojados de sua humanidade, e nunca mais se ouve falar deles. Mas após conhecer diversos homens e diversas histórias, algo muda em sua consciência. Ela começa a questionar suas ações, enquanto desenvolve uma conexão emocional com os humanos.

Sob a Pele

Baseado no romance homônimo de Michel Faber e dirigido por Jonathan Glazer (Reencarnação), o filme revela inicialmente a influência que uma mulher pode exercer sobre um homem em uma situação de aparente casualidade, quando nada parece ser um problema, e tudo parece conspirar para uma boa noite de sexo. Na superfície, é uma história sobre a eterna dificuldade de conexão que existe e sempre existirá entre homens e mulheres, com a qual alguns lidam melhor do que outros.

Isso se reflete pela abordagem da personagem de Johansson a um homem na rua. Ela alisa o cabelo e sorri alegremente enquanto pergunta se ele mora sozinho ou se tem alguém na vida. A maioria dos homens responde a tudo sem pensar duas vezes. Enquanto transita de um lado para o outro em sua van, o tráfego vai diminuindo à medida que anoitece, e quando é noite, escutamos apenas o barulho do motor, até que ela encontre uma presa e inicie uma nova abordagem. Se não é a presa ideal, ela segue dirigindo, com olhar decidido rumo ao próximo objetivo. Qualquer traço do passageiro anterior desaparece. Se ela encontra a presa ideal, o homem é consumido por seu próprio apetite sexual e por acreditar que na vida as coisas podem vir fáceis. Estar com uma bela mulher exige muito mais do que aceitar uma simples carona. Os tolos que acreditam no contrário e se deixam levar sem ponderações, pagam caro por isso. E no fim das contas, quando ela consegue o que quer, qualquer traço do passageiro também desaparece.

Scarlett Johansson tem um desempenho bastante diferente do que estamos acostumados a ver. Mas ao mesmo tempo, ela é perfeita para a personagem. Sem ela, provavelmente a alienígena protagonista não teria o mesmo impacto em cena. Algumas vezes, ela parece vazia de significado. Outras vezes, ela parece ser um humano lutando para aprender os detalhes cotidianos sutis de uma nova cultura. Ela sempre passa a sensação de que é uma estranha em uma terra estranha, criando empatia pela personagem. Johansson consegue se conectar com o clima e a estética do filme. E acredito que grande parte disso esteja em seu olhar, sempre meio enviesado, que não transmite emoção alguma mesmo quando está tentando parecer cordial com os homens que aborda. Sua frieza sedutora expressa o poder de sua personagem. Tanto quanto expressa seu poder como atriz. Johansson, que é sempre tão enaltecida nos filmes em que atua, sempre tão endeusada em meio a exageros, é apresentada aqui como uma mulher pura e simples.

Jonathan Glazer não nos entrega a Scarlett Johansson a que estamos acostumados. Mas uma mulher real, e belíssima, com manchas e dobras na pele como qualquer outra mulher. Sua personagem é exatamente isso. Uma mulher tentando se descobrir e se conhecer, além do que está programada para ser ou fazer. A cena em que ela se olha e analisa seu corpo, nua, em frente a um espelho é um grande reflexo disso (o trocadilho não foi intencional).

Isso me leva rapidamente a outra questão. O fato de Johansson aparecer nua no filme, algo que gerou bastante repercussão na Internet. Justamente por ela ser sempre tão endeusada e tão idealizada, muitos a criticaram por acharem-na normal demais. O filme na verdade só ganha ainda mais respeito com isso. Por desconstruir a imagem de uma mulher como Scarlett Johansson e mostrar que ela é uma mulher como qualquer outra, e verdadeiramente bonita, com todas as “imperfeições” que uma mulher tem. Porque, desculpa, mas se você é homem e achou ela “normal demais”, você não conhece mulher. E se você é mulher e achou ela “normal demais”, você não se conhece como mulher. “Imperfeições” todas as mulheres têm, e elas não deixam de ser bonitas por isso. Pelo contrário, faz parte do charme.

Johansson no filme é uma mulher, ora uma mulher humana, ora uma mulher alienígena. Ora diz muito, ora diz nada. Essa é a sensação que ela passa em cena. Essa é a sedução que ela passa em cena. Dessa forma, ela consegue enredar os homens em sua dança de acasalamento, mortal como a dança de uma viúva negra (agora o trocadilho foi intencional). Dessa forma, ela consegue transformar Sob a Pele em uma história nada tradicional e gratificante. Sobre os papéis dos gêneros e o poder do sexo. Sobre o medo que os homens sentem das mulheres. Sobre o desconforto que as mulheres sentem por seu próprio fascínio. Sobre as muitas variáveis que podem existir na relação entre um homem e uma mulher, seja ela casual ou duradoura.

Sob a Pele se revela, sobretudo, como a história de uma alienígena assassina. Com a frieza e brutalidade que poderia se esperar de um filme de terror, mas com ritmo e aspecto de algo muito diferente, que vai além do terror ou mesmo da ficção científica. Sua forma narrativa não entrega o que está acontecendo, e nem parecer sua intenção fazê-lo. O pouco que descobrimos é que a personagem de Johansson é uma alienígena que está na Terra para algum tipo de missão. Há um motociclista, que parece ser uma espécie de monitor da alienígena em suas atividades e o responsável por manter as ações dela em sigilo caso algo dê errado. Quem é o motociclista nunca é revelado. Ele é um mistério. É macabro. E isso funciona muito bem para o clima do filme. A trilha sonora de Mica Levi, vibrante e ruidosa, contribui com a sensação sinistra que a trama quer passar.

Do que exatamente se trata essa missão, nunca fica claro. Ela se veste com uma pele de humana para cumprir sua missão e às vezes precisa trocar de pele. Talvez ela seja a vanguarda de uma invasão alienígena. Talvez esteja apenas trabalhando para alimentar uma entidade maior, como uma formiga operária. Quem sabe. Muita coisa do filme é apresentada de forma mais figurada do que real. Normalmente o que vemos é a representação simbólica de uma coisa, não a coisa em si.

Não é a primeira vez que Jonathan Glazer trabalha dessa forma. Seu filme Reencarnação (2004) também tem essa característica de simbolismo e indefinição, e justamente por isso é maravilhoso. Ele tem uma marca própria, que foge do convencional. Sob a Pele também tem essa marca. Seu estilo de ficção científica carrega alguma coisa da ficção científica dos anos 70 — com filmes como Solaris (1972), de Andrei Tarkovsky, ou O Homem que Caiu na Terra (1976), de Nicolas Roeg, ou Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), de Steven Spielberg —, por seu visual subjetivo, seus efeitos sonoros perturbadores e sua edição seca e até certo ponto cruel. Em dado momento, também percebemos grandes semelhanças com Stanley Kubrick, como os acenos da abertura para 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) e do final para O Iluminado (1980). São filmes que revelam suas intenções apenas em suas imagens, sem que diálogos precisem explicar a trama o tempo todo. As coisas acontecem e aos poucos você compreende seus significados. Ou não. Porque nem tudo é para ser explicado ou entendido. Muita coisa de Sob a Pele, assim como em muitos filmes de ficção científica das décadas passadas, estão ali para nos fazer pensar. Para nos proporcionar uma experiência diferente, com a qual não estamos acostumados. Suas imagens e músicas e situações são a representação dessa experiência, que não se trata apenas de assistir a um filme, mas sair do cinema pensando e se questionando sobre ele.

Sob a Pele

Sob a Pele

Sob a Pele

Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Resenhas Populares

Rogue One: Uma História de Star Wars

Rogue One: Uma História de Star Wars

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Raw

Raw

Capitão Fantástico

Capitão Fantástico

O Homem nas Trevas

O Homem nas Trevas

Nível Épico em Imagens

Google Plus

Facebook

SoundCloud