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O Grande Mestre

O Grande Mestre (The Grandmaster — Yi Dai Zong Shi —, China, 2013) é baseado no lendário artista marcial chamado Ip Man, que inclusive foi mestre do Bruce Lee, mas conta uma versão diferente da que foi mostrado no filme Ip Man em 2008. Dirigido por Wong Kar Wai (2046 – Os Segredos do Amor), a história se passa na década de 30, quando as artes marciais estão se tornando mais populares, levando mais pessoas a tentar aprendê-las com artistas marciais renomados em Foshan, no sul da China. Alguns dos mestres mais experientes gostam de desafiar uns aos outros em grandes batalhas. Para manter total concentração entre os lutadores, os combates acontecem em espaços fechados, de onde ninguém tem permissão para sair até que a luta termine.

Ip Man (Tony Leung) é um jovem rico extremamente talentoso nas artes marciais, mas prefere viver em paz e tranquilidade ao invés de levar uma vida de lutas. Porém, por sua habilidade, a discrição parece ser quase impossível. Quando o mais antigo e renomado mestre local decide que é hora de ser substituído, Gong Baosen (Wang Qingxiang), os grandes artistas marciais da China se reúnem em um desses locais para definir o novo mestre. O Ip Man surge como o candidato mais promissor, surpreendendo a todos com suas habilidades, inclusive a jovem Gong Er (Ziyi Zhang), filha de Gong Baosen, que também é uma exímia lutadora e se vê atraída pelo artista marcial. Mas quando o pai de Gong Er é assassinado, todos os mestres de Foshan se mobilizam para derrotar o assassino.

O Grande Mestre

Ip Man é conhecido por ser mestre da arte de combate conhecida como Wing Chun, e o filme aborda aspectos de sua história relacionados à época em que se tornou policial em Foshan e ensinou sua arte a várias de seus subordinados, amigos e parentes, pouco antes da Segunda Guerra Sino-Japonesa, na qual Ip Man lutou. A história dos grandes mestres de artes marciais e sua relação com a sociedade chinesa é apresentada com uma atmosfera mais ou menos parecida aos filmes de gângsteres, explorando a proposta do filme de artes marciais sob um ponto de vista interessante.

Wong Kar Wai logo no início mostra que sua visão fria e estilizada, abrindo o filme com uma impressionante sequência de luta, em que o Ip Man enfrenta uma horda de bandidos sob a chuva. Não importa por que eles estão brigando, o que é importa é a dança de punhos e água, com corpos sendo lançados ou esmagados pelo cenário, atingidos pelos golpes impassíveis e pesados de Ip Man. A cena estabelece de forma consistente o que podemos esperar da história e do cenário, em que ser um grande mestre das artes marciais é um fardo pesado, que não exige apenas disciplina para controlar desejos e emoções, mas também sacrifícios que levam ao distanciamento frio entre as pessoas.

Como um filme de kung fu, O Grande Mestre — com suas sequências de luta emocionantes —, funciona maravilhosamente bem. Como um filme de Wong Kar Wai — adepto de explorar de forma poética questões sobre desejo e frustração, inevitabilidade da perda e tirania dos papéis sociais —, é tocante e doloroso em sua angústia, como similaridades a seu filme wuxia Cinzas de Passado (1994). Mas como uma narrativa, é desafiador.

Wong não é convencional como contador de histórias, e sua estética não se apega ao básico no que se trata de fazer uma biografia, com clareza linear e continuidade cronológica definida. Ele acomoda esses aspectos no filme, mas sem grande preocupação, privilegiando o diálogo sobre a narrativa e usando intertítulos entre momentos de exposição e variação de tempo. Seu interesse na história de Ip Man, além da beleza estética, está em explorar os caminhos de um homem e uma mulher que desejam um ao outro, mas que sofrem com as conspirações do mundo para frustrar sua felicidade.

Alguns obstáculos são inevitáveis, como cataclismos históricos. Em 1936, quando o filme começa, com a recente conquista japonesa da Manchúria, Ip Man reside com sua esposa e filhos na próspera cidade de Foshan. Ele é discreto sobre suas proezas de kung fu, mas é atraído para a rivalidade entre as escolas de kung fu do norte e do sul. Isso o leva a lutar com o grande mestre local, Gong Baosen, que é derrotado de forma honrada. Mas Gong Er, filha de Baosen e também uma especialista em kung fu, decide desafiar Ip Man, e assim eles se enfrentam numa luta sedutora em um esplendoroso bordel. A sintonia cria um laço entre os dois, que desejam se encontrar de novo, talvez para outra luta, talvez para algo mais, porém a vida pode ser dolorosa e uma sucessão de acontecimentos fatídicos separa seus caminhos. Além dos próprios fatos da vida dos dois, eventos como a Segunda Guerra Mundial aumentam a distância entre eles. Antes que percebamos, estamos em 1950, acompanhando Ip Man em Hong Kong enquanto tenta começar uma vida nova como professor de kung fu.

Essa é a forma como o tempo passa, abruptamente e de forma irrevogável, mas também como se estivesse em transe, com eventos que abalaram o mundo que vêm e vão, exaltando a amargura e a melancolia da história. Mas esses detalhes biográficos recebem menor destaque. Até mesmo as lutas não são o foco. O Grande Mestre está interessado na beleza angustiante de dois amantes separados por honra, dever e pelas inevitabilidades da história, movidos por desejos e arrependimentos que impulsionam suas habilidades e sua evolução marcial, mas que transformam seus laços em um sonho impossível.

O Grande Mestre

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