Filmes

Divergente

Quando completam 16 anos, todos os jovens precisam enfrentar um teste no qual devem escolher a facção para a qual dedicarão o resto de suas vidas. A personagem principal, Beatrice Prior, cresceu na Abnegação. Mas, durante os testes de aptidão, descobre que é algo mais. Ela é uma Divergente, algo temido nessa sociedade, que deve ser mantido em segredo se ela quiser permanecer viva. Após os testes, Beatrice faz sua escolha, surpreendendo a todos e a si mesma, e muda seu nome para Tris. Durante sua iniciação, ela é submetida a vários testes físicos extremos para se tornar mais forte e vencer seus medos, enquanto tenta definir quem são seus amigos e inimigos na nova etapa de sua vida e luta para manter seu segredo. Porém, em meio ao seu treinamento, Tris descobre conflitos que ameaçam essa sociedade teoricamente perfeita, e seu segredo, sua Divergência, pode ser a única forma de manter a paz, ou destruí-la de vez.

(Divergent) – Ficção Científica. Estados Unidos, 2014.

De Neil Burger. Com Shailene Woodley, Theo James, Ansel Elgort, Zoë Kravitz, Maggie Q, Jai Courtney e Kate Winslet. 2h19min. Distribuidora: Paris Filmes. Classificação: 12 anos.

Divergente


DIVERGENTE – RESENHA

Divergente adapta o primeiro livro da trilogia de ação futurista para jovens adultos escrita por Veronica Roth. A história do livro se passa numa versão distópica de Chicago depois que a sociedade foi dividida em cinco facções: Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição. O objetivo era conter os impulsos destrutivos da humanidade e consequentemente, estabelecer uma sociedade pacífica. Mas a paz nem sempre é tão simples.

O diretor Neil Burger (O Ilusionista e Sem Limites) é conhecido por criar filmes consistentes, cheios de floreios que normalmente são agradáveis, que nos envolvem na experiência de acompanhar a história. Divergente se alinha com as tendências de Burger e eu definiria exatamente dessa forma, um filme consistente que tem alguns floreios agradáveis, mas que nunca consegue uma experiência cinematográfica realmente inspiradora.

O filme é estrelado por Shailene Woodley como a protagonista badass Beatrice Prior, depois chamada de Tris; Theo James como Quatro, principal aliado de Tris e um dos membros mais respeitados da Audácia; Ansel Elgort como Caleb Prior, irmão de Tris; Zoë Kravitz como Christina, amiga de Tris durante a iniciação na Audácia; Maggie Q como Tori, que ajuda Tris a manter seu segredo durante a história; Jai Courtney, como um dos principais antagonistas da história, Eric, o líder sádico da Audácia; e Kate Winslet como Jeanine Matthews, líder da Erudição conhecida por publicar artigos contra a Abnegação (ex-facção de Tris).

O mundo distópico do romance de Veronica Roth é o elemento mais forte do filme, adaptado de forma instigante apesar do aspecto visual simplificado, provavelmente para se adequar a questões de orçamento. Muitas cenas claramente executadas em tela verde são pouco convincentes e alguns efeitos de computação gráfica são demasiadamente artificiais. O estilo de Burger, cujos floreios leves normalmente disfarçam as imperfeições, ajuda a sustentar os momentos mais surreais do filme, como as cenas do teste de medo, e isso fortalece o cenário.

Razoavelmente fiel ao livro, Divergente possui deficiências de história similares, mas que se tornam mais evidentes no cinema graças ao desenvolvimento reduzido dos personagens e de sua visão a respeito do mundo em que vivem. Os bons elementos da história estão na premissa intrigante, na protagonista forte e na abordagem de temas sobre a busca por uma identidade própria e a capacidade de desafiar a conformidade em favor da individualidade. Os dois primeiros atos são mais focados nessas bases de enredo, apresentando a adaptação de Tris a sua nova realidade em uma nova facção.

Burger é hábil em nos mostrar o mundo através dos olhos de Tris, as facções que a atraem e que não lhe interessam, os vislumbres dos questionamentos que a tornam fascinada ou culpada por gostar de uma ou outra facção que não a sua. Mas a segunda metade do filme é editada muito rapidamente, provavelmente para reduzir o tempo de execução, e o impacto de muitas cenas violentas — física e psicologicamente — é reduzido para se adequar as necessidades da classificação indicativa. Momentos-chave passam muito rápido, entre eles, por exemplo, a traição e a tortura que Tris sofre do amigo Al, e o que acontece depois disso. Violência em filmes como Divergente precisa de um equilíbrio difícil. O filme consegue ser equilibrado, mas como consequência perde grande parte da força de sua história.

Da mesma forma que no material de origem, o problema começa quando o foco principal se torna o romance entre Tris e Quatro. Os atores Shailene Woodley e Theo James têm química juntos, e criam alguns bons momentos de flerte discreto para a relação entre seus personagens. Mas quando a relação se consolida, a atmosfera do cenário perde toda a sua força. A história da jornada de auto-descoberta e fortalecimento de uma jovem mulher independente é abstraída em prol da premissa básica dos romances jovens adultos, em que beijar o menino resolve todos os problemas para a menina. Esse é um problema do livro, porém é mais diluído nas pressões mentais e emocionais exploradas pela personagem — o livro é narrado pelo ponto de vista de Tris. Mas no filme, não entramos na cabeça dela, por isso o foco no romance acaba simplificando demais um mundo que é bem mais complexo.

Outros dois grandes problemas, e esses são problemas de verdade, são relativos ao som do filme. Um deles é a trilha sonora equivocada no que diz respeito às músicas com vocal. As músicas cantadas por Ellie Goulding são boas, mas entram nos momentos errados, normalmente relacionados à Tris. Na ânsia de tornar as sequências de ação mais atrativas ao público jovem feminino — que é o público majoritário desse filme —, as canções são inseridas em cenas que deveriam causar impacto (físico e/ou emocional) e não sentimento de fofura. Essa “fofura” acaba com o clima do cenário — é mais ou menos o que acontece quando Demi Lovato surge cantando no filme Cidade dos Ossos, uma quebra total de clima.

Quando são cenas da facção Audácia, a coisa piora. A Audácia é mostrada o tempo todo como uma facção militarizada, com estilo visual meio punk rock, mas toda vez que toca uma música para ela, é um popzinho sem graça. Não rola um rock sequer. Já que o público é de jovens, e o filme certamente precisa estar afinado com essa galera, poderiam, sei lá, ter colocado pelo menos um Imagine Dragons. A música ”Radioactive” se adequaria maravilhosamente bem ao cenário. Mas nem isso. Nada de rock. Isso é frustrante.

Agora nada é mais frustrante do que assistir a um filme dublado com uma dublagem ruim. Não tenho problema em ver filmes dublados, nem um pouco. Mas se sou obrigado a ver um filme dublado, pelo menos que a dublagem seja de qualidade. Não é o caso de Divergente. Fomos obrigados a assistir ao filme dublado na sessão de imprensa, e isso certamente atrapalhou bastante a experiência. Especialmente porque não fomos avisados e só descobrimos sobre a dublagem na hora que o filme começou. Dublagem ruim somada a uma trilha sonora mais ou menos, fica difícil. Eu não fui avisado, e gostaria de ter sido. Por isso, estou avisando. A dublagem é ruim. Se você preferir ver o filme dublado mesmo assim, a opção é sua. Se não, você pode assistir com som original e legendas. A escolha é sua.

Nem toda a trilha sonora do filme está perdida, contudo. A trilha instrumental é composta por Junkie XL e Hans Zimmer, e essa sim funciona. As cenas em que a música entra sem vocal, apenas com instrumental, são mais eficientes e passam bem as sensações e emoções que querem passar. O terceiro ato, além de ser mais impactante em termos de história, é todo dominado apenas pela trilha de Junkie XL e Hans Zimmer, fator que devolve a história ao eixo, tornando o filme melhor em seus momentos finais.

Há ainda o elenco de apoio, que pouco acrescenta na verdade. Nomes talentosos como Maggie Q, Jai Courtney, Ray Stevenson, Mekhi Phifer, Tony Goldwyn, Miles Teller e Zoë Kravitz aparecem apenas para ser figuração de luxo, com personagens secundários extremamente básicos e superficiais — o livro se preocupa em aprofundá-los, o filme não, o que é até compreensível para evitar que a duração seja muito grande. Kate Winslet e Ashley Judd são eficientes — na medida do possível — em seus papéis como a líder calculista da Erudição e a mãe de Tris, respectivamente, mas assim como os outros, só estão de passagem pela trama.

Divergente trabalha cenário e premissa criados nos livros de forma interessante, através da visão de sua personagem principal, que é igualmente interessante. O problema é que os aspectos positivos da história em si são suplantados por aspectos negativos normalmente associados às adaptações de livros de jovens adultos. O enredo é apresentado da forma mais rasa e simples possível, com uma trilha sonora fraca. O ponto de vista conflitante da protagonista é suprimido para dar foco ao romance adolescente da história. O romance é importante, especialmente nesse tipo de história, mas numa distopia, os conflitos também precisam ser sobressaltados. Em uma história cujo principal argumento é a luta contra a conformidade, o maior pecado é se conformar em ser um filme para jovens adultos como tantos outros que já existem.

Divergente

Divergente

Divergente

Compartilhe este Post

Posts Relacionados



  • Michelle

    Amigo, ame a sua critica. Comparada a de outros sites de filmes, foi a melhor.
    Achei que o filme é bem superficial, mas como já tinha lido o livro, minha opinião esta influenciada pelo detalhamento da leitura.
    Mas, num geral, achei bom.

Resenhas Populares

Rogue One: Uma História de Star Wars

Rogue One: Uma História de Star Wars

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Raw

Raw

Capitão Fantástico

Capitão Fantástico

O Homem nas Trevas

O Homem nas Trevas

Nível Épico em Imagens

Google Plus

Facebook

SoundCloud