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Capitão América: O Soldado Invernal

No ano de 2008, com a estreia de Batman: O Cavaleiro das Trevas, muita coisa mudou para os filmes baseados em quadrinhos. O diretor Christopher Nolan, ao invés de criar um simples blockbuster de ação, criou uma história densa sobre um herói atormentado, que precisava lidar com problemas que iam além do que enfrentar um punhado de vilões maníacos. Nesse mesmo período de tempo, a Marvel Studios construiu seu universo cinematográfico compartilhado, deixando uma marca igualmente impactante. As histórias de super-heróis da Marvel ganharam contornos mais coloridos e bem-humorados, ao invés de sombrios e dramáticos, mas o drama de seus personagens ainda existe, e vêm sendo trabalhado de forma mais frequente na Fase Dois de seus filmes. Depois da estreia de Os Vingadores, o universo da Marvel se consolidou de vez, estendendo-se para diversas mídias e ganhando ainda mais tonalidades em seus contornos.

Capitão América: O Soldado Invernal (Captain America: The Winter Soldier, EUA, 2014) assume essas tonalidades com mais força e profundidade que seus antecessores da Fase Dois — Homem de Ferro 3 e Thor: O Mundo Sombrio — e de muitas maneiras revela-se o maior filme da Marvel a representar as mudanças que tornaram os filmes baseados em quadrinhos tão bem-sucedidos e impressionantes. Parte suspense de conspiração política no estilo anos 70, com temas contemporâneos sobre vigilância do governo e ataques preventivos, e parte aventura grandiosa com heróis coloridos e ação espetacular, o filme é tudo que poderíamos querer de um filme de quadrinhos e é facilmente um dos melhores filmes da Marvel até agora. O melhor depois de Os Vingadores. Além de ser o grande começo da jornada rumo ao filme Os Vingadores 2.

Capitão América: O Soldado Invernal

Após os eventos cataclísmicos em Nova Iorque, Steve Rogers (Chris Evans) está vivendo tranquilamente em Washington DC e tentando se adaptar ao mundo moderno. Mas quando um companheiro da S.H.I.E.L.D. é atacado, Steve se vê envolvido numa teia de intrigas que ameaça colocar o mundo em risco. Capitão América, então, une forças com a Viúva Negra (Scarlett Johansson) para expor essa conspiração, enquanto luta contra assassinos profissionais enviados em seu encalço. Em sua missão, eles contam com a ajuda de um novo aliado, o Falcão (Anthony Mackie), mas precisam enfrentar um inimigo inesperado e poderoso.

O Soldado Invernal é um arco dos quadrinhos do Capitão América que conta a história do reencontro entre Steve Rogers e seu melhor amigo, Bucky Barnes (interpretado no filme por Sebastian Stan), que não morreu no final da Segunda Guerra Mundial. Bucky, na verdade, foi encontrado quase morto e transformado num assassino programado. Seu braço esquerdo foi substituído por uma prótese biônica. Bucky é usado como arma de tempos em tempos, mas para prevenir seu envelhecimento, seus captores o mantém em animação suspensa nos intervalos entre as missões — e por atuar apenas de vez quando é que ele recebeu o nome de Soldado Invernal. Depois de passar décadas desativado, o Soldado Invernal ressurge no presente e Rogers se vê obrigado a enfrentar seu amigo. Publicada em 2005, essa é uma das melhores histórias do Capitão América. O filme faz um ótimo trabalho em adaptar as ideias da HQ para o universo cinematográfico desenvolvido pela Marvel Studios, inserindo o Soldado Invernal em um contexto mais atual e criando um inimigo palpável não apenas para o Capitão América, mas também para a S.H.I.E.L.D.

Anthony e Joe Russo dirigem o filme, que também possui no elenco Cobie Smulders como a agente da S.H.I.E.L.D. Maria Hill; Frank Grillo como o vilão Brock Rumlow/Ossos Cruzados; Toby Jones como Arnim Zola; Emily VanCamp como Sharon Carter, uma agente de elite da S.H.I.E.L.D que é sobrinha de Peggy Carter (que foi interpretada por Hayley Atwell no primeiro longa); e o mothafucker Samuel L. Jackson como o mothafucker Nick Fury.

A continuação, além de história de conspiração e espionagem, também é bastante interessada em construir Steve Rogers como personagem, que além de travar uma batalha grandiosa contra um inimigo poderoso, precisa travar uma batalha com suas próprias limitações em um mundo ao qual ainda não está acostumado. Isso é tratado tanto com peso dramático — pelas interações de Rogers com Peggy Carter, hoje uma mulher idosa e de saúde deficiente — quanto com bom humor — é muito engraçado ver as anotações de Rogers sobre “coisas” do mundo moderno que ele precisa conhecer, que incluem ícones da cultura pop como Star Wars até galhofas sensacionais como Chaves e Mamonas Assassinas.

Bem roteirizado, dirigido e editado, uma marca evidente dessas qualidades é a sensação de familiaridade que nos passa. Nada é estranho. Quando o filme termina, dificilmente encontramos um cena que não tenha se encaixado ou servido a um propósito no desenvolvimento do enredo. O filme remete bastante aos tempos que Stan Lee escrevia as histórias do personagem, misturando espionagem, heroísmo e dramas pessoais, enquanto Jack Kirby aplicava seu estilo de desenho dinâmico e raivoso nos combates. O roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely é tenso e bem estruturado, com camadas de mistério que se desenvolvem aos poucos, levando a um terceiro ato grandioso — como apenas um filme da Marvel sabe ser — e repleto de consequências importantes, não apenas para o Capitão América, mas para todo o universo da Marvel, no cinema e na televisão.

Capitão América: O Soldado Invernal tem um grande impacto sobre o que acontecerá daqui para frente, especialmente em Os Vingadores 2 e na série Agents of S.H.I.E.L.D. Cada cena que não se relaciona diretamente com a trama principal acrescenta numerosas camadas aos personagens e às suas relações, desde o primeiro encontro entre o Capitão América e o Falcão durante uma corrida até o momento em que acompanhamos o super-herói que se tornou um ícone aprendendo mais sobre seu próprio passado heroico numa exposição, passando por sua relação crescente de amizade com a Viúva Negra e sua dificuldade em convidar sua vizinha para sair.

Ao lado do Capitão América temos um elenco fantástico de personagens coadjuvantes que são usados de forma eficiente, tanto em termos de adaptação dos quadrinhos para o cinema quanto na forma como eles ajudam a aprofundar o enredo do filme. A Viúva Negra de Scarlett Johansson está de volta ao lado do Capitão América e desempenha um contraponto perfeito para o herói, com sua visão de que nem tudo é preto e branco e que quando se trata de moralidade sempre existem tons de cinza. O Nick Fury de Samuel L. Jackson, depois de várias aparições pontuais nos filmes, enfim aparece como parte essencial da trama, em um papel mais amplo dentro da ação e das implicações da história. O novato no grupo é o Falcão de Anthony Mackie, um soldado aposentado que costumava ser parte de uma unidade especializada de paraquedistas, que além de carismático aparece bastante à vontade em cena.

A força dos personagens se deve em grande parte aos atores, que estão cada vez mais confortáveis em seus papéis. Evans transmite empatia e liderança por passar a seriedade honrada de seu personagem de modo heroico mesmo em um mundo profundamente cínico. Johansson e Jackson exploram com profundidade os aspectos de seus personagens como heróis clandestinos que sempre usam subterfúgios para concluírem seus objetivos, enquanto o recém-chegado Mackie demonstra uma química incrível com Evans desde o começo e reforça o laço de amizade e companheirismo que se forma entre os dois.

Os vilões do filme são de extrema importância para os mistérios conspiratórios da trama, e o mais impactante é o Soldado Invernal de Sebastian Stan. Como um assassino que sofreu lavagem cerebral, o personagem é tratado de forma simples e direta, já que muita de sua personalidade está suprimida, mas ele tem uma grande presença na história, fisicamente e tematicamente. O Soldado Invernal surge como um inimigo a altura do Capitão América, capaz até de rivalizar com o escudo do herói usando seu braço biônico. Mais do que isso, ele representa um fantasma de passado do herói, que voltou para assombrá-lo da pior maneira possível, o que torna ainda mais difícil a adaptação do Capitão América ao mundo moderno. É difícil olhar para o presente quando se tem tantas pendências do passado para resolver. Ainda mais quando se é um grande herói.

Capitão América: O Soldado Invernal é um dos mais emocionantes da Marvel até agora, por todas as suas características, como filme de super-herói, filme de espionagem e filme de ação. Os irmãos Russo, que vieram principalmente de comédias para a televisão como Community, não tinham experiência com filmes grandiosos antes, mas são extremamente eficientes na composição das cenas de ação e drama, com perseguições de carro alucinantes, combates corpo-a-corpo apurados, e várias sequências épicas que se encaixam perfeitamente dentro da proposta mais contida do filme. Os diretores captam cada golpe e cada movimento de forma enérgica e precisa — o vigor é tanto que lembra justamente a época de Jack Kirby nos desenhos do personagem. Socos e chutes, defesas com escudo, corridas e saltos, amizades e traições, tudo é espetacular e intenso, expandindo a aventura divertida sobre honra e dever de Capitão América: O Primeiro Vingador em algo maior e mais adaptado a conceitos e ideais contemporâneos. Como é com o próprio Capitão América.

PS: Existem duas cenas nos créditos, uma no meio e outra no final. A cena do meio é a mais importante, pois expande um pouco mais o Universo Marvel no cinema e abre caminho para o filme Os Vingadores 2. A cena final tem valor como um fechamento para a história do próprio Capitão América nesse filme, além de ser um desfecho interessante.

Capitão América: O Soldado Invernal

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  • Wiliam

    O Soldado Invernal é meu vilão favorito das adaptações para cinema da MARVEL, Ele me lembra muito o Capuz Vermelho de Batman pela Frieza e tom de fantasma que assombra aquele que era seu fiel companheiro.. Realmente o melhor filme até agora, deixa pra trás ao meu gosto até Os Vingadores! A matéria tá excelente Parabéns!!

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