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Noé

Provavelmente quando comentam sobre um filme épico baseado em uma história bíblica, a primeira imagem que vem à cabeça é a de Charlton Heston com uma barba branca exageradamente falsa, um olhar severo, braços abertos, enquanto o Mar Vermelho se abre em uma das cenas mais icônicas do cinema mundial, durante o filme Os Dez Mandamentos, de 1956, dirigido pelo mestre dos grandes épicos, Cecil B. DeMille. Desde então raramente um filme com tal temática causou curiosidade, até o controverso diretor Darren Aronofsky decidir que iria filmar a história de Noé, personagem que o fascina desde seus 30 anos, quando ele passou a estudar sobre ele.

Quem espera um longo filme bíblico com mensagens maniqueístas e edificantes, se surpreenderá com a visão sombria e complexa do diretor, que se aprofunda na discussão sobre o mito, levantando questões filosóficas pertinentes a qualquer ser humano. Desde a época em que Aronofsky realizou Fonte da Vida, em 2006, que ele já pensava e trabalhava no projeto ao lado do roteirista Ari Handel. Antes de conseguir o financiamento necessário para que o filme ganhasse a forma que ele desejava, o diretor e o roteirista se uniram ao artista plástico Niko Herinchon e adaptaram o roteiro em uma Graphic Novel, lançada em 2011, na Bélgica com o título: Noé Tome 1: Pour la cruauté des hommes (Noé Tomo 1: Por causa da maldade dos homens). Mais três deveriam seguir esse primeiro livro, que conta o início da história de Noé. Esse projeto abriu as portas para sua ideia original, um filme épico, que ganhou um orçamento de 130 milhões de dólares. Com isso, Noé (Noah, EUA, 2014) começou a ser realizado no norte da Islândia, que apresenta o cenário perfeito para a Terra do início dos tempos de Aronofsky, que também poderia ser um mundo pós-apocalíptico.

Noé

Profeta que é citado em textos da maioria das religiões, não apenas cristã e judaica, como também islâmica, gnóstica, hindu e até em alguns mitos antigos da Grécia e Mesopotâmia, Noé inspirou Aronofsky exatamente por estar presente em tantos textos considerados sagrados. Seu filme parte da linha ideológica principal que aparece no Gênesis da Bíblia, em que Noé é um homem de fé, que procura levar uma vida correta, principalmente por preocupar-se com o futuro de sua família. Uma noite tem um sonho no qual Deus lhe mostra que enviará um diluvio que inundará e destruirá tudo. Seu papel é construir uma arca que abrigará pares de todas as espécies animais existentes, até que a terra seque e eles possam voltar a viver livremente.

O Noé do diretor é bem mais humano do que profeta. Interpretado por Russell Crowe, ele convive com a natureza de forma consciente, utilizando apenas o que precisa para seu sustento, o que dá um tom ecológico ao filme de forma sutil e atual. Noé não come carne, não colhe mais do que precisa e vive de forma simples com apenas aquilo que é necessário para prover sua família. Nômade, vive em um mundo hostil e árido, que é regido por homens selvagens, os mesmos que mataram seu pai. Devoto de um ser superior que dita seu modo de vida, – em nenhum momento do filme Noé refere-se ao Criador como Deus – ele acredita ser descendente direto do primeiro casal que povoou a Terra: Adão e Eva. Após um sonho, Noé decide ir atrás de seu avô, Matusalém (Anthony Hopkins), com sua família, sua esposa Naameh (Jennifer Connelly), e seus três filhos: Shem (Douglas Booth), Ham (Logan Lerman) e Japheth (Leo McHugh Carroll). No caminho encontra uma tribo que foi dizimada, da qual apenas uma menina sobreviveu, Ila (Emma Watson), de quem Noé e Naameh decidem cuidar.

Ainda em sua busca, Noé é atacado por selvagens e sua única chance de sobreviver é atravessar a terra dos anjos caídos, seres grandiosos feitos de pedra, nomeados como Guardiões. São seres que abominam os humanos porque esses tentaram escravizá-los, e por essa razão ninguém atravessa as terras deles. Mas Matusalém os ajudou no passado, por isso eles aceitam ajudar Noé em sua busca por seu avô. Quando encontra Matusalém, Noé conta-lhe que o Criador o mostrou em um sonho sobre o grande dilúvio e que é seu dever construir uma arca onde possa alojar os pares de todos os animais existentes no mundo para que se salvem. Ele também acredita que esse é plano do Criador para acabar com os homens. Seu avô lhe presenteia com uma semente e Noé volta para sua família e para junto dos Guardiões, que ainda têm dúvidas sobre ele ser O escolhido. Ao plantar a semente no solo árido, uma fonte de água brota e um bosque surge em volta do acampamento da família de Noé. Nesse momento os Guardiões decidem ajudá-lo na construção da Arca e a proteger sua família.

Oito anos depois, a Arca está quase completa e seus filhos crescidos. Shem e Ila são um casal, mas por causa de um ferimento, ela é infértil. Ham sempre se mostrou curioso e um pouco relutante em acreditar em tudo que seu pai fala. Um dia um homem, Tubal-Caim (Ray Winstone), se apresenta como rei daquelas terras e monta acampamento perto de onde está sendo construída a Arca, por acreditar que ele também merece ser salvo. Noé o reconhece como o homem que matou seu pai. Quando a tempestade começa, os homens de Tubal-Caim decidem atacar Noé para conseguirem entrar na Arca. Por fim, as águas tomam tudo e Noé e sua família enfrentam meses de reflexão, dúvidas e provações, por conta de uma surpresa que eles não esperavam.

Essa sinopse já mostra o quanto Aronofsky e Handel modificaram a história original. Na verdade o diretor estudou todos os textos que encontrou sobre o assunto e a partir deles criou sua história, que mistura fantasia, guerra e reflexão. Os Guardiões, anjos caídos, que seriam reconhecidos como demônios pelos textos cristãos, são claramente baseados no mito judaico dos Golems, seres criados da terra, do barro, que estão ligados diretamente ao Criador. São esses seres que dão o tom (mais) fantasioso ao épico do diretor.

Porém, ao assistir ao filme, percebe-se que apesar das pesquisas e estudos de Aranofsky, Noé é o filme menos bíblico dos filmes bíblicos. Sua intenção, assim como em seus outros projetos anteriores, é debater os conflitos pessoais enfrentados por seus personagens. O Noé de Aronfsky é um homem atormentado, por ter testemunhado a morte de seu pai, por acreditar que é o escolhido do Criador, por crer em sua fé acima de tudo e tornar-se cego por ela. Seu crescente desespero por ser correto e merecedor de sua missão o tornam um fanático, que não pouparia nem sua própria família em retorno de sua redenção eterna.

Esse Noé humanizado, que luta por sua crença extrema e que depois duvida de si mesmo como merecedor de ser descendente direto de seu Criador (como ele acredita), incomodou radicais islâmicos, que notaram que o filme poderia levar a uma auto reflexão sobre as imposições por parte dos povos que são submetidos a elas. Por isso o filme foi proibido em países que vivem sob essa religião. Por outro lado, radicais criacionistas criticaram o filme por não mostrar a “verdadeira história”, ao misturar os ideais religiosos a um mundo nitidamente em evolução natural, misturando religião e ciência.

Essa característica fica clara na cena de abertura do filme, que mostra a Terra ainda com alguns continentes ligados. No céu ainda há nebulosas muito próximas, possíveis de serem vistas a olho nu e muitas estrelas, que levam a crer que aquele é um céu de um planeta novo, ainda em formação. O próprio dilúvio não acontece apenas por causa de uma tempestade que durou meses, mas também como terremotos. São fatos que mostram a preocupação de Aronofsky em criar uma história que mostrasse o mundo ainda em formação, já que Noé é considerado um profeta do início dos tempos.

Tudo é metafórico, nada é real e nem é a intenção do filme de provar ou não a existência do personagem. Seu principal ponto é refletir sobre um homem de fé e até onde ele iria por sua fé. Discutir, mais uma vez, os limites e barreiras que o ser humano cria para si mesmo, podendo ser através da ciência, das drogas, dos limites do próprio corpo, de seus medos e principalmente através de suas crenças, que podem ou libertar, como em Fonte da Vida, ou aprisionar, como em Noé. Uma discussão que vai muito além da religião, ou qualquer outra crença, por ser inerente ao ser humano, o fato de estar sempre duvidando de si mesmo, de precisar viver e superar conflitos internos.

A realização do filme Noé, é a maior prova de superação de Aronofsky, que desde a criação da Graphic Novel, havia decidido que esse deveria ser um grande épico. Por isso se comprometeu com um grande estúdio, e precisou fazer algumas concessões pra poder justificar seu orçamento de 130 milhões. O filme deveria ser menor, mas o diretor provou, através de exibições fechadas, que seu filme deveria ser como ele idealizou. Lutou, comprometeu-se e por fim conseguiu. Noé é seu primeiro grande projeto, que consegue, mesmo dentro de sua grandiosidade, ser um filme intimista, extremamente reflexivo. Mesmo com seu visual apocalíptico que poderia ser tanto no início dos tempos como em um futuro desolador. Mesmo com seus seis enormes monstros de pedra, suas cenas de luta e seus animais criados totalmente por computador, considerados um dos maiores desafios da Industrial Light & Magic. Mesmo com todos esses elementos que o tornam um filme de grande orçamento, Aronofsky, assim como Noé, não aceitou mudar o que acreditava. Noé é exatamente o filme que deveria ser: mais um belo acerto do diretor.

Noé

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