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Até o Fim

Até o Fim (All is Lost, EUA, 2013) é o segundo trabalho do diretor e roteirista J.C. Chandor (Margin Call: O Dia Antes do Fim) e se mostra uma grande conquista por ser minimalista ao extremo. O filme apresenta como único ator do elenco Robert Redford em uma difícil jornada de sobrevivência pelo Oceano Índico. Redford, cujo personagem nunca tem o nome revelado, é um iatista que estava viajando em seu barco, Virginia Jean, quando se choca em um container de transporte perdido no oceano. Com um buraco no casco do barco, o iatista cuida para reparar o dano, mas logo percebe que está perdido no mar, fora do rumo original de sua viagem. Sem alternativas, ele procura uma forma de sobreviver até que consiga recuperar seu rumo ou até que seja resgatado. O problema é que sobreviver em alto-mar é uma tarefa árdua e os desafios são muitos.

Até o Fim

No início, o personagem de Redford não parece muito incomodado com os percalços, mas seu estoicismo logo é testado quando ele se vê em meio à fúria de tempestades impressionantes. A abordagem precisa de Chandor ao drama e ao conflito do iatista é aumentada a cada novo desafio, com exímia qualidade técnica e dedicação formal, impulsionado por um desempenho forte de Redford, que exibe o tipo de paixão estoica misturada com retidão excessiva que se espera de uma pessoa disposta a desbravar oceanos, especialmente quando tudo dá errado o tempo todo. Porque TUDO dá errado O TEMPO TODO.

A tarefa de atuar em um filme sozinho e sem diálogos — exceto uma ou outra fala — pode ser tão árdua quanto sobreviver às intempéries do mar, mas Até o Fim mostra que um ator de cacife como Robert Redford é capaz de superar os obstáculos com excelência. Além disso, revela J.C. Chandor como um diretor de talento promissor no cinema atual.

Chandor é respeitoso com seu único personagem e com os obstáculos naturais que ele precisa enfrentar, criando em nós, espectadores, uma sensação de credibilidade e solidariedade para com a luta de sobrevivência do iatista. O diretor foca nos pontos fortes de Redford: o rosto desgastado, a determinação calma, e o desprendimento com relação às necessidades convencionais de uma pessoa. Redford, por sua vez, se entrega sem medo às exigências físicas e psicológicas de sua performance. Os esforços do diretor e do ator são ainda auxiliados pelo trabalho de Frank G. DeMarco, cuja fotografia cria um bem-vindo efeito de contraste entre a vastidão do oceano e os espaços apertados de decks internos do barco ou do bote salva-vidas.

O filme começa com o personagem de Redford narrando uma carta que ele escreveu como um pedido de desculpas a um destinatário desconhecido. Não fica claro se a carta é para um ente querido ou para si mesmo ou para algo que pudesse confortar sua alma — como Deus —, mas isso também não é tão relevante. Até o Fim não possui um pano de fundo, e não se preocupa com isso. “Nosso homem” — o personagem de Redford é chamado nos créditos de “Our Man” — é apenas um homem, despido de passado, crenças ou conceitos sociais, tentando sobreviver a um momento de crise. Pois quando se precisa lutar pela sobrevivência, somos todos simples e iguais. O que importa é a luta.

Até o Fim soa levemente como Gravidade, por apresentar uma narrativa que nos remete ao nascimento/renascimento, em que um homem sem nome e sem história sai da escuridão salina da água para a luz branca e seca do mundo, puxado por uma mão sem rosto. O que vem depois é o nome, o aprendizado e a própria vida. Simples assim. O minimalismo é como uma alegoria contundente para a vida. Mas também é uma grande Odisseia, em que “Nosso Homem” precisa enfrentar os monstros de uma longa viagem para sobreviver, monstros bem reais da natureza. Se fosse para escolhermos um nome para “Nosso Homem” certamente seria Odisseu.

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