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Tudo Por Um Furo

O filme original, O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy, lançado em 2004, passou despercebido por muita gente, mas foi sem dúvida bem-sucedido por sua abordagem bizarramente engraçada sobre a misoginia no jornalismo dos anos 70 e sobre os exageros comuns aos veículos de imprensa da época — exageros que até hoje podem ser encontrados nos meios jornalísticos, especialmente na televisão.

Isso tudo somado a uma representação simbólica sensacional da eterna briga desesperada pela audiência entre os veículos, quando representantes de várias emissoras de TV, incluindo o time de Ron Burgundy, se encontravam para uma batalha medieval épica no meio da cidade, com direito a armas, armaduras, espadas, manguais, cavalos e muita sanguinolência. A cena inesperada não era sensacional apenas pela galhofa metafórica, mas por ser encabeçada pelas participações de vários atores conhecidos de comédia, como Ben Stiller, Owen Wilson e Vince Vaughn.

Tudo Por Um Furo

Tudo Por Um Furo (Anchorman 2: The Legend Continues, EUA, 2013) surgiu com a intenção de continuar essa história bizarra de jornalismo apoteótico e guerra desenfreada pela audiência, expandindo o cenário criado pelo primeiro em algo ainda mais caótico/constrangedor/bizarro/sensacional — tudo isso no bom sentido. São poucas as continuações que conseguem melhorar em relação ao primeiro, especialmente quando se trata de comédia, mas esse é um dos casos. A sequência do filme de Adam McKay — que outra vez assume roteiro e direção — é uma mistura incoerente de piadas grosseiras impagáveis, amarradas a um enredo non-sense que mais parece uma sucessão de esquetes de stand-up comedy e sem qualquer compromisso de continuidade, culminando em um nível de galhofa ainda mais absurdo que o primeiro — e que garante umas boas gargalhadas.

Isso claro sem ignorar a sátira aos exageros do jornalismo, que nessa continuação, além de focar nos jornalistas em si e em suas concepções muitas vezes deturpadas de notícia e valores, também foca na forma jornalística e em como muitos formatos de abordagem da notícia foram ganhando destaque ao longo dos anos, como as transmissões ao vivo de perseguições policiais. Tudo de forma bastante debochada.

Na trama, o adorado âncora de telejornal Ron Burgundy (Will Ferrell) e sua esposa e parceira de bancada Veronica Corningstone (Christina Applegate) estão no auge de sua carreira, cobrindo notícias de fim de semana em todo o país como co-âncoras na sede de uma grande emissora de Nova York. Mas quando o casal é convidado a se reunir com o aposentando âncora do horário nobre da rede (participação especial de um ator que não vou dizer quem é), Corningstone é promovida, tornando-se a primeira âncora mulher a liderar um boletim de notícias no país. Burgundy, no entanto, é demitido e ridicularizado. Abatido e amargurado, Burgundy acaba brigando com Corningstone e se separa da mulher.

Sem perspectivas de emprego em Nova York, Burgundy volta para San Diego (deixando seu filho de sete anos para trás), onde ele, deprimido e bêbado, torna-se apresentador de um show de golfinhos. Isso até ser contatado por um produtor de TV que pretende mudar a forma de fazer jornalismo na televisão para sempre, criando um ciclo de notícias de 24 horas de exibição. Burgundy é convidado para essa empreitada e aceita, desde que possa trazer sua própria equipe. Com seu objetivo renovado, ele reúne sua antiga equipe — Champ Kind (David Koechner), Brian Fantana (Paul Rudd), e Brick Tamland (Steve Carell) — e juntos eles partem em uma jornada para dominar a audiência nacional como parte da recém-fundada GNN.

Tudo Por Um Furo chafurda no humor pesado e sem restrições justamente para mostrar o quão grotesco e desastroso pode ser a falta de valores morais, e como isso pode ser prejudicial ao jornalismo e à sociedade. Ao contrário da misoginia dos anos 70 explorada no primeiro filme, o segundo toca na questão do racismo no ambiente de trabalho na década de 80, com a introdução de Linda Jackson, produtora afro-americana do canal GNN, interpretada por Meagan Good. A sátira sobre o racismo não é tão mordaz como era com a rivalidade homem/mulher do primeiro filme, mas ainda cumpre seu papel dentro das críticas sociais que o novo filme tem a oferecer.

Os fãs do original — o que me inclui — provavelmente vão gostar de ver a equipe de reportagem de volta à tela para mais diversão. Os personagens continuam tão exagerados quanto possível e dessa vez, as situações vividas por eles são igualmente tão exageradas quanto possível. Um exemplo é logo depois que Ron Burgundy termina de reunir seu time de rapazes, e eles estão voltando pela estrada, numa van, relembrando momentos do passado, todos juntos na parte de trás da van, bebendo e conversando e se divertindo, e ninguém dirigindo. Ninguém. Está. Dirigindo. A cena é sensacional e o desfecho dela é hilário.

Outro caso é a sequência final, que mais uma vez culmina em uma batalha medieval épica no meio da cidade — dessa vez no meio de um parque —, e que também conta com participações especiais de vários grandes atores e humoristas — que eu não vou dizer quem são para não estragar sua surpresa quando eles forem revelados. A batalha dessa vez é maior, repleta de canais novos — revelando o grande aumento na quantidade de emissoras de TV ao longo dos anos 70/80 —, e com muitas novidades criativas e non-sense. Se você, como eu, gostou da batalha medieval épica do primeiro, prepare-se para derreter quando assistir à batalha medieval épica do segundo. Eles conseguiram se superar.

Cabe destacar também o personagem Brick (Steve Carell), que recebe um papel ligeiramente ampliado nessa continuação à medida que persegue Chani (Kristen Wiig), que trabalha como telefonista da GNN e possui uma personalidade igualmente infantil. A história do romance de Brick possui algumas poucas cenas fora do arco principal da história, mas vale a pena graças a interação peculiar e cativante entre Wiig e Carell. Ainda que o filme reincorpore Champ e Brian, os atores David Koechner e Paul Rudd têm pouco a fazer, com apenas algumas raras cenas em que se destacam por conta própria. No geral, a continuação de O Âncora é conduzida e plenamente focada em seu apresentador-chefe, Will Ferrell, que permanece cômico e absurdamente exagerado com seu personagem.

O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy tinha construído uma boa base para uma franquia, com personagens simpáticos, diálogos impagáveis, discussões sociais e piadas non-sense, facilmente transformando o filme em um clássico moderno da comédia. Tudo Por Um Furo expande esse universo e satiriza um pouco mais tudo o que o primeiro filme construiu. Como filme de comédia, é bem-sucedido principalmente por ser uma continuação que consegue se sair melhor do que muitos correspondentes contemporâneos, graças às performances divertidas de seu elenco e às situações bizarras para se rir alto. A lenda de Ron Burgundy definitivamente continua. O bigode também.

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