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RoboCop – Versão 2014

O icônico filme de 1987, dirigido por Paul Verhoeven, era uma sátira violenta ao consumismo norte-americano, que adicionava profundidade e credibilidade a uma premissa simples, em que um policial se tornava um robô e saía às ruas para combater o crime de uma Detroit decadente e falida. Reverenciado pela população, RoboCop logo se tornou uma espécie de super-herói. O filme de Verhoeven tinha a marca dos anos 80, sem dúvida.

O novo RoboCop (EUA, 2014), dirigido por José Padilha — o cara da Tropa de Elite —, é um filme com uma marca mais próxima da nossa realidade, dos anos 2010, que aborda ideias de ficção científica que são discutidas atualmente, ou se tornarão discutidas num futuro próximo. Ao contrário da versão clássica, que era muito mais ficção, essa nova versão aborda uma realidade mais de fatos científicos, talvez mais próxima do que vivemos hoje do que gostaríamos de acreditar.

RoboCop

Padilha faz uma abordagem diferente para reintroduzir com sucesso o personagem para o público moderno. O ano é 2029 e o conglomerado multinacional OmniCorp está no centro da tecnologia robótica. Seus drones estão ganhando guerras americanas ao redor do globo e agora eles querem trazer essa tecnologia para dentro de casa. Alex Murphy (Joel Kinnaman) é um marido dedicado, bom pai e bom policial, e faz seu melhor para conter a onda de crimes e corrupção em Detroit. Depois que ele é gravemente ferido no cumprimento do dever, a OmniCorp utiliza sua notável ciência robótica para salvar a vida de Alex, transformando-o num policial cibernético com o que há de mais avançado em termos tecnologia.

José Padilha explora nesse filme questões como o homem dentro da máquina, e também sobre quem está por trás das armas que promovem matanças nas guerras. De acordo com o próprio diretor, quando um policial comete um erro e atira numa criança, você pode julgar o homem por trás do policial, mas se um robô mata uma criança, você não pode julgar o robô. A questão de onde está a culpa é uma das temáticas do filme. Robôs não podem puxar o gatilho no interior dos Estados Unidos (segundo a lógica do cenário) porque eles não podem ser responsabilizados, então, colocaram um homem dentro da máquina e, por isso, eles mantêm a mão humana na máquina. Assim, alguém pode ser responsabilizado.

Assim como Tropa de Elite tinha muitas questões e críticas sociais, RoboCop também tem. Padilha brigou bastante por seu filme, e mostrou para os executivos do estúdio MGM que podia vender um filme de entretenimento com conteúdo e teor político. RoboCop é exatamente isso. Assim como seu protagonista, Padilha também precisou enfrentar seu próprio duelo contra os interesses de uma grande corporação, e foi bem-sucedido. É um filme com a marca indiscutível de Padilha. Já merece respeito apenas por isso.

A narrativa é fortemente focada na experiência existencial de Alex Murphy enquanto passa pela transição de um homem de família para um ciborgue (teoricamente) a serviço da polícia. Esse processo, contudo, ainda é influenciado pelos interesses da OmniCorp, que mexe com suas funções cognitivas, aos poucos reprimindo sua humanidade, a fim de oferecer o melhor produto possível em termos de robótica militar. A OmniCorp não deseja apenas uma máquina, deseja um material que possa ser usado como publicidade a favor do uso de robôs dentro do território dos Estados Unidos. Ao longo do filme, enquanto acompanhamos o redescobrimento de Alex Murphy, testemunhamos as jogadas de marketing da OmniCorp para vender o RoboCop ao povo americano, de modo que as pessoas o aceitem no país, derrubando assim a lei que impede robôs de atuarem em solo estadunidense.

O novo RoboCop não joga apenas com os aspectos super-heroicos e de ficção científica de seu personagem principal, ele trabalha inteligentemente com debates sobre a utilização de drones, questões sobre massificação da publicidade e sobre a capacidade da mídia para influenciar as opiniões das pessoas. A história é oportuna, visto que trata de discussões pertinentes à sociedade atual, e também por explorar questões interessantes que Verhoeven não teve a chance de considerar em seu filme.

O desempenho de Kinnaman não é tão icônico como Peter Weller (ator do original), mas ele é eficiente e passa credibilidade como Alex Murphy, capturando os diferentes aspectos das mudanças que o personagem sofre, passando de um policial impulsivo e humano a uma máquina sem alma, e aos poucos sobrepujando seus sistemas para voltar a sentir sua humanidade. O trabalho sério de Kinnaman, que é conhecido pela série The Killing, promove uma mistura convincente entre homem e máquina, auxiliada por cenas fortes dos componentes orgânicos que se escondem por baixo da armadura mecânica, por linhas de diálogo icônicas — referências às frases de efeito do RoboCop original —, e pelo uso sensacional da música-tema do filme de 87 — elementos que juntos estimulam o sentimento de heroísmo e acentuam a humanidade do personagem.

No que diz respeito à máquina, o novo RoboCop é uma versão melhorada do original — cuja clássica armadura aparece em uma referência quando o assessor de marketing da OmniCorp mostra num telão de que maneira a empresa pode vender o robô como brinquedo para as crianças. Padilha promoveu vários upgrades no personagem. Upgrades bem-vindos. O RoboCop de 87 é adequado para os anos 80 e tem o perfil daquela época. Mas nós vivemos em uma época diferente, em que a tecnologia evoluiu bastante, quando robôs e exoesqueletos são uma realidade mais palpável e dotados de movimentos mais orgânicos.

O novo RoboCop possui movimentos mais fluidos, ainda que Kinnaman use sutilmente alguns trejeitos de Peter Weller em sua interpretação. O RoboCop de 2014 é adequado para os anos 2010 e tem o perfil da nossa época. É um robô moderno, adaptado para um mundo mais moderno. Isso se reflete inclusive nas variações da armadura dele, que muda de prateado para preto. A armadura preta tem uma razão de existir no filme, pois reflete os sentimentos de uma fase pela qual Murphy precisa passar em seu processo de adaptação à máquina, e ficou muito boa por isso. Eu adorei a armadura preta, de verdade. O conjunto — robô, ação, movimentos, armas — funciona muito bem com a armadura preta. Especialmente quando o RoboCop surge pilotando sua moto — também preta, e estilosa —, que concede um ar de liberdade e imponência ao personagem. — Consideração leve: O RoboCop. Pilotando a moto. Parece o Jiban. Pronto falei.

As sequências de ação e combate são curtas e diretas, normalmente focadas em tiroteios e tácticas de guerrilha urbana, semelhante ao formato da ação do Tropa de Elite. Padilha trabalha mais as camadas do enredo e de seus personagens, reservando a ação para momentos pontuais. Não há tanta violência — e certamente não há metade da violência do filme original —, uma vez que o foco principal do filme é explorar o personagem.

Mas não pense nisso com um ponto negativo. A violência não é gráfica, mas está lá — física, social e psicologicamente —, dentro da premissa da trama. Isso se reflete, por exemplo, na índole volátil e inescrupulosa de Raymond Sellars (Michael Keaton), presidente da OmniCorp e principal interessado em vender o RoboCop como produto; e no pensamento/comportamento igualmente volátil e tendencioso de Pat Novak (Samuel L. Jackson), um jornalista que apoia os robôs em solo americano e que muda de ideia como quem troca de roupa — Samuel L. Jackson é sensacional e seu personagem enfia o dedo na ferida da sociedade norte-americana, sendo o principal responsável pelas críticas políticas destiladas pelo filme contra a mídia e o governo dos Estados Unidos, mas que serve para nos fazer pensar em várias questões sociais que facilmente estariam próximas à realidade de outros países.

O novo RoboCop não tem a mesma sátira ou violência do original, mas tem seus próprios méritos. E são muitos. É um filme do Padilha, com grande teor político, e questões sobre o eterno duelo entre homem e máquina. Não é bem um remake, é mais uma revisão. Um filme completamente diferente do original, com sua própria identidade. Eu compraria isso por um dólar. Até por mais.

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