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Entrevista Com José Padilha, Joel Kinnaman e Michael Keaton Sobre ROBOCOP

Fotos: Christiano Rubin

RoboCop Entrevista Coletiva Rio

RoboCop, remake do clássico filme de 1987, estreia nos cinemas dia 21 de fevereiro, e como parte da divulgação do filme, o diretor José Padilha e os atores Joel Kinnaman e Michael Keaton participaram de uma coletiva de imprensa no Rio de Janeiro. Com muita tranquilidade e bom humor, os entrevistados contaram sobre suas experiências e seus objetivos com o filme, que é semelhante ao original nas ideias, mas não na forma. O filme de Padilha é bem diferente, e o diretor explicou como se deu o processo de criação. Padilha ainda fez questão de falar em português. Não queria falar em inglês em seu país natal.

O filme se passa em 2029 e o conglomerado multinacional OmniCorp está no centro da tecnologia robótica. Seus drones estão ganhando guerras americanas ao redor do globo e agora eles querem trazer essa tecnologia para dentro de casa. Alex Murphy (Joel Kinnaman) é um marido dedicado, bom pai e bom policial, e faz seu melhor para conter a onda de crimes e corrupção em Detroit. Depois que ele é gravemente ferido no cumprimento do dever, a OmniCorp, comandada pelo pouco confiável Raymond Sellars (Michael Keaton), utiliza sua notável ciência robótica para salvar a vida de Alex, transformando-o num policial cibernético com o que há de mais avançado em termos tecnologia.

Padilha falou sobre a questão de ser um filme mais contido para pegar a censura de 13 anos, considerando que o filme original tinha censura 18 anos e grande índice de violência — “Eu não acho que a violência ou, por exemplo, o sexo, em um filme, seja um valor em si. Por que um filme é muito violento, ele é melhor? Não vejo assim. Acho que o nível de violência e o nível de sexo ou de qualquer coisa assim que você mostre em um filme tem que ser coerente com a abordagem interna do enredo. Para o RoboCop que eu fiz, que é o motivo pelo qual me interessei em fazer, o essencial é que, por um lado, ele fala sobre a política da automação da violência. O intuito era fazer um filme sobre drones, sobre substituir soldados por robôs e o impacto disso na geopolítica. Eu queria fazer um filme de conteúdo, não só um filme de entretenimento. Por exemplo, por que os Estados Unidos saíram do Vietnã e do Iraque? Porque os soldados estavam morrendo. Se tirarmos os soldados e botarmos robôs, o que aconteceria? Será que essas guerras teriam acabado da mesma forma? Isso é uma questão séria, e para falar sobre isso, eu não preciso explodir o cérebro de um cara.”

Sobre a premissa do filme e sobre ter mantido a mão humana do RoboCop, o diretor disse — “Outra coisa que eu queria fazer era discutir a diferença entre homem e máquina, pois à medida que a tecnologia vai chegando próximo do que o ser humano é capaz de fazer, essa questão teórica da filosofia, sobre aquilo que define a gente como ser humano, vai se tornando mais concreta. Esse personagem (RoboCop) que é meio homem meio máquina se presta a debater isso, então eu criei um personagem que tem um dilema existencial. Ele acorda totalmente consciente, alguém chega para ele e diz ‘você virou um robô’ e ele precisa lidar com isso, decidir se vale a pena viver dessa forma. Para falar sobre essas coisas essenciais do filme, eu não precisava fazer isso explícito. Sobre a mão humana do RoboCop, a premissa do filme é que os Estados Unidos possuem um posicionamento com relação ao uso de robôs. Os robôs norte-americanos são usados fora dos EUA, em outros países, como Irã, mas dentro dos EUA, os robôs não são permitidos.”

Eu perguntei para o Michael Keaton, como ele se sentia por ter feito um RoboCop mais tático, e preto, como o Batman. Não resisti. E ele respondeu com bom humor — “Agora a culpa do RoboCop preto é minha. [risos] Isso é nostálgico, já faz muito tempo que fui o Batman. Essa coisa do preto tem um lado comercial para o meu personagem, Sellars, que vê como um negócio, mas também vê a estética do negócio. Sellars não é o tipo de homem com sensibilidade. Se você voltar ao Tim Burton quando começou com esse visual mais escuro, o aspecto foi sendo diluído e aplicado por outros diretores, de outras maneiras diferentes, mas as pessoas foram primeiramente envolvidas por esse tom sombrio no Batman que Tim Burton construiu baseado na obra O Cavaleiro das Trevas, do Frank Miller, com aqueles tons de preto e azul. A primeira coisa que eu me lembro do Batman é que era tão sombrio, fisicamente sombrio, e tinha vários tons, inclusive ideologicamente. Mas além da questão do uniforme negro do RoboCop, não é só fisicamente ou esteticamente negro, há um subtexto referente ao lado sombrio do RoboCop. E é um uniforme tão legal. O RoboCop deve ser fã do Batman.” [risos]

Keaton ainda acrescentou que o interessante em RoboCop é que é emocionalmente surpreendente — “Quando ele está fisicamente exposto é de uma profundidade impressionante. O filme é social, psicológica e filosoficamente profundo, sem ter que martelar a cabeça das pessoas com essa profundidade. Ainda é entretenimento, apesar disso tudo. O Batman não estava nesse nível, e eu gostaria, na época do filme (1989), de ter pensado em muitas das coisas que já vieram falar para ele por causa de RoboCop.”

Joel Kinnaman, protagonista do filme, contou sobre como conseguiu se mover e fazer tanta coisa com aquela roupa de RoboCop — “As dificuldades técnicas do uniforme me obrigavam a separar a linguagem corporal e a linguagem emocional. Eu geralmente me expressava através de expressões faciais, já que o corpo é mecanizado. É uma dificuldade adicional, mas é como se eu estivesse fazendo um personagem com uma deficiência física, pois também haveria essa dicotomia entre linguagem corporal e facial. Foi desafiador.”

Kinnaman ainda disse que é um grande fã do RoboCop de 1987 e que pegou inspirações de Peter Weller (ator do filme original) para compor o seu personagem — “Eu assisti ao RoboCop original umas 20 a 25 vezes quando era garoto, e minha mãe, que era terapeuta, chegou a me indicar para um colega dela porque achou que estava sofrendo de algum tipo de ‘Psicose RoboCop’. [risos] Ou seja, eu estava muito bem preparado para papel, mas o RoboCop de 1987 era uma visão futurista um pouco diferente da visão de futuro que temos hoje. Os robôs hoje em dia já andam de uma maneira mais orgânica, e o RoboCop desse filme é um aplicativo militar futurista desenvolvido de uma forma diferente. Por isso tentei criar movimentos mais sobre-humanos para o RoboCop, ao mesmo tempo que aproveitei algumas coisas do original. Por exemplo, quando eu andava, eu primeiro virava a cabeça para depois virar o resto do corpo, assim como Peter Weller fazia. Ainda que seja o mesmo RoboCop em ambos os filmes, as jornadas de cada um são diferentes.”

Padilha também falou sobre como equilibrou a recriação do personagem com a expectativa dos fãs — “Eu ignorei a expectativa dos fãs. Primeiro que não existe uma massa uniforme de fãs. Cada fã tem uma expectativa e se eu fosse considerar cada expectativa, eu não conseguiria dirigir o filme. Eu mesmo sou um fã do filme. Adoro RoboCop. O primeiro, claro. Por isso tentei ser o mais fiel ao conceito-base do personagem RoboCop, que para mim, depois de ter estudado bastante o filme original (1987) para fazer esse filme, é que o RoboCop é um personagem que trás dentro dele uma ideia filosófica de que quando você automatiza a violência, você abre a porta para o facismo.”

O diretor finalizou com comentários sobre os conceitos por trás de RoboCop, comparando com outros filmes como Tropa de Elite (que ele também dirige) e Nascido Para Matar, de Stanley Kubrick. Padilha acrescentou sua assinatura particular, mas manteve os conceitos principais do RoboCop — “Como eu citei antes no exemplo do Vietnã. Será que a guerra teria acabado se os soldados fossem substituídos por robôs? Mas eu posso citar isso de outra maneira, que é até mais relevante. Se você pegar o Tropa de Elite (2007), com o treinamento do BOPE. O que são esses treinamentos? São doutrinações. As pessoas são doutrinadas até que elas perdem a capacidade de pensar criticamente. Eles fazem sem parar para pensar no que estão fazendo. Em Nascido Para Matar (1987), por exemplo, você vê mais ou menos a mesma coisa, a ponto de as pessoas que não conseguem ser doutrinadas enlouquecerem. Essa ideia de tirar o senso crítico e desumanizar a tropa está embutida na ideia do RoboCop. Foi o que o Paul Verhoeven (diretor do original de 1987) fez com seu filme. A melhor maneira de desumanizar o policial é tirar o ser humano e colocar uma máquina no lugar. É uma desumanização perfeita. Mas ele gerou um personagem que tem um ser humano dentro de uma máquina, convivendo com a máquina e lutando contra ela. Então fica bem claro esses dois pólos da violência. Quando você automatiza quem vai executar a violência, você abre a porta para uma corporação ou para o governo fazerem o que quiserem. Eu e os outros realizadores fomos fiéis ao filme original, mas as ideias, não a forma.”

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