Filmes

Philomena

Um crítico norte-americano classificou Philomena (Reino Unido, 2013) como mais um filme irlandês enfadonho contra a Igreja Católica. Não sei se é por distanciamento, por acreditar que é exagero ou por puro desinteresse pelo ser humano, porque por mais que o filme tenha como fundo a crítica à Igreja Católica na Irlanda, ele trata, principalmente, de mostrar uma história de aceitação pessoal.

Atualmente produções focadas em dramas humanos são tratadas com preconceito, como filmes menores, mesmo que dirigido por um grande diretor como Stephen Frears. Acredito que essa má vontade aconteça em detrimento aos dramas rasos e recheados de situações piegas que surgem de tempos em tempos no cinema. Mas com certeza Philomena está muito longe desse grupo, exatamente por ser sensível sem ser raso. Tudo bem, não é um filme denso, profundo, ao mesmo tempo que não trata seu tema com futilidade. Talvez pela história de Philomena ser tão triste e revoltante, que Frears decidiu focar na personagem e amenizar um pouco (mas muito pouco) o horror que ela enfrentou.

Philomena

Philomena (Judi Dench) confessa para sua filha mais nova que há exatos 50 anos seu filho foi tirado dela e dado em adoção para um casal, pelas freiras do convento onde ela morava. Em 1951, ela engravidou de um rapaz que conheceu numa feira. Como ainda era adolescente, sua família a enviou para um convento para que lá tivesse o filho e permanecesse por quatro anos, trabalhando na lavanderia, como pagamento por sua estadia e pela da criança. Porém as freiras do convento venderam seu filho para um casal norte-americano e Philomena nunca mais o encontrou. No início dos anos 2000, sabendo dessa história, sua filha pede ao jornalista Martin Sixsmith (Steve Coogan) que escreva a história de sua mãe. Para chegar ao fundo da história, Sixsmith e Philomena viajam até os Estados Unidos para saber o que aconteceu com a criança.

Apesar do foco na personagem principal, o filme conta três histórias: a de Philomena, a de Sixsmith e a de Michael (a criança). A história de Philomena surge na vida do jornalista em um momento difícil, após ele ter sido demitido de seu cargo como conselheiro do Partido Trabalhista Britânico, por conta de um escândalo. Decidido a escrever sobre a História Russa, o drama da senhora católica lhe parece pequeno, sem muita importância, mas ao mesmo tempo uma oportunidade dele voltar a trabalhar em um jornal importante.

Coogan, co-roteirista e produtor do filme, consegue ser bem mais contido para compor seu personagem, usando o tom certo de cinismo e humor necessários. A poderosa Judi Dench, de respostas incisivas em entrevistas e senso de humor ácido, se torna uma senhorinha calma, quase ingênua, como Philomena. Incrível como a forte personalidade de Dench é acalmada pela doçura da personagem, que não é nada frágil. Apesar de viúva, de ter trabalhado como enfermeira por muitos anos e ter criado uma filha, é curioso assistir à fragilidade da personagem perante aquelas que a maltrataram por quatro anos e mesmo assim ela ainda ser conivente, não por medo, mas por respeito. Por fim, Michael, o pequeno menino irlandês que é adotado por uma rica família norte-americana e que acaba se tornando um renomado advogado, que trabalhou com os presidentes Reagan e Bush como Advogado Chefe do Partido Republicano.

O principal foco do diretor Stephen Frears, notório por enfatizar os personagens mais do que as tramas de seus filmes, é Philomena. A forma revoltante como as freiras do convento tratavam as moças que lá foram largadas e a forma como a Igreja Católica concordava com tal atitude, é apenas um pano de fundo. A busca por seu filho é a forma de Philomena aceitar o seu passado, entender que o que aconteceu foi uma violência e seguir em frente em paz. Paralelo a isso, o drama da personagem mostra a Sixsmith que histórias de apelo pessoal podem ser complexas, ricas e trazer reconhecimento para aquele que decide contá-la. Seu livro, Philomena: Uma Mãe, Seu Filho e Uma Busca Que Durou Cinquenta Anos, foi a base para o filme, apesar de focar mais na busca por Michael e sua vida.

Famoso por apostar em dramas humanos, Frears constrói uma produção doce para tratar de um tema amargo. Não é um grande filme, nem será marcante dentro da carreira do diretor, mas com certeza é muito sensível, com uma personagem adorável, apaixonante, que mostra que por mais dura que a vida seja, é possível superar tudo com leveza.

Philomena

Philomena

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