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47 Ronin

Quem me conhece sabe que eu sou FASCINADO por cultura japonesa, especialmente quando envolvem samurais e criaturas míticas. A mitologia japonesa é rica, cheia de elementos estranhos e conceitos distantes das concepções folclóricas comuns ao ocidente. Esses elementos e conceitos favorecem bastante a criação de cenários de fantasia, especialmente quando estabelecidos na época feudal do Japão. É justamente essa estranheza imaginativa que me fascina tanto.

47 Ronin (EUA, 2013) é um tipo de filme que não se vê todo dia no cinema norte-americano; um filme de fantasia em 3D que se passa no Japão do século XVIII, filmado na Hungria e no Reino Unido, com um elenco predominantemente japonês, e que distingue-se pelo design de produção ornamentado, pelas intrigas místicas, e pelo tom pessimista.

O filme é protagonizado por Keanu Reeves como o mestiço Kai; tem no elenco os honoráveis Hiroyuki Sanada (O Último Samurai) como Oishi Yoshio e Cary-Hiroyuki Tagawa (Massacre no Bairro Japonês) como Shogun Tokugawa Tsunayoshi; e também conta com Rinko Kikuchi (Círculo de Fogo) como a Bruxa Metamórfica e Tadanobu Asano (Thor) como Lorde Kira.

47 Ronin

Dirigido pelo estreante Carl Rinsch, o enredo aborda uma versão da famosa Lenda dos 47 Ronins, que já foi contada em vários filmes japoneses e também já foi mencionada no filme Ronin com Robert De Niro. A Lenda dos 47 Ronins é uma história japonesa considerada lenda nacional no país, inspirada num evento que teria acontecido aproximadamente entre 1701 e 1703.

De acordo com o código de honra samurai (o Bushidô), depois que o daimyo (senhor feudal) morre, um samurai é obrigado a cometer seppuku (suicídio ritual). Se escolher viver em desonra, sem um mestre, o samurai torna-se um ronin.

A história conta que um grupo de 47 samurais foram forçados a se tornar ronin quando seu daimyo, Asano Naganori, comete suicídio por ter agredido um alto funcionário do governo chamado Kira Yoshinaka. Os 47 ronins, liderados por Oishi Kuranosuke Yoshio, elaboram um plano para vingar seu mestre, cujo objetivo é matar Yoshinaka e toda sua família. Segundo a história, os 47 ronins esperaram cerca de um ano e meio para não despertarem qualquer suspeita entre os oficiais de justiça japoneses. Após o assassinato de Kira, eles se entregaram às autoridades e foram condenados a cometer seppuku.

A lenda se tornou popular no Japão por mostrar lealdade, sacrifício, persistência e honra que as boas pessoas devem preservar em sua vida cotidiana — conceitos que os japoneses prezam bastante. A história ganhou ainda mais peso durante a Era Meiji, um período em que muitos japoneses ansiavam pelo retorno de sua antiga cultura e dos samurais — você talvez já tenha visto um pouco sobre essa época no anime Rurouni Kenshin.

O filme 47 Ronin adapta a história da lenda com certo grau de fidelidade, e adiciona alguns elementos sobrenaturais à trama, o que torna as coisas mais interessantes. Como um filme de aventura e fantasia, 47 Ronin, apesar de ser uma produção norte-americana, emula muita coisa dos filmes de fantasia japoneses. O clima lembra bastante o mangá/filme Dororo, e também filmes como Shinobi e Ashura: A Rainha dos Demônios ou animes como Ninja Scroll. Por isso, talvez, para quem não está acostumado com as histórias fantásticas japonesas, o filme possa parecer um pouco estranho. 47 Ronin é honesto em sua intenção de ser uma aventura fantástica japonesa, apenas com um elemento ocidental, Keanu Reeves, que faz um mestiço ocidental/oriental que foi criado e treinado por demônios da floresta — o que faz dele o pária entre os párias. Ainda que possa causar algum desconforto a presença de um ocidental entre samurais, a história japonesa conta que já existiram samurais estrangeiros — poucos, mas existiram.

Oishi ainda serve como o líder dos 47 ronin, e ainda é quem planeja a vingança dos samurais contra Lorde Kira. O enredo, contudo, adiciona um segundo protagonista na forma de Kai, que num blockbuster convencional provavelmente funcionaria como uma figura para identificação com a audiência ocidental. Só que o filme também não parece se preocupar realmente com questões de identificação. Kai é o personagem mais misterioso, um forasteiro dedicado a códigos sociais de abnegação e hierarquia, mas que não é respeitado pelos outros personagens — eu diria que o papel é feito sob medida para um ator de neutralidade tão intensa como Reeves, e funciona bem dessa forma.

Kai torna-se o centro dessa adaptação graças aos seus conhecimentos sobre os demônios da floresta, os Tengu, que na mitologia são criaturas humanoides com cabeças que se assemelham a pássaros — no filme, eles possuem uma aparência aproximada a isso —, e a importância que esses demônios têm para a missão. Quando Lorde Kira articula um ardil para enganar Lorde Asano com bruxaria, Kai acaba sendo arrastado para a vingança dos samurais na intenção de salvar a filha de Asano, “sequestrada” por Kira e por quem nutre um amor impossível. Mas ao lado de Lorde Kira está uma bruxa metamórfica que dificulta bastante a vida dos ronin.

O filme funciona seguindo tendências do cinema de fantasia japonês, com créditos para dois elementos-chave. O primeiro é a sensibilidade visual criativa, com uma abordagem expressionista de figurino e cenografia que difere consideravelmente dos tons escuros tão presentes no cinema de fantasia contemporâneo. O esquema de cores — vermelhos ricos, roxos profundos, faixas verdes — é complementado por uma trilha sonora vibrante. Nenhum personagem exemplifica tão bem a sensação visual do filme como a bruxa metamórfica — Rinko Kikuchi rouba as cenas em que aparece —, com seus olhos heterocromáticos, cabelos vivos como tentáculos, e membros extras criados através dos tecidos coloridos de suas roupas.

Então há fatalismo do filme, em baixa escala, mas que surpreendentemente se mantém fiel ao material de origem. Apesar da inclusão de bestas fantásticas, seitas de guerreiros imortais e magia negra, a história segue a lenda, inclusive em seu desfecho — que em dado momento, eu estava acreditando que seria alterado, mas por sorte, não foi. A forma como o filme termina reflete os conceitos pregados pela lenda e pelo código de honra dos samurais, e acrescenta algumas poucas mudanças que se mostram bem-vindas, pois tornam todo o feito dos 47 ronin ainda mais heroico considerando que se trata de uma tradição que vai perdurar pelo resto da história e se tornar uma lenda.

O filme está repleto de efeitos visuais deslumbrantes e criativos que nos atraem para um mundo de mistérios profundos que seus personagens não entendem, povoado por criaturas saídas do folclore japonês, sem qualquer tentativa de categorizá-las ou organizá-las com explicações complexas. Essa é a magia das lendas e desse tipo de fantasia. O misticismo obscuro.

47 Ronin é um belo conto, simples em sua forma, que se concentra em uma história mais pessoal, sobre homens que pegam em armas a fim de fazer a coisa certa, e lutam por honra e justiça. E a natureza extravagante da mitologia do Japão feudal é um ambiente valioso para esse conto. Este ainda não é o Japão em declínio, o último suspiro dos samurais, e não é a versão normal da sociedade feudal, pois é atualizado para refletir nossas percepções contemporâneas. Esse é um Japão alternativo e místico em que vale a pena se aventurar. A fantasia surge como um complemento agradável, em menor escala, sem a necessidade de se apresentar em um enredo grandioso sobre impedir a conquista ou a destruição do mundo. Essa é uma história sobre espadas e magia.

47 Ronin

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  • Silas

    Alan Barcelos, descreveu muito bem o filme, sensacional na minha opnião, os samurais eram pessoas bastante honradas, a honra acima de tudo, se hoje em dia tivessemos um pouco disto com certeza o mundo serio um lugar melhor de viver.

    • http://www.nivelepico.com/ Alan Barcelos

      Com certeza.

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