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Ninfomaníaca: Volume 1

Ninfomaníaca: Volume 1

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Ninfomaníaca: Volume 1

Ninfomaníaca: Volume 1

Confesso que quando sentei na sala do cinema para ver Ninfomaníaca (Nymphomaniac, Dinamarca, 2013) estava com muita má vontade, porque tenho a sensação de que há algum tempo o diretor Lars Von Trier tem se repetido em sua ânsia por fazer um filme inovador e controverso. Não há como negar que ele é controverso, não apenas pelos filmes que realiza, como também por sua postura e maneira de ser. Europa (1991), Ondas do Destino (1996) e Dançando no Escuro (2000) fazem parte da minha seleção de filmes favoritos dentro da cinematografia mundial, assim como reconheço o valor de Dogville (2003), apesar de acreditar que foi nesse ponto que Lars Von Trier decidiu fazer seu estudo sobre a mulher, baseando-se nas teorias sobre a histeria do Século XIX; suas personagens, a partir de então o foco principal de seus filmes, passavam por momentos de repressão extrema, não apenas sexual. Na verdade, tem sido assim em todos os seus filmes que giram em torno de uma importante personagem feminina.

Seus dois últimos filmes, Anticristo (2009) e Melancolia (2011) pareciam tratar de exatamente o mesmo assunto em situações opostas. Enquanto Anticristo mostrava uma mulher lidando com seus demônios internos no meio de um bosque assombrado por seu passado e outros seres que a rondavam, Melancolia falava sobre uma personagem que se encontrava paralisada pela depressão, que a tornava fria em relação ao seu casamento que acabou de acontecer, e que piorava a relação conflitante com sua irmã, tudo isso diante do inevitável fim do mundo. Se o diretor já mostrava seu lado mais sombrio em seus filmes, ele aflorou e cresceu sem limites nessas duas últimas produções. Por mais belo que Melancolia seja, ainda é um filme depressivo, longe de ser uma obra prima.

Depois de um episódio desagradável em Cannes, que levou o diretor e ser banido daquele Festival, Lars Von Trier parecia ter atingido seu limite, mas foi o anúncio de que seu próximo filme seria sobre uma mulher ninfomaníaca e que ele usaria atores de filmes pornô para as cenas de sexo, porque as cenas deveriam parecer reais, que o mundo mais uma vez parou para prestar atenção nele. Na verdade não é tão surpreendente assim a ideia de Von Trier, um dos fundadores do movimento Dogma 95, que zelava por um cinema mais autoral e cru, prezando a qualidade das produções em detrimento do excesso de recursos técnicos. Nessa mesma época, ele realizou um de seus filmes mais controversos, Os Idiotas (1998) sobre um grupo de pessoas que pregava a ideia de viver de uma forma mais idiota, sem os limites da sociedade contemporânea. Quem conhece bem a filmografia do diretor sabe de tudo que ele é capaz.

Por todas essas razões e fatos listados, que bateu uma pequena preguiça de enfrentar mais um filme controverso de Lars Von Trier. Felizmente, dessa vez, fui surpreendida de forma positiva. Mas antes entenda uma coisa, essa versão que chega aos cinemas não é a principal, com 5 horas e meia de duração. O filme foi cortado em duas partes mais enxutas, de um pouco mais de duas horas cada uma, sendo essa a primeira parte. A versão completa e sem cortes terá sua estreia oficial no Festival de Berlim em Fevereiro.

Sua trama conta a história de uma mulher de 50 anos, Joe (Charlotte Gainsbourg) que é encontrada caída em um beco, toda machucada, por um homem mais velho, Seligman (Stellan Skarsgård). Ele a leva para a sua casa e quando a pergunta se deve chamar a polícia, ela pede que não por acreditar que é uma pessoa má e que mereceu o que aconteceu. Para explicar seu pensamento, Joe conta toda sua vida desde seu nascimento até aquele ponto, justificando que sofre de um distúrbio, a ninfomania.

Esse Volume 1 é dividido em cinco capítulos: “O Pescador Perfeito”, “Jerôme”, “Sra. H”, “Delirium” e “O Pequeno Órgão Escolar”, que pontuam momentos da vida de Joe entre a infância até o início da vida adulta, onde a personagem faz um paralelo com pescaria e música para explicar sua obsessão por sexo desde tão cedo. O que surpreende, nessa primeira parte, é o lirismo usado por Von Trier para contar a história de Joe; seu cinema cru perde espaço para belas cenas muito bem coreografadas. A estreante Stacy Martin, que representa Joe na adolescência e juventude, ganha um ar quase angelical através da lente do diretor, o que destoa da busca da personagem pelo prazer pleno. Joe, em seus primeiros anos, tem uma inocência curiosa que a leva conhecer logo o sexo, para perceber que ele pode ser uma arma para conseguir o que quer. Filha de um médico, que admira imensamente, e de uma mulher que ela quase não menciona, acaba deixando subentendida uma paixão platônica pelo pai.

O filme, naturalmente, contém cenas de sexo mais explícitas, mas bem menos do que o esperado ou do que todo o burburinho nos fez crer que haveria. O sexo é muito natural e orgânico para Joe, por isso mesmo, assim é no filme. O tabu para ela é o amor e não a experiência carnal. Esse primeiro Volume de Ninfomaníaca é sobre descobertas, as que ela faz sobre seu corpo, sobre os homens e sobre o amor. Ao mesmo tempo, Joe descobre como o sexo pode ser destrutivo para si mesma, pois ela o usa para aplacar a dor de ver seu pai numa cama de hospital em estado terminal; assim como pode destruir a vida dos que estão a sua volta, já que seus amantes são meras distrações, até que um deles decide largar a família por uma vida de prazer, o que resulta em dos melhores e mais desconfortante momentos do filme e em uma atuação impressionante de Uma Thurman como a Sra. H.

Ninfomaníaca sequer estreou direito e muito já se discutiu sobre ele, com argumentos que falam sobre violência e sexo no cinema, porque um filme violento é muito menos controverso do que um filme sobre sexo. Mas acho que a questão não é apenas essa, porque sim, estamos rompendo barreiras aqui. O sexo ainda é visto como um enorme tabu, ainda choca e polemiza muito mais do que a violência. Filmes como esse ou o recente ganhador da Palma de Ouro em Cannes, Azul é a Cor Mais Quente, que tem uma cena de sexo explícito de dez minutos entre as protagonistas, parecem chocar muito mais do que qualquer filme com violência explícita ininterrupta. Em ambos os filmes, o sexo tem um papel importante para a trama. Ele é necessário e, afirmo mais uma vez, natural na história. Em momento algum incomoda ou é forçado dentro da trama. É verdade que ele será muito mais cru e duro no Volume 2, mas ainda assim dentro do contexto da vida de Joe, que entra em um processo de autodestruição. Não quero levantar nenhuma bandeira aqui, apenas demonstrar como algumas discussões, infelizmente, estão se tornando infundadas ultimamente, em especial quando se trata de filmes, peças, livros ou qualquer representação artística.

O que acontece é que Ninfomaníaca está agradando por onde estreia, exatamente por ser honesto com seu público. Em momento algum Von Trier força-nos com um filme extremamente chocante ou enfadonho, pelo contrário, a conversa entre Joe e Seligman é interessante, desperta a imaginação do personagem e do público. Von Trier nos torna vouyers de uma história rica e estimulante, estrelada pela mais nova sensação indie do momento, Stacy Martin. Um filme que vale a pena ser assistido, comentado e muito discutido, mas para tal é preciso se despir de preconceitos e pudores, e se deixar surpreender por um Von Trier bem mais lírico e suave.

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