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Solarpunk

Solarpunk (Brasil, 264 páginas, 2013) é a antologia da Editora Draco organizada por Gerson Lodi-Ribeiro que fecha a trilogia punk da editora. Por tratar da utilização e desenvolvimento de energias limpas, poderia imaginar-se que os contos possuiriam um viés mais otimista, mas nem todos foram por este caminho. Embora o tom distópico não esteja tão presente como nas irmãs Vaporpunk e Dieselpunk, os autores não deixaram de refletir, à sua maneira, sobre o lado sombrio da humanidade.

O livro abre com o conto Soylent Green is people!, de Carlos Orsi. Nele, somos apresentados a uma trama policial futurista, onde o conflito ciência versus religião está presente. A tecnologia verde aparece como parte do mistério, que possui solução longe do óbvio. Orsi foge do maniqueísmo e apresenta uma boa leitura, que funciona bem como abertura para a coletânea.

Solarpunk

Em seguida temos O Confronto dos Reinos, do autor português Telmo Marçal. A trama policial se repete, mas desta vez com resultados menos satisfatórios. Aqui o protagonista é incumbindo de investigar o desaparecimento de pessoas num grupo de seres humanos que alteraram seus corpos e com isso perderam a necessidade de se alimentar, sustentando-se apenas com luz. Infelizmente faltou uma melhor ambientação, sendo a trama um longo lamento de um personagem ranzinza e possivelmente avesso a minorias.

E Atenção: Notícia Urgente! é um delicioso texto de Romeu Martins, que em sua primeira parte é narrado como um programa de rádio, e na metade final, uma teoria da conspiração bastante sugestiva. Um grupo dissidente do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra resolve fazer um protesto contra a adoção de uma nova biotecnologia, mas as coisas aos poucos se revelam ser mais do que aparentam. O tom irônico permeia toda a narrativa, mas o autor não a deixa cair na pura galhofa.

Era Uma Vez um Mundo, de Antonio Luiz M. C. Costa, trata de uma realidade alternativa onde os governos de todo o mundo se fundiram em apenas um, organizado em uma economia socialista. A trama apresenta a tentativa de uma organização terrorista de mudar este status quo. Faltou aqui um certo equilíbrio entre a construção do cenário e da ação, muito rápida, e os diálogos com explicações políticas e técnicas, que acabaram ficando longos. Incomoda um pouco também o fato de inúmeras figuras históricas díspares entre si estarem juntas num mesmo lugar no mesmo momento, tornando toda a situação um pouco forçada. Ainda assim, o autor apresenta interessantes reflexões políticas que valem a leitura.

Fuga, de Gabriel Cantareira, mostra um futuro distópico onde São Paulo, após ser devastada por uma guerra, é reconstruída pela iniciativa privada, que em troca torna-se soberana dentro do território da cidade. O autor tenta construir um thriller de perseguição com toques políticos, mas infelizmente parece apenas repetir clichês tanto em termos narrativos como nas ideias que defende.

Gary Johnson, de Daniel I. Dutra, apresenta a história do Padre Landell de Moura, um gaúcho que foi um dos inventores do rádio, pelo ponto de vista de seu empregado italiano. Narrada pelo bisneto deste, o conto possui um clima de terror muito bem construído. No melhor estilo da tradição da literatura especulativa do século XIX e início do XX, misturando discussões éticas sobre os limites da ciência, o autor dá uma explicação fantástica e ao mesmo tempo científica para o mistério que permeia a história.

Xibalba Sonha com o Oeste, de André S. Silva, é mais uma realidade alternativa construída a partir de uma tecnologia verde. O cenário apresenta uma nova civilização fruto da união de povos indígenas brasileiros com os dos povos nativos da América, mas a trama se foca numa professora que busca descobrir a verdade sobre seu pai, um suposto traidor da pátria. Conto bastante interessante, que desperta a vontade de conhecer melhor este mundo tão diferente e ao mesmo tempo tão familiar.

Sol no Coração, da autora Roberta Spindler, usa a ficção científica como alegoria para a dificuldade de um pai em conciliar suas próprias convicções com o bem-estar de seu filho. Curioso é que aqui há o retorno ao tema da alimentação por luz, só que desta vez de forma mais singela e emotiva. O final é bonito e bastante verossímil, mas talvez uma solução menos radical fosse mais interessante. Ainda assim, é mais um acerto da antologia.

Encerrando o livro, temos Azul Cobalto e o Enigma, do organizador Gerson Lodi-Ribeiro. Aqui, o autor apresenta mais um conto de sua linha temporal alternativa onde o Quilombo dos Palmares tornou-se independente do Brasil. Desta vez, contudo, trata-se de uma aventura futurista, ambientada quase toda no espaço, numa mistura de aventura pulp e batalha de super-heróis bastante divertida, com cenas de ação eficientes. Embora a questão da tecnologia limpa não esteja muito presente, o conto serve como clímax para a antologia como um todo, sendo portanto um bom encerramento.

O saldo final é bastante positivo, com contos onde os autores fogem do óbvio da simples utopia verde, mostrando que, não importa o quanto a tecnologia se desenvolva, o ser humano ainda estará preso a seus instintos animais, com interesses políticos e econômicos causando conflitos, seja na sociedade, seja na vida particular dos cidadãos. Solarpunk encerra a trilogia de antologias punk com sucesso, e certamente servirá como parâmetro de qualidade para as futuras antologias de ficção científica em língua portuguesa.

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  • lidiazuin

    Uma dúvida que fiquei depois de ler a resenha: então os contos são mais sobre retrofuturismo/história alternativa do que um futuro fictício/propostas de um futuro mais “verde”?

  • lidiazuin

    Então, pelo que eu entendi, a coletânea tem mais contos de história alternativa e retrofuturismo do que propostas para algo se passando no futuro?

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