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Álbum de Família

August, no condado de Osage, um dos 77 condados do estado americano do Oklahoma. Nesse lugar vive a família Weston, cujo patriarca, Beverly (Sam Shepard) é um poeta alcoólatra que precisa cuidar de sua mulher, Violet (Meryl Streep). Beverly decide contratar uma empregada e cozinheira para ajudar Violet, que sofre com um câncer de boca — o que é irônico, pois ela fala sem parar — e está viciada em remédios. A empregada é uma jovem índia cheyenne chamada Johnna (Misty Upham), vítima de frequentes ataques racistas da parte de Violet. Algumas semanas depois da contratação da empregada, Beverly desaparece e a família toda se reúne a sua procura, mas a única coisa que encontram, dias depois, é uma carta de suicídio. As três filhas de Violet, então, aproveitam a reunião para organizar assuntos de família e resolver pendências do passado.

Álbum de Família

Barbara (Julia Roberts) é a mais velha, e além de estar em processo de divórcio com o marido Bill (Ewan McGregor), tem um relacionamento distante com a filha adolescente Jean (Abigail Breslin). A mais nova, Karen (Juliette Lewis), está noiva de seu terceiro marido, Steve (Dermot Mulroney) e ainda age com a imaturidade de uma criança perante os fatos. Ivy (Julianne Nicholson), que ainda vive com os pais, é a mais devotada à família, mas esconde um relacionamento com seu primo Charles (Benedict Cumberbatch) e não aguenta mais viver como uma sombra apática que não tem vida própria. Uma série de conflitos emergem nos dias que se seguem, já que Violet e Barbara nunca se entenderam uma a outra, e tanto Ivy quanto Karen estão a beira de abandonar a família.

Essa família briguenta e de discursos inflamados e agressivos, sempre direcionados uns contra os outros, é o ponto central de Álbum de Família (August: Osage County, EUA, 2013). Dirigido por John Wells, com roteiro adaptado por Tracy Letts a partir da peça de teatro de sua própria autoria — vencedora dos prêmios Pullitzer e Tony —, essa versão cinematográfica capta principalmente a interação entre os membros tempestivos dessa família, que convivem em meio a recriminações desagradáveis, zombando e destilando provocações uns contra os outros, enquanto escondem segredos dolorosos, capazes de despertar as mais negativas emoções quando revelados.

Com uma família que vive num lugar de ar provinciano, assombrada pelos fantasmas de ressentimentos passados, Wells não disfarça de onde veio essa encarnação cinematográfica, aplicando aos embates familiares um tom cru e um jogo de câmeras em que fica claro o fardo intrínseco a essa dolorosa história. O clima claustrofóbico da casa apertada onde se instala toda a família reunida só não é mais tenso por causa do elenco excepcional, cujos rompantes emocionais extravasam para além de quaisquer paredes, tanto as que separam os cômodos da casa quanto as que separam cada membro da família de seu próximo.

O maior embate é entre Meryl Streep e Julia Roberts, que estão vigorosamente impecáveis em seus papéis. Streep como a rancorosa matriarca da família, que apesar de demonstrar um grande ressentimento por sua filha mais velha, também é relutantemente mais dedicada a ela. Roberts é também relutante, ora alheia, ora dedicada, mas dentre as filhas é a que mais se propõe a resolver as falhas da mãe, enquanto Ivy é mais permissiva — eu diria até apática — e Karen é mais infantil e desesperada por ser reconhecida como filha.

As faíscas entre Streep e Roberts são o evento principal, o que movimenta a trama. Além de uma rusga durante um jantar, há um verdadeiro confronto durante um almoço angustiante logo após o enterro de Beverly, quando todos os desgostos da família começam a vir à tona, pouco a pouco. O que não se torna desgraça nesse almoço dá início a espiral de caos que toma conta da trama ao longo do resto do filme.

Na verdade tudo começa com a calmaria falsa que surge com as palavras melancólicas de Beverly — “A vida é muito longa” —, que cita TS Eliot na abertura como uma forma de expressar sua vida consumida pelo abuso de álcool e pela decepção amarga que ele esconde por trás de um monte de livros empoeirados. Logo descobrimos que ele está entrevistando Johnna para a vaga de empregada da casa. Então conhecemos um dos motivos de tanta amargura — talvez o maior deles —, Violet, sua esposa, que surge como um vendaval na sala com seu comportamento afetado pela mistura de bebida e remédios.

A aparência de Violet, dopada, com cabelos danificados e pele esbranquiçada graças ao tratamento quimioterápico para o câncer de boca, é a representação máxima dos fantasmas que faliram o casamento e a família, sugados por uma vida pálida de depressão e tristeza. Quando Beverly abandona essa vida, literalmente, o resto da família aparece, e a eles é concedido o momento de cada um brilhar dentro das necessidades a serem consideradas em cada aspecto dessa convivência.

Quando Julia Roberts entra em cena, no entanto, é ela que assume o filme. Confesso que nunca fui um grande fã da atriz, mas aprendi a respeitar Julia Roberts pela empatia que ela sempre consegue despertar com suas personagens, seja num romance, seja numa comédia, seja num drama. Ela é sem dúvida o que há de melhor no filme, principalmente pela forma como estabelece sua personagem como pilar para a família ao mesmo tempo em que é tão quebrada e machucada quanto a mãe. Enquanto tenta não se tornar uma Violet, ela acaba sendo a mais parecida com a mãe dentre as filhas. Uma das melhores cenas mostra Barbara desabafando sobre os problemas com suas irmãs, enquanto tomam vinho. A cena oferece uma breve pausa nas brigas, um breve momento de conciliação e compreensão mútua, que dura pouco, justamente porque afeto não é exatamente uma marca daquela família, e para aqueles que não são fortes o bastante para sobreviver a ela, resta apenas fugir.

Álbum de Família legitimamente se resume aos destinos de Violet e Barbara, ambas sem marido e danificadas pelos eventos de sua conturbada história com seus familiares. A cada revelação terrível que se acumula em meio às discussões de ambas, que vão desde incesto a abuso infantil, passando por questões de paternidade e agressões verbais e físicas, o desespero vai tomando conta, revelando quão difícil é para alguém escapar dos laços familiares, e o quão complicado é quando eles são tão trágicos. Quanto mais triste, mais difícil é se desvencilhar, e isso é justamente o que torna essa família tão marcada e devastada. Violet e Barbara entram em conflito para evitar que piore, ambas na tentativa de escapar daquele círculo vicioso da qual apenas uma seria capaz de realmente fugir. Uma consegue se pôr em liberdade graças àquele encontro, a outra se vê condenada a repetir o passado continuamente. Meryl Streep pode ter menos a perder e mais a ganhar. Mas é Julia Roberts, humildemente despojada de todos os artifícios de uma estrela do cinema, que sai maravilhosamente vencedora.

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