Filmes

Ender’s Game: O Jogo do Exterminador

Ender’s Game: O Jogo do Exterminador

Ender’s Game: O Jogo do Exterminador

Ender’s Game: O Jogo do Exterminador

Ender’s Game: O Jogo do Exterminador

Ender’s Game: O Jogo do Exterminador (Ender’s Game, EUA, 2013) é inspirado no grandioso romance de ficção científica escrito pelo americano Orson Scott Card, publicado em 1985 a partir de um conto que ele escreveu em 1977 para a revista Analog Science Fiction and Fact. Em 1991, ganhou uma versão atualizada, com alguns fatos políticos alterados para refletir com precisão as mudanças políticas da época.

Durante décadas o romance se mostrou uma obra difícil de ser adaptada para o cinema, com muitas tentativas frustradas. Situado quase que inteiramente no espaço e com cenas de combate em massa, os requisitos de orçamento teriam que ser (obviamente) tão grandiosos quanto, e poucos estavam dispostos a investir nessa proposta. Os avanços tecnológicos e na computação gráfica tornaram essa possibilidade mais viável, assim como o novo fôlego que a ficção científica vem ganhando no cinema nos últimos anos.

Ainda que situado em um cenário futurista habilmente construído, o foco do livro é o estudo filosófico e psicológico do caráter de uma pessoa, e a forma como os seres humanos lidam com coisas, pessoas, circunstâncias ou emoções que não entendem. É compreensível a relutância em transformá-lo em filme, já que poderia se tornar um drama político superficial disfarçado de ficção científica, mas o diretor Gavin Hood consegue balancear as características políticas, emocionais e épicas da história em um filme consistente e cativante.

Em um futuro próximo, uma raça de alienígenas insetoides hostis chamados Formics atacaram a Terra. Se não fosse o heroísmo lendário Comandante Mazer Rackham (Ben Kingsley), teria sido o fim para a raça humana. Esperando por um próximo ataque, o renomado Coronel Hyrum Graff (Harrison Ford) e a Força Militar Internacional começaram um programa de treinamento que reúne os melhores filhos da sociedade para que possam se tornar um novo Mazer — um soldado supremo contra os aliens.

Ender Wiggin (Asa Butterfield) é um desses jovens, tímido, mas estrategicamente brilhante, que acaba tirado de sua escola e levado para passar pelo treinamento. Ender chega à Escola de Batalha onde rapidamente se destaca nos perigosos jogos de guerra, ganhando respeito entre seus companheiros e chamando a atenção do alto escalão. Graff, então, envia Ender para a Escola de Comando, onde ele será treinado por Mazer Rackham em pessoa para conduzir os soldados em uma batalha épica contra os invasores.

O principal elemento desse jogo é o desenvolvimento de Ender, um garoto frio e extremamente habilidoso em táticas de combate. Em sua mente, a melhor forma de evitar um confronto duradouro é executar um ataque tão potente e devastador que o inimigo nunca mais tentará atacar de novo. Sempre sério e compenetrado em seu treinamento, Ender rapidamente passa de menino estudante a comandante supremo de guerra. Essa é a premissa geral: quão rápido uma criança pode crescer (ou ser moldada) psicologicamente em virtude de circunstâncias adversas. O primeiro ato, contudo, apesar de fornecer um panorama geral do personagem, não aprofunda tanto nessas questões, pois tudo acontece muito rápido. Nesse sentido, Ender’s Game sofre com um problema típico de filmes baseados em grandes obras, pois muita coisa é condensada para caber no espaço de duas horas, e nessa transposição, algumas partes se perdem.

O filme se esforça para condensar muito material no pouco tempo de execução. Enquanto o livro abrange seis anos de trama, o filme conta tudo em apenas cerca de um ano. Isso não influencia nas cenas de batalha, mas afeta o desenvolvimento psicológico que é tão presente no livro. A história sofre com a falta de um sentido de urgência e o crescimento do personagem principal acaba soando forçado em alguns momentos.

A partir do segundo ato é que o filme ganha mais contornos. Asa Butterfield, cujo talento tornou-se evidente em A Invenção de Hugo Cabret, mantém o controle desse jogo com a intensidade física e dramática necessária. O filme é de Butterfield, sem dúvidas. Ele é envolvente e emocionalmente honesto, às vezes de forma perturbadora. A presença de nomes respeitáveis como Harrison Ford, Viola Davis e Ben Kingsley no elenco concede peso à produção, mas eles têm pouco a fazer além de impulsionar o caminho de Ender rumo ao cargo de grande líder militar na guerra. Ford, com olhar cansado e pensativo, reflete um homem desesperado, receoso sobre o destino que aguarda o jovem, mas endurecido pela necessidade de erradicar a ameaça alienígena. Davis e Kingsley — principalmente Davis — são importantes por levantarem questões éticas desconfortáveis, mas funcionam apenas como elos necessários para os acontecimentos, com algumas passagens mais expositivas do livro.

Os muitos atores mirins que preenchem os inúmeros papéis de cadetes aliados ou antagonistas de Ender ao longo de seu treinamento conseguem fundamentar seus personagens, ao invés de representarem apenas estereótipos básicos. Destaque para Hailee Steinfeld, que é agradável como Petra, uma das companheiras de Ender e potencial interesse romântico. Potencial porque o filme não foca no romance adolescente, trabalhando o interesse entre os dois personagens de forma sutil. Um romance evidente entre Ender e Petra não funcionaria bem na atmosfera de guerra e desolação, e pela rapidez como as coisas acontecem. Existe apenas o carinho e a empatia, e isso é o bastante para amenizar o drama desses personagens. Ender ainda é equilibrado emocionalmente pela forte relação que tem com sua irmã Valentine, mas a participação da personagem de Abigail Breslin é tão limitada que perde o propósito em alguns momentos.

Em termos de visual, os elementos de ficção científica de Ender’s Game funcionam bem na criação de um mundo imersivo e interessante. Comparado com o livro, as sequências de batalha são poucas e pontuais, criadas para representar momentos específicos do treinamento de Ender. Mas são todas épicas e impressionantes, incluindo desde confrontos na Sala de Batalha até simulações virtuais em larga escala. O futuro meticulosamente construído por Scott Card é representado com grandiosidade, especialmente auxiliado pela trilha sonora de Steve Jablonsky, cuja mistura sólida entre orquestra, coro e música eletrônica, alternando entre momentos mais lentos e grandiosos, concede um ritmo mais enérgico e potente à história. Cenografia, visual e som ajudam a compor a atmosfera de um mundo onde crianças realmente se sentem tão intensos e soturnos como soldados de elite adultos.

Ainda que pareça apenas um filme de puro entretenimento, Ender’s Game é um conto bastante obscuro sobre guerra e empatia, que eu poderia traçar paralelos com Star Wars, Tropas Estelares e Tron, mas também com Platoon ou Nascido Para Matar, por sua história focada em personagens jovens, para um público potencialmente jovem, mas que mergulha muito profundamente na forma como o treinamento militar pode acentuar as tendências mais agressivas do ser humano, estimulando sentimentos como raiva e desejo de vitória sobre os adversários — vide as menções a Júlio César e Napoleão.

Sob o conceito de provocar uma guerra para impedir todas as guerras futuras, os soldados justificam seus atos e o uso de crianças em batalha. O filme, assim como o livro, explora as várias distorções de moralidade normalmente presentes em qualquer conflito, e como o treinamento militar pode incentivar os soldados a enterrarem suas emoções humanas. Não se trata apenas de crescer e descobrir quem você é, mas quem você espera ser. A temática é forte e mais dolorosa do que pode parecer, mas também é o que faz de Ender’s Game um jogo de apostas altas que vale a pena ser jogado.

Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Resenhas Populares

Rogue One: Uma História de Star Wars

Rogue One: Uma História de Star Wars

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Raw

Raw

Capitão Fantástico

Capitão Fantástico

O Homem nas Trevas

O Homem nas Trevas

Nível Épico em Imagens

Google Plus

Facebook

SoundCloud