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Carrie, a Estranha

Carrie, a Estranha

Amo Stephen King. Tanto que virou uma característica minha, todos que me conhecem sabem que ele é meu escritor favorito. O mais legal é que esse amor começou exatamente com Carrie, a Estranha (Carrie, EUA, 291 páginas, 1974). Eu era muito nova (muito mesmo, criança ainda) quando permitiram que eu visse o filme. Dessa experiência não lembro de quase nada a não ser o banho de sangue de porco e que adorei! Dali foi um passo para ler os livros.

Comecei com A Hora da Zona Morta (que gostei muito, mas achei muito adulto para mim na época), depois A Hora do Vampiro (reeditado como Salem), O Iluminado (que quase me fez perder uma prova de matemática, já que eu PRECISAVA terminar o livro antes de dormir) e finalmente Carrie, a Estranha. Dessa primeira vez que li, tudo que me lembro é da mãe, personagem que me impressionou muito, e da cena final do livro, momento que percebi que Stephen King é um grande escritor.

Então decidiram realizar um novo filme baseado em Carrie, a Estranha, o que me fez querer reler o livro antes de ver essa nova versão. Reli em dois dias, não apenas por ser curto, mas também por ter uma narrativa dinâmica que mistura a vida cotidiana de Carrie a relatos, entrevistas, textos científicos e relatos policiais sobre a tragédia que se abateu sobre a cidade de Chamberlain. Percebi que não lembrava alguns detalhes do livro, mas também uma outra coisa: que o autor conseguiu em seu primeiro livro ditar todo seu estilo literário e ainda mostrar que escrever um livro de terror pode ser sinônimo de boa literatura, graças à forma como ele constrói a história e envolve o leitor. O resultado é que consegui admirá-lo ainda mais.

Mas o que torna Carrie, a Estranha uma história tão fascinante e um livro tão elogiado, comentado, cultuado e adaptado? Aquilo que torna os livros de Stephen King tão assustadores: a banalidade. Ele usa a vida comum, pessoas comuns como vítimas de terrores inimagináveis. Carrietta White vive em Chamberlain com sua mãe fanática religiosa, Margaret, e estuda na High School local. Sofre bullying por ser diferente. O mais interessante sobre a trama de King é ela ser uma história básica sobre o ensino médio, onde há a menina perfeita, boazinha, com um namorado incrível e uma vida muito bem planejada; a vilã que todos adoram odiar, a mais popular da escola, que tem um pai rico e poderoso para tirar das enrascadas, e seu namorado quase marginal, porque a filhinha do papai precisa de emoção na vida; e por fim, a menina estranha que parece feia, que fica no canto tentando se enquadrar, mas não consegue.

É nesse ponto que Stephen King muda o jogo e conta a história pelo ponto de vista da estranha. Acompanhamos sua vida a partir de um momento traumático, sua primeira menstruação aos 16 anos, na frente de todas as meninas de sua turma no vestiário da aula de Educação Física, e toda a repercussão disso, já que sua mãe acredita que o sangue mostra Carrie como uma menina impura e comprova sua teoria de que ela é filha do demônio. Esse episódio também liberta algo preso dentro de Carrie: a Telecinese (que ele chama de TC). O autor mostra toda sua genialidade com textos de cientistas que estudaram a Telecinese, trechos do diário de Sue (a boazinha), partes de relatos policiais sobre o ocorrido em Chamberlain e outros artifícios para montar sua história sem ser óbvio. Ele vai aos poucos criando o clima de tensão, deixando claro que algo muito ruim aconteceu no futuro e tem relação com os fatos que ele conta no presente, aumentando ainda mais nossa expectativa em relação a vida de Carrie e de sua mãe louca.

Há um tempo li uma rápida entrevista com King falando que não tinha muita certeza sobre seguir em frente com Carrie porque ele achava que estava entrando num território estranho ao contar a história sob o ponto de vista feminino. Depois de ler tudo o que já tinha escrito, achou horrível e jogou no lixo, pois acreditava que não condizia com a realidade. Hoje em dia, nas novas edições do livro, há uma introdução de King explicando que esse deveria ser um conto, mas ficou grande e ele decidiu jogar fora o que já tinha escrito. Eram tempos difíceis e ele precisava de dinheiro rápido, um romance levaria tempo para ser editado e ter algum retorno. Nenhuma palavra sobre a dúvida se a história funcionava ou não. O fim em ambas as versões é o mesmo, sua esposa, Tabitha King, salvou o manuscrito do lixo, e foi assim que Carrie, a Estranha se tornou o primeiro romance de Stephen King, tendo se tornado um best seller.

Se realmente houve alguma dúvida de King quanto a sua capacidade de retratar o mundo feminino, ela é infundada, porque o aspecto que mais agrada no livro é exatamente ele ter conseguido mostrar Carrie através de suas inseguranças, comuns a qualquer moça de 16 anos. Isso prova que King é um excelente observador do comportamento humano, já que duas meninas da adolescência do escritor inspiraram a personagem central: uma vivia completamente deslocada socialmente e outra tinha uma mãe religiosa. Também acredito, que ter sido criado apenas pela mãe, ser casado com uma mulher de personalidade e pai de uma menina, podem ter influenciado bastante o fato de ele conhecer bem o universo feminino. Mais impressionante do que entender as inseguranças de Carrie, os relacionamentos femininos no livro são muito bem construídos, principalmente entre a protagonista e sua mãe.

Ainda sobre as recentes impressões de King sobre seu primeiro romance, ele o acha cru. Sim! Essa é uma das melhores características de Carrie, a Estranha. Não há muito adorno, ele simplesmente relata a história, conforme ela acontece, usando artifícios geniais para deixar seus leitores por dentro do que seria a Telecinese, enquanto descobrimos junto com Carrie o que estava acontecendo com ela.

Outro ponto que impressiona é a mãe de Carrie. O fanatismo de Margaret é cruel, sua fé é mais importante do que sua própria vida ou de sua filha. Ela acredita que Carrie é fruto de um pecado horrível e por isso deve ser purificada. As cenas entre Carrie e a mãe são de puro terror, porque não há amor maternal, não há um momento terno. Todos são de tensão, a qualquer momento é possível que Margaret surte e mate a filha. O medo que Carrie tem da mãe é tão latente na trama, que começamos a sofrer com ela ao ser convidada para o baile e ao descobrir suas habilidades telecinéticas. O terror do livro não é Carrie enlouquecer e usar seus poderes sem controle, é a fé cega e fervorosa de Margaret.

Qual é a história do livro? Carrie é uma moça de 16 anos, que estuda na Ewen Consolidated High School em Chamberlain, no Maine. Criada pela mãe extremamente protetora e fanática religiosa, Carrie não tem amigos e sofre bullying de quase toda a escola. Sua primeira menstruação acontece tarde, um dia após a educação física, no vestiário feminino. Ela entra em pânico, mas suas colegas acham graça e são extremamente cruéis com ela, acarretando em uma das cenas mais fortes do livro. Esse evento desencadeia os poderes telecinéticos de Carrie. Por culpa de como tratou a moça, Sue Snell abre mão de ir ao baile de formatura e convence seu namorado, Tommy Ross, a levar Carrie no baile. Ao mesmo tempo, Chris Hargensen é proibida de ir ao baile. Ela foi a menina mais cruel com Carrie durante o incidente do vestiário. Decidida a se vingar, ela bola um plano para destruir o baile e Carrie.

Uma trama simples, até batida, que poderia levar a um livro adolescente com lições de moral, mas não na mão de um escritor cheio de neuroses, que conhecia bem esse universo e que sabe muito bem transformar seus temores em histórias incríveis. Nada em Carrie, a Estranha se assemelha a um romance adolescente. Ele se aprofunda nas inseguranças de Carrie, nas loucuras de Margaret e mostra o lado mais sombrio de todos os personagens. Mesmo a boazinha Sue tem suas razões para agir como age, ao ser assombrada pela culpa e por sua vida perfeita.

Carrie, a Estranha é um livro de terror, não só psicológico, como violento, cruel, que “surpreende, machuca e horroriza”, como o próprio King define. Há cenas épicas de destruição, poderes telecinéticos, explosões, mortes bizarras e uma cena final que está entre as minhas cinco cenas favoritas em seus livros. Mas o ponto principal é a catástrofe que ganha proporção nacional, sobre a qual King mostra que sempre há a necessidade de culpar alguém por algo que não entendemos. A Telecinese, dentro do universo do livro, tem uma explicação científica e racional (você pode ler mais sobre a Telecinese nesse post), mas o que mais assusta em Carrie não é seu poder telecinético, nem o fanatismo de Margaret; é até que ponto pode chegar o ser humano, característica recorrente nos livros do escritor. Todo o estudo criado, tentativas de entender a tragédia, levam a uma única conclusão: o que é diferente ainda assusta muito e quando não é marginalizado, é atacado gratuitamente.

Stephen King é um grande escritor de terror, com certeza o maior de sua geração. Na verdade, um dos maiores da atualidade, dentro e fora de seu estilo, por conseguir mostrar o lado mais sombrio do ser humano, por dividir com a gente seus medos e por me fazer apaixonar por sua escrita uma e outra vez, todas as vezes. Todos nós certamente devemos agradecer a Tabitha King por ter salvado Carrie do lixo e apresentado Stephen King ao mundo.

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