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Azul É A Cor Mais Quente

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Histórias sobre a descoberta do amor e da sexualidade são abundantes na literatura e no cinema. O tema é fascinante para tantos artistas pelo turbilhão de emoções típicos desta fase da vida, quando os hormônios estão à flor da pele. O grande diferencial para um assunto tão comum é fazê-lo refletir o tempo em que se vive e, simultaneamente, a condição humana universal, que cria a identificação entre obra e público, não importa o quanto estes sejam diversos.

Pois ambos os quesitos foram atingidos com louvor no filme Azul É A Cor Mais Quente (La Vie d’Adèle – Chapitres 1 et 2, França, 2013). Primeira adaptação de uma história em quadrinhos a ganhar a Palma de Ouro em Cannes, o longa dirigido por Abdellatif Kechiche nos conta a história de Adèle (Adèle Exarchopoulos), uma adolescente francesa que se apaixona por uma garota de cabelos azuis chamada Emma (Léa Seydoux).

A condição humana está presente na própria paixão de Adèle, que como todo primeiro amor, é arrebatadora e intensa. Para conquistar Emma, a protagonista tem que superar sua timidez e seus medos típicos da adolescência, situação pela qual todos já passaram. O fato de ser retratado na tela um romance homossexual, e se constata que as situações são iguais a de uma relação heterossexual, com um diferencial – o preconceito –, assume o caráter de fator universal da obra, criando identificação com as situações mesmo a quem é heterossexual.

O filme reflete o tempo em que vive graças a uma opção estética bastante curiosa de seu diretor, que é a utilização praticamente constante da câmera em close, com foco na protagonista. O resultado final é bastante invasivo. A intimidade de Adèle é devassada sem nenhuma cerimônia a todo o tempo.

Se pensarmos que a privacidade torna-se uma qualidade cada vez mais rara, se não mesmo obsoleta, podemos afirmar que essa escolha do diretor é proposital, não apenas como um mero voyeurismo, mas como um reflexo de como a geração de Adèle, que cresce com a internet, vê a si própria. Os próprios diálogos entre as amigas reforçam isso, pois entre elas nada pode ser segredo, nem mesmo as experiências sexuais.

Assim, a cena onde Adèle é pressionada a assumir sua condição homossexual na frente de todos é forte em vários sentidos. A carga de preconceitos a faz ficar na defensiva o tempo todo, mas o que parece incomodar mais suas interlocutoras não é tanto o fato dela estar enamorada por outra mulher, mas a de querer esconder isso. Na lógica do Grande Irmão que é tão natural a estas meninas, o segredo e a tentativa de privacidade é a maior das traições e motivo mesmo de exclusão social.

No mesmo sentido, as polêmicas cenas eróticas. Como em todo o filme, os closes são presentes, o que a primeira vista se aproxima do mero relato pornográfico. Mas para o olhar de Kechiche, não há pudores. Seja na felicidade, no choro, na hora de comer ou na de fazer sexo, tudo é relatado de forma radical. Os famosos 7 minutos “das mulheres se pegando”, mais do que mero fetichismo masculino, são fruto da intensidade retratada em cada frame, cada enquadramento do longa. Assim, o gozo e o choro de Adèle possuem igual valor estético dentro da obra.

Enquanto Adèle descobre o amor e a vida, o espectador descobre quem é Adèle. Suas inseguranças, alegrias, tristezas e até seu tesão são compartilhados com a plateia. A empatia, portanto, é inevitável. Os muitos planos-sequência utilizados ajudam a imprimir o tom de naturalismo que é fundamental para a identificação entre protagonista e público.

Desta forma, Kechiche consegue transpor ao cinema a verdadeira experiência humana. É notável o seu amor por sua personagem principal, que podemos dizer tratar-se de um amor nietzschiano, abraçando Adèle em toda a sua Vontade de Potência, em todos os seus momentos bons e ruins, aceitando-a sempre de forma terna e verdadeira, evitando julgamentos.

Aliás, toda essa ternura faz de Abdellatif Kechiche uma espécie de anti Michael Haneke, diretor de filmes como A Fita Branca e Amor. Enquanto Haneke parece se preocupar em filmar o que a humanidade tem de pior, e tem um certo prazer sádico com o sofrimento que causa em seu público, Kechiche busca ser intenso sem julgamentos, mostrando que a vivência dos seres humanos possuem bons e maus momentos, e que é na aceitação de ambos que a plateia irá se identificar. Tudo isso faz de Azul É A Cor Mais Quente uma experiência cinematográfica única, da qual o público não sai com indiferença. E nos lembra o porquê de a experiência cinematográfica ser humana, demasiadamente humana.

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