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Crônicas de Espada e Magia

Crônicas de Espada e Magia

O mercado brasileiro de Fantasia vive um bom momento, com o número de publicações aumentando exponencialmente nos últimos anos. Contudo, muitos clássicos ainda permanecem inéditos em nosso país. Além disso, temos vários escritores nacionais de qualidade que ainda não são conhecidos do grande público.

Pensando em tudo isso, a editora Arte & Letra, em parceria com a Argonautas, trouxe às nossas livrarias o livro Crônicas de Espada e Magia (Brasil, 344 páginas, 2013). Organizada por Cesar Alcázar, a antologia cumpre a dupla função de apresentar aos leitores do Brasil autores clássicos do gênero e, ao mesmo tempo, compatriotas que merecem ser conhecidos do grande público.

A abertura fica ao cargo de O Vale do Verme, de Robert E. Howard – o criador de Conan. Trata-se da primeira aventura de James Allison, um herói que em seu leito de morte relembra aventuras de vidas passadas.

O conto é bem característico da era pulp, com frases grandiosas e cheias de adjetivos, utilizadas para descrever um passado longínquo e fantástico de nosso planeta. Infelizmente possui também alguns vícios da época, com uma visão de tom racista dos arianos como raça superior, o que é lembrado diversas vezes ao longo do texto. Mas é uma leitura divertida, com alguns elementos lovecraftianos – aliás, Howard e Lovecraft trocavam correspondências, com um influenciando o trabalho do outro. Quem joga RPG vai perceber ainda a origem de muitos elementos que até hoje marcam o gênero Fantasia deste jogo.

O Sinal da Forca, de Carlos Orsi, se utiliza do gênero para fazer crítica social ao fanatismo religioso e ao racismo existente no mesmo, como o próprio conto anterior pode atestar. Para isso, brinca muito bem com a duplicidade da palavra “deus” dentro desta tradição literária, com um resultado final instigante. É o melhor conto nacional do livro.

A Cidade do Sonhar, de Michael Moorcock, é um clássico absoluto publicado pela primeira vez no Brasil. Trata-se do primeiro conto de Elric de Melniboné, o guerreiro albino que é o último de sua raça. A mistura de magia negra e aventura funciona, resultando numa origem trágica e empolgante de um herói que merecia ter mais histórias publicadas em nosso país.

A Vingança é Para Todos, de Thiago Tizzot, parte de uma premissa interessante, mas apresenta problemas que influem no resultado final. O conto começa com a descrição empolgante de uma cidade fantástica, com grandes batalhas, mas o cenário logo é abandonado.

O conto peca ainda por excesso nas descrições, o que atrapalha principalmente quando aparecem dentro dos diálogos, atrapalhando a fluência dos mesmos. Há também um artefato importante que é inserido de repente, via flashback. Com importância central na trama, poderia ter aparecido antes para dar mais tensão à narrativa. A impressão é que esta obra funcionaria melhor como um romance, no qual o autor teria a possibilidade de desenvolver mais seu cenário, que possui um bom potencial.

Encontro Fatídico em Lankhmar, de Fritz Lieber, é talvez a melhor novela desta antologia. Outro clássico do gênero, até então inédito em publicações tupiniquins, nele conhecemos a dupla de ladrões Fafhrd e Rato Cinzento, que após uma noite de bebedeira resolvem enfrentar a Guilda de Ladrões da cidade do título. Excelente ritmo e ambientação – quase sentimos a sujeira do local pela descrição do autor – e um final de certa forma surpreendente que resultam numa obra memorável.

Cavalos?, de Max Mallmann, é uma divertida mistura de fábula e anedota. Embora seja um bom conto, e tenha um elemento fantástico, parece meio deslocado dentro da antologia. Ainda assim, vale a leitura deste grande autor nacional, já indicado ao Prêmio Jabuti.

Crepúsculo de Dois Sóis, de Karl Edward Wagner, é outra excelente aventura. O conto apresenta Kane, um rei imortal que perde a coroa e, ao vagar sozinho no deserto, encontra um gigante atrás de um tesouro. Com um forte poder descritivo e personagens cativantes, o autor consegue alterar momentos reflexivos e emocionantes de maneira bastante eficaz.

A Anta das Virgens, de Ana Cristina Rodrigues, é um conto que se passa no Universo Finisterra, criado pela própria autora, onde a Península Ibérica é povoada por seres fantásticos e a magia se faz presente. É interessante termos uma visão feminina, com protagonistas femininas, num gênero originalmente masculino. A autora trabalha há vários anos neste cenário, e faz o leitor se perguntar quando poderá conhecer melhor este mundo.

As Canções Solitárias de Larren Dorr é a estreia de George R. R. Martin na literatura fantástica. Ainda longe do estilo que o consagrou com As Crônicas de Gelo e Fogo, temos aqui uma obra mais poética e leve, sem todo o sexo, violência e política de sua obra mais famosa.

O Bebedor de Almas, de Roberto de Sousa Causo, é outro conto ambientado na Península Ibérica, embora o elemento fantástico esteja presente de forma discreta na trama. A abordagem aqui é de uma fantasia mais pé no chão, e bem calcada na História de Portugal. O protagonista é bem construído, todavia o vilão poderia ser mais desenvolvido. O clímax da trama acaba sendo resolvido rápido demais, tirando um pouco da emoção da leitura.

O livro se encerra com o conto Onde Mora a Virtude, de Saladin Ahmed, que apresenta a dupla de heróis Adoulla Makhslood e Raseed bas Raseed. Em teoria é uma fantasia com temática árabe, mas a ambientação é fraca, e pouco desenvolvida. A trama poderia se passar em qualquer universo fantástico genérico. Os protagonistas também não empolgam, são pouco simpáticos, embora a diferença entre eles rendam bons momentos de humor.

Em meio a tantos lançamentos do gênero nos últimos anos, esta antologia sem dúvida merece destaque, sendo leitura essencial por apresentar grandes nomes que, inexplicavelmente, ainda não são conhecidos do público brasileiro. O livro mostra que ainda há muito a ser explorado dentro do gênero, e que ainda existe muito a ser descoberto pelo grande público.

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