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O Conselheiro do Crime

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O Conselheiro do Crime

O Conselheiro do Crime (The Counselor, EUA, 2013) inspira medo, mas começa com sedução, ao apresentar personagens que parecem “deuses desfrutando de seus dias de prazer” — no caso, Michael Fassbender e Penélope Cruz. A história é sobre esse advogado chamado simplesmente de Conselheiro (Michael Fassbender), um advogado corrupto, sem nome, que curiosamente, recebe mais conselhos do que oferece e, mesmo assim, não consegue perceber os perigos do mundo do tráfico de drogas em que está envolvido. Como um deus, se acha imbatível, mas deuses também caem, geralmente de forma memorável e impiedosa.

Westray (Brad Pitt) é um homem que ajuda o advogado nas negociações, que envolvem cerca de $ 20 milhões em drogas. Reiner (Javier Bardem) é o criminoso que traz o Conselheiro para o tráfico de drogas, e vive com uma mulher sedutora e misteriosa — e porra-louca — chamada Malkina (Cameron Diaz). Quando o Conselheiro está prestes a se casar com sua amada mulher, Laura (Penélope Cruz), ele acaba tendo que lutar por sua vida quando sua transação dá errado.

O Conselheiro do Crime é basicamente um filme sobre bem e mal; mas como é escrito por Cormac McCarthy, a história tende para o mal. McCarthy é conhecido por seus livros renomados, que foram adaptados nos filmes Onde os Fracos Não Têm Vez, A Estrada e Espírito Selvagem. McCarthy, que é um cinéfilo de carteirinha, viu vários de seus romances adaptados para o cinema e reverenciados, mas nunca fez um filme original antes. Esse é o seu primeiro; e sua influência é visível em cada cena, cada personagem, cada diálogo.

Destaque para os diálogos. Seus personagens se encontram para tratar de negócios, mas discutem percepções e perversões complexas sobre significados teoricamente triviais. O jogo de palavras é rico, ritmado, claramente o produto de alguém que possui amor pela linguagem e tudo o que ela pode esconder ou revelar. Mas ouvir atentamente aos diálogos é ouvir a defesa de uma filosofia de mundo, onde amor é uma ilusão e apenas na morte talvez possamos encontrar algo como redenção.

Ainda que seja dirigido por Ridley Scott, esse não é um filme de Ridley Scott. O dono do filme é McCarthy, com seu estilo característico, sua percepção agressiva do ser humano e da criminalidade, e sua tendência para contar histórias sem seguir convenções — muitos podem estranhar a forma como a trama é conduzida e termina, mas o roteiro é bem encadeado e se fecha eficientemente dentro de suas propostas, ainda que o final pareça ficar em aberto. Sabemos que há um traidor, quem é e por quê, mas a maior parte de como a traição acontece está fora não só do nosso campo de visão, mas também do campo de visão dos personagens principais. Pouco é mostrado, de propósito. O enredo é intencionalmente abstraído dentro de seus contornos fatalistas. As peças de O Conselheiro do Crime formam um quebra-cabeça incompleto, e por isso mesmo, é ousado e emocionante, de uma maneira que os principais filmes da indústria cinematográfica raramente são hoje em dia.

Depois de anos tendo suas palavras interpretadas por outros cineastas, dessa vez, McCarthy teve mais controle sobre sua obra. Ele assumiu como produtor executivo, e opinou em tudo, desde o diretor e o elenco até os ajustes para o linguajar cínico e a edição final. Ele participou de todo o processo. O talento e a grandiosidade de Scott, no entanto, estão no filme, e o diretor concede seu toque agressivo à selvageria da trama, mas não deixa transparecer tanto de sua presença, permitindo que o brilho fique por conta do roteiro de McCarthy. A história e seus desdobramentos é o que importa.

Em certos aspectos, O Conselheiro do Crime até mesmo parece traçar um paralelo com Onde os Fracos Não Tem Vez, e ambos poderiam, inclusive, se passar no mesmo universo ficcional. Grande parte da premissa é que os fracos — e principalmente os relutantes — não sobrevivem no jogo de morte dos cartéis, traficantes e empresários inescrupulosos. Tolos são aqueles que acreditam que podem tratar com criminosos sem se envolver plenamente em suas atividades. Estar na lama é se sujar, não existe meio termo. McCarthy apresenta sua história como toques de noir, chafurdando impiedosamente seus personagens na corrupção e na violência, e exaltando como uma mulher pode ser forte — e fatal.

O Conselheiro é um homem decente que acorda de manhã e decide fazer algo errado. O Conselheiro do Crime é um conto curto, frio e grosso sobre fazer escolhas erradas, ter consciência disso, e entender que, cedo ou tarde, terá que arcar com as consequências. Como eu disse, não se pode entrar na lama e achar que vai sair limpo dela. E a beleza do filme é justamente por essa visão inquietante de mundo, e por seus diálogos quase filosóficos sobre moral e perversão.

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