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Os Suspeitos

Um pai desesperado para recuperar sua filha, que foi sequestrada junto com a filha de seu amigo e vizinho, decide fazer o que for preciso para encontrá-las, mas ao fazê-lo, ele pode se perder completamente, e se tornar alguém tão perigoso quanto aquele que sequestrou as meninas. Até onde vai a linha entre a busca de justiça e se tornar um vigilante?

Essa é a premissa básica de Os Suspeitos (Prisoners, EUA, 2013), filme dirigido por Denis Villeneuve que conta a história de Keller Dover (Hugh Jackman), um homem que está enfrentando o pior pesadelo de todos os pais. Sua filha de seis anos de idade, Anna, desapareceu juntamente com sua amiga, Joy, e quando minutos se tornam horas, o pânico se instala. A única pista é um veículo que tinha estacionado em sua rua. O detetive Loki (Jake Gyllenhaal), encarregado da investigação, prende o motorista do veículo, Alex Jones (Paul Dano), mas a falta de evidências o obriga a liberá-lo. Sabendo que a vida de sua filha está em jogo, Dover, enfurecido, decide que não tem escolha a não ser resolver o assunto com suas próprias mãos. Além de Hugh Jackman e Jack Gyllenhaal, o suspense apresenta um elenco de estrelas, incluindo Maria Bello como a esposa perturbada de Keller, Grace; Terrence Howard e Viola Davis como Franklin e Nancy Birch, cuja filha Joy desapareceu com a filha de Dover; e Melissa Leo como Holly, tia de Alex Jones.

Os Suspeitos

Como primeiro longa-metragem norte-americano de Villeneuve, o filme é uma experiência cinematográfica respeitável, que apresenta de forma intransigente e incansável a temática do sequestro, usando inteligentemente os talentos de seus atores e também daqueles que estão por trás das câmeras. Não apenas a direção é bastante segura e eficiente, mas roteiro, montagem, design de produção, fotografia e outros aspectos técnicos contribuem para a construção do cenário ora idílico ora aterrorizante desse suspense policial. Outro elemento importante é que Os Suspeitos não é focado na ação. Ao invés disso, prefere se preocupar com as escolhas — normalmente precipitadas — dos personagens centrais. O filme analisa de forma particularmente sombria o horror do rapto de crianças a partir de vários pontos de vistas. As atitudes do pai inflexível, a investigação do detetive comprometido — porém até certo ponto insensível — e a interação entre as perspectivas dos dois promovem sequências de grande impacto, que transitam entre temas como culpa e absolvição, justiça e vingança, comprometimento e descaso.

Um grande mérito do filme é criar uma atmosfera de mistério intrincada, em que é difícil prever o que acontecerá a seguir. Enquanto tentamos ativamente antecipar voltas e reviravoltas para resolver o mistério antes dos protagonistas, a história já está deu alguns passos a nossa frente. Mesmo quando conseguimos prever uma ou outra coisa, o drama se desenvolve por outros caminhos, que nos surpreendem e colaboram com a tensão da trama. O roteiro elaborado por Aaron Guzikowski desenvolve-se pouco a pouco em um labirinto retorcido cheio de personagens críveis fascinantes, e todas as cenas são essenciais para o enredo, nada é desperdiçado.

As performances fortes ajudam a elevar o tom do filme. Jackman mais uma vez prova sua versatilidade como ator, capaz de manter um personagem dramático com segurança e emoção, assim como consegue ser combativo ou divertido em papéis mais leves ou de ação. Considerando o tema e as ações desmedidas de Dover na busca por sua filha, Jackman sem dúvida merece bastante crédito por levar seu personagem por um caminho tortuoso, que nos desperta tanto vergonha quanto empatia. Não há respostas ou soluções fáceis em Os Suspeitos, e é essa discussão sobre moralidade que torna o filme tão desconfortavelmente emocionante.

O personagem de Gyllenhaal, detetive Loki, surge como contraponto de Jackman, equilibrando as questões morais da trama e adicionando uma série de sutilezas únicas que ajudam a diferenciá-lo de outros personagens semelhantes em histórias de detetives, sequestros e assassinatos. Loki tem bom coração, mas não é aquele cara bonzinho e ingênuo. Ele tem momentos de vulnerabilidade e de comando, sabe ser rigoroso quando necessário, se esforça para ser justo e reconhece seus acertos e seus erros. Jackman e Gyllenhaal compõem o ponto central da trama, auxiliados pelos desempenhos igualmente fortes do elenco de apoio, com destaque para Paul Dano, Terrence Howard e Viola Davis, que acrescentam um pouco mais de tensão moral à história.

Os Suspeitos é um olhar violento e perturbador sobre as linhas tênues que separam pessoas boas e pessoas más, conduzido por uma envolvente e inquietante história de sequestro. Villeneuve se compromete com seu material de todo o coração, e isso concede alma ao filme.

Com sua atmosfera opressora, mais preocupada em provocar tensão do que sustos, o filme respeita a inteligência do espectador, apresentando pistas concretas a todo instante, e mantém o engajamento do público, que se defronta não apenas com o mistério do paradeiro das meninas, mas também com os dilemas morais de seus pais e da própria polícia que investiga o caso. A natureza da investigação e seu impacto no investigador ganham importância quase tão grande quanto o mistério. A exploração sombria e perspicaz do comportamento humano por trás de uma das ações criminosas mais detestáveis da nossa cultura é tão impactante que, além de seus personagens, aprisiona a todos nós em uma rede de emoções e incertezas.

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