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Tensão, Tecnologia e a Ciência Por Trás de GRAVIDADE – Com Spoilers

Gravidade Tecnologia e Ciência

Quando o diretor Alfonso Cuarón estava planejando seu filme sobre um astronauta abandonado no espaço, Gravidade, ele imaginou uma história de ação e drama em órbita, a maior parte com apenas um único personagem sem peso durante toda a obra. Seria filmado usando sua assinatura de tomadas longas de plano-sequência. Gravidade estreou e, de fato, é uma obra de arte do cinema, escrito em conjunto com seu filho, Jonás Cuarón, e protagonizado por Sandra Bullock e George Clooney.

Acompanhando os comentários de muitos amigos sobre o filme, reparei que muitos conversavam sobre o filme ser ou não ser uma ficção científica, e sobre a veracidade dos fatos vistos na história. Pode ser que não seja uma ficção científica nível HARD, mas acho que sim, é uma ficção científica por explorar a viagem ao espaço, um aspecto da ciência que, apesar dos avanços contemporâneos, ainda permanece no imaginário como algo de alcance limitado, especialmente para a maioria das pessoas.

Gravidade pode não ser uma viagem prolongada ao espaço profundo como um Star Trek ou um Star Wars, mas ainda é uma viagem para além das fronteiras da Terra. Além disso, a própria revolução que o filme representa em termos de tecnologia cinematográfica já é por si só um elemento digno de ficção científica, por promover inovações técnicas que terão impacto na forma de produzir cinema daqui pra frente. A profundidade fica por conta dos simbolismos que Cuarón usa para tratar das emoções humanas, e nesse caso, o filme se sente mais como um drama, com doses de suspense pela tensão da luta pela sobrevivência no espaço.

Na trama, a Dra. Ryan Stone (Bullock) é uma brilhante engenheira médica em sua primeira missão espacial. Ela é acompanhada pelo veterano astronauta Matt Kowalski (Clooney), em seu último voo antes de se aposentar. Porém, um desastre acontece e o ônibus espacial é destruído. A chuva de destroços que provoca do desastre desencadeia uma sequência de desastres que deixam Stone e Kowalski completamente sozinhos no espaço.

Cuarón afirmou em uma entrevista à Variety que não queria fazer um filme “futurista”, mas uma história que fosse viável nos dias atuais. Como eu disse na crítica do filme, Cuarón e seu filho concentraram a história em um dos cenários espaciais mais temidos pela NASA da vida real — a Síndrome de Kessler. Em 1978, um cientista da NASA chamado Donald J. Kessler teorizou que existe uma quantidade suficiente de objetos na órbita baixa da Terra para que qualquer colisão entre esses objetos provoque um efeito cascata, em que os restos do primeiro acidente vão causando mais acidentes, criando mais detritos, e causando outros acidentes um atrás do outro. Uma vez que a Síndrome de Kessler começa, qualquer material ou pessoa em órbita estaria sujeito a um bombardeio letal por estilhaços movendo-se a velocidades tremendas.

Cuarón realmente criou um filme viável, tanto em termos de tecnologia para ser produzido, como em termos de verossimilhança com a realidade — verossimilhança, não veracidade, porque o filme se assemelha à realidade, mas não pretende necessariamente ser verdadeiro. Como eu também disse na crítica, a história oscila entre o verossímil e o fantasioso, sem medo de ousar e crescer durante o processo, justamente porque uma de suas premissas é acreditar e ter esperança. Como qualquer boa história de ficção científica, a velha e boa suspensão de descrença se faz necessária.

Gravidade, cientificamente falando, é de uma eficiência impressionante e desesperadora. Mas apesar do espaço sideral espetacular e da história que se sustenta diante de suas limitações, Gravidade tem seus momentos de liberdade criativa — tomadas em prol de contar sua história, como acontece em qualquer filme. Como muita gente esteve se questionando sobre as probabilidades disso ou daquilo acontecer, aproveitei uma entrevista que o astrônomo Phil Plaite e os ex-astronautas Leroy Chiao e Tom Jones deram à Entertainment Weekly revelando alguns fatos sobre a ciência por trás do filme.

De acordo com os entrevistados, os “erros” do filme poderiam ser considerados menores se comparados à outros filmes no espaço, e em termos de precisão científica, não é perfeito, mas é preciso o bastante para remeter à 2001: Uma Odisseia no Espaço — provavelmente o filme ambientado no espaço mais respeitado até hoje. Dentre algumas revelações feitas durante a entrevista, algumas valem ser mencionadas.

1- Não seria possível ao olho humano enxergar os destroços vindo em direção aos astronautas, pois é como a velocidade de uma bala de rifle, e não seria possível ver isso.

2- A posição do Hubble, ISS e da Estação Chinesa são atalhos narrativos usados para representar os obstáculos a serem superados pelos astronautas no primeiro, segundo e terceiro atos do filme. Basicamente isso. Porque de acordo com os entrevistados, os três objetos estão em três órbitas completamente diferentes e em diferentes alturas. Seria impossível saltar de um para o outro, e não dá para simplesmente ativar os propulsores e ir até eles — mas é por causa da forma como as estações são usadas que a história do filme consegue se sustentar e avançar entre seus atos dentro de uma proposta que é limitada; antes de assistir ao filme, eu mesmo me perguntava várias vezes como uma história de astronauta perdido no espaço se manteria durante uma hora e meia.

3- Kowalski (Clooney) morre unicamente por questões dramáticas de roteiro. De acordo com o astrônomo, quando Kowalski se solta, fisicamente, nada estava puxando ele para o lado oposto, não havia força alguma sobre ele, e considerando que ambos estavam num ambiente sem gravidade, bastaria um leve puxão que Kowalski seria trazido de volta até a Dra. Stone (Bullock).

4- Retirar o traje de astronauta não é tão simples como vemos no filme, quando Ryan tira a roupa rapidamente assim que entra na nave. Por ser muito grande, volumoso e pesado, o processo de tirar o traje pode demorar cerca de uma hora ou mais sem ajuda.

5- Por baixo do traje, o astronauta usa uma roupa de refrigeração líquida que possui vários tubos cheios de água acoplados para manter o corpo fresco, caso contrário, o astronauta morreria de calor. Isso significa que um astronauta usa muito mais roupa por baixo do traje do que Sandra Bullock aparece usando — se bem que a camisa regata e o shortinho são uma prova de que a Sandra Bullock fica mais bonita à medida que envelhece, impressionante!

6- O jetpack, chamado de MMU (Man Maneuvering Unit, ou Unidade de Manobra), na realidade, não tem tanto combustível como é mostrado no filme. Dito isso, Kowalski não poderia ficar voando ao redor, fazendo piadas e tudo o mais, como aparece no início, e certamente não teria combustível suficiente para perseguir alguém que tinha sido arremessado para uma direção diferente, e mudar as órbitas e avançar para outra estação — mas claro que o jetpack é muito mais instigante e divertido como foi mostrado no filme, inclusive com as piadas de Kowalski.

7- O caso do extintor de incêndio, uma sacada que eu gostei no filme, seria teoricamente possível, mas traçar aquele cenário daquela forma seria algo muito mais complicado do que foi mostrado. Segundo os entrevistados, é plausível, mas pouco provável. Poderia ser feito, mas exigiria, além de tudo, muita sorte para fazer tudo funcionar.

Alfonso Cuarón criou seu filme inspirado em elementos, questões e teorias científicas, mas como qualquer cineasta, em qualquer produção cinematográfica, tomou suas liberdades, fez suas adaptações, e supervalorizou o tema para representar as várias adversidades que normalmente enfrentamos na vida para crescer como pessoas. Se é um filme de ficção científica, de drama, de suspense? Se é verossímil ou veraz? Acho que é tudo isso junto. E mais um pouco.

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